Domingo, 30 de Agosto de 2009

O grande sofisma do conservadorismo laranja

 

Quando Ferreira Leite acusou o governo de “diluíram-se pilares da sociedade como a família e o casamento, para impor a vontade da lei onde devia prevalecer a liberdade individual”, assume que está a tornar explícito o que Cavaco resmunga através de vetos. E que a líder do PSD forma com o casal de Belém uma comunhão activa, e na ofensiva, da parte mais conservadora e retrógrada da sociedade portuguesa, escorada na hierarquia do clero católico, contra a modernização da sociedade portuguesa, exactamente nos pontos culturais em que o salazarismo resistiu ao 25 de Abril e à democratização. Mas, no caso de MFL, uma respeitável senhora divorciada, a acusação é uma incoerência que se soma ao anacronismo, pois não passará pela cabeça de ninguém supor que a senhora optou pelo seu divórcio para abalar pilar algum da sociedade portuguesa, tendo-se tratado apenas de uma opção pessoal partilhada com outro cidadão no quadro do permitido.

 
Mas MFL recorre ao mais velho sofisma dos reaccionários em usos e costumes e sempre que a sociedade abre novos espaços de liberdade individual. A legalização do IVG não obriga qualquer mulher a abortar ou inibe qualquer casal de ter uma prole que encha uma creche. A anulação das regras humilhantes e discriminatórias para se obter um divórcio não atrai um único casal feliz a separar-se. A dignificação das uniões de facto não representa qualquer obstáculo a quem se queira casar ou permaneça celibatário. O combate à discriminação homofóbica não torna um(a) heterossexual em gay ou lésbica. No entanto, quando se potencia, por via legislativa, o alargamento de escolhas que aumentam as liberdades individuais, ai jesus, gritam os tradicionalistas cristalizados no conformismo, que a Lei e o Estado nos estão a empurrar para a libertinagem, a devassa e os bons costumes benzidos. Como se os cidadãos fossem ovelhas tontas (ou adolescentes tardios) que, mal pastoreadas, desatarão a experimentar os limites do não interdito, ultrapassando-os se possível.
 
É bom que se tenha em conta este novo dado do combate político do momento e do futuro: os grandes desafios da modernização da sociedade portuguesa são de natureza cultural.  E, nesta luta, o incremento das liberdades individuais, o alargamento das escolhas não perseguidas, afinal na linha do autêntico pensamento liberal, está na esquerda e no seu segmento menos preconceituoso (porque também há, culturalmente, uma “esquerda reaccionária”), a fim de permitir (a nada obrigando) uma valorização do privado e da liberdade, com menos Estado e menos Leis a condicionar as escolhas, tendências e projectos de vida. São e serão os reaccionários, os do conservadorismo tradicionalista, apoiados e espicaçados pela Igreja, que defendem o congelamento da legislação para que o interdito jurídico mantenha os bloqueios às liberdades e escolhas individuais, ou seja, um Estado normativo e valorativo segundo o totalitarismo católico enquanto herança da velha sociedade legada pelo velho regime. Estes ganharam Belém, agora querem dominar São Bento e o parlamento. Mas a escolha é nossa, de todos.

 

Publicado por João Tunes às 23:01
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