
Embora por causa de algumas linhas tortas, valeu a pena o atraso na edição do livro de Rui Bebiano intitulado “Outubro” (*), agora finalmente disponível para leitura. Refiro-me à sua coincidência com a espécie de polémica causada pela direita madeirense de propor que a próxima revisão constitucional inclua a proibição do comunismo. E quem acredita em bruxas até pode convencer-se que a Editora subornou o bronco Alberto João para dar uma ajuda ao lançamento de “Outubro”, incrementando a sua oportunidade. No meio do chinfrim provocado pela insólita e provocatória proposta vinda do bunker reaccionário madeirense e do aproveitamento vitimizante dos provocados, a que se juntaram muitas almas escandalizadas com a hipótese de se perder a unicidade condenatória dos extremismos políticos e ideológicos sobre as costas do nazi-fascismo, a leitura deste livrinho pode ajudar a passar-se do barulho para o debate, da esgrima emocional para o entendimento das razões porque, ainda hoje, a ideia comunista construída à volta e em consequência do fragor da Revolução de Outubro (1917), mesmo com os milhões de esqueletos de vítimas no seu armário, é intocável em termos de julgamento e condenação.
Pela abordagem metódica e sintética da longa viagem do projecto revolucionário comunista, da sua génese leninista até aos nossos dias e nas suas sobrevivências serôdias (algumas, absolutamente grotescas), o livro de Rui Bebiano constitui um talentoso e rigoroso “ponto da situação” bem ancorado nos factos históricos relevantes e no desenvolvimento teórico da sua ortodoxia e heterodoxias, aliando um estilo académico (no que ele tem de obrigações perante o rigor da linguagem e o método historiográfico, sem os bordões da “linguagem de madeira” típicos das obras comunistas e de muitos dos que com eles polemizam) que é qb para que não deixe de ser, como é, uma obra de divulgação e facilmente integrável na discussão política corrente. O que se entende bem se se tiver em conta que o texto (depois revisto e trabalhado) resultou de uma colagem de posts que Rui Bebiano editara no seu blogue. Na dimensão dos seus objectivos próprios, pode dizer-se que o universo editorial português não contava antes com uma obra que aliasse de forma tão conseguida a abrangência e a síntese acerca do tema tratado, passando “Outubro” a ser uma incontornável obra de iniciação no estudo e reflexão sobre a ideia comunista para os que tiverem como objectivo abordá-la de uma forma desinibida mas rigorosa, liberta dos lugares comuns pró e contra que alimentam a fornalha da paixão política e partidária.
“Outubro” tem ainda o mérito de, em vez de fechar o debate, o abrir e suscitar. E, neste aspecto, adianto e arrisco quatro pontos, provavelmente bons para uma estimulante querela futura. Desde logo, a ideia de utopia que Rui Bebiano coloca (com um carinho não escondido pelo autor) não só como fonte de perenidade da ideia comunista contra ventos, marés e evidências, mas como a integração desta (a utopia) na atracão humana pela emancipação revolucionária (o corte no lugar da reforma). Depois, Rui Bebiano não aborda, ou trata apenas de raspão, o fenómeno (e a sua génese) da degenerescência da prática de poder do comunismo que, em todos os lados onde vingou, numa constância inevitavelmente com origem numa marca “genética” da estrutura e prática partidária, que, com a ascensão ao poder, transforma automaticamente uma organização militante assente na generosidade do protesto e da pulsão pela transformação (iluminada pela utopia, pois claro) para Estados policiais, repressivos e sobrevivendo, se necessário, através do assassínio em massa. Em terceiro lugar, a centralidade do discurso de Rui Bebiano na figura de Lenine não permite definir, na sua justa medida, o papel de Estaline e a sua acção transformadora do partido comunista, quando desde os anos 30 do século XX é o estalinismo (com o leninismo sujeito ao descarnamento da referência) que marca não só a URSS e o PCUS como todos os partidos comunistas no mundo. Finalmente, a importância da purga e da dissidência no universo partidário comunista (e respectivas perseguições aos “tresmalhados”), como uma espécie de necessidade e compulsão, muitas vezes tipificando comportamentos paranóicos de exercício de poder que levaram ao paradoxo sangrento de terem sido assassinados mais comunistas (muitos morrendo a gritarem “viva o comunismo!”) por parte de poderes comunistas que os que foram liquidados pelo seu oposto no extremismo ideológico, o nazi-fascismo.
(*) – “Outubro”, Rui Bebiano, Editora Angelus Novus.
[Nota: Pode adquirir o livro pela internet (ir aqui)]
Imagem: A Comissão Política do PCUS na tribuna na Praça Vermelha (Moscovo) sobre o túmulo de Lenine e Estaline (quando as múmias de ambos foram condóminas do mesmo mausoléu).