Terça-feira, 14 de Julho de 2009

O discurso escondido do que foi o patrão dos patrões

         

 

Para se conhecer a tradição da cultura patronal portuguesa será incontornável conhecerem-se os discursos (o público e o escondido) do maior patrão da indústria portuguesa de todos os tempos, Alfredo da Silva, que, através da CUF e à sombra do proteccionismo salazarista, construiu aquele que chegou a ser o maior complexo industrial da península ibérica e um dos maiores na Europa. Que, pelo gigantismo industrial da rede de actividades e empresas que criou e que os Mellos, seus herdeiros, ainda ampliaram mais, criou também a maior concentração operária portuguesa, aglutinando uma enorme migração de camponeses que fugidos das fomes nos campos (das Beiras, do Alentejo e do Algarve) constituíram o típico “proletariado CUF” que ainda hoje marca a paisagem humana e social de Alcântara e, sobretudo, da cidade do Barreiro.

 
Com formação académica virada para os negócios, herdeiro de uma média fortuna, tarimbado na actividade bancária e na administração da Carris, Alfredo da Silva era um genuíno e entranhado homem de visão larga para o negócio e a criação empresarial mas senhor de um posicionamento profundamente conservador e reaccionário. Grande patrão, era autoritário de tipo autocrático, violento nos ódios, germanófilo, monárquico, sidonista, antisindical e antidemocrático. E plasmou todas essas características numa adesão indefectível ao salazarismo, sendo um dos esteios das oligarquias em que o regime do “Estado Novo” se sustentou. Na criação inicial do seu império industrial nas duas margens do Tejo mas progressivamente expandido na vasta área industrial barreirense, que coincidiu com o período republicano e com um sindicalismo de forte influência anarquista pela frente, Alfredo da Silva envolveu-se no embate brutal frente às reivindicações operárias (em que as mulheres ocuparam lugar de destaque na luta) que procuravam minorar as terríveis condições de exploração que era arrastada pela gigantesca e impiedosa grande industrialização cufista. Enfrentava contestações e greves com toda a brutalidade, indisposto a cedências, não permitindo que continuassem com emprego os que não se mostrassem dóceis e se destacassem em qualquer acção de classe. Mas, simultaneamente, desenvolveu um estilo patronal de tipo paternalista e assistencialista para com os seus empregados e operários, que gerou e expandiu um mito (que ainda hoje perdura) de “patrão amigo e protector”. Esta dualidade, nem sempre percebida, gerava reacções contraditórias, donde terá sido o patrão mais odiado pelos sindicalistas e o mais amado pelos “operários agradecidos” (os baixos salários e as condições de alta e intensiva exploração do trabalho eram “compensados” por uma rede de assistência médica, habitação social, escolas, previdência, abastecimento de géneros, associativismo desportivo, actividades lúdicas). Assim, a história da CUF é também a de grandes e duras greves, primeiro no período republicano (1910-1919), depois em pleno salazarismo (com destaque para as de 1943), a que se seguiu um longo período de “acalmia” que o aparelho repressivo se empenhava em vigiar e jugular (a GNR estava implantada com quartel dentro das fábricas, os aparelhos internos da Legião e dos “bufos” da PIDE eram expeditos a denunciar os movimentos reivindicativos logo na fase de germinação, as células comunistas eram alvo de controlo e repressão).    
 
Como entender então que um grande patrão hiper-autoritário e repressivo, incapaz de suportar um operário de espírito reivindicativo, possuidor de um ódio de classe exacerbado, como era Alfredo da Silva, conseguisse difundir e fazer perdurar (até à actualidade) uma imagem-mito de “patrão amigo e protector”? Em grande parte, o efeito foi conseguido através da duplicidade do seu discurso, como o demonstra Vanessa de Almeida num oportuno livro dedicado às greves na CUF de 1910-19 (*). Esta historiadora e funcionária autárquica no Barreiro, ao desbravar as actas da administração desse período, revela o que chama de “discurso escondido” de Alfredo da Silva, aquele que produzia “entre os seus pares” e onde expõe as linhas de implacabilidade repressiva, as regras do autoritarismo mais violento, onde o “factor trabalho” é sempre visto como um “custo”. Um discurso que Alfredo da Silva camuflava quando das suas sortidas inesperadas às fábricas, cumprimentando pelo nome e ouvindo queixas, prestando-se a corrigir os pequenos despotismos de chefes e encarregados, tão avaro a aumentar ordenados e melhorar condições de trabalho como pródigo a incrementar a “obra social” que casava os trabalhadores com a CUF, ali trabalhando, ali vivendo, ali abastecendo-se, ali indo ao médico, ali lhes nascendo os filhos que depois ali iriam à escola, ali frequentando o grupo desportivo da empresa, ali desenvolvendo o espírito de casta de pertencerem à “família CUF”, mal pagos e super-explorados mas membros simbólicos de uma "aristocracia operária" em país de ditadura e trabalho incerto e mal pago.
 
(*) - “Um discurso escondido, Alfredo da Silva e as greves na CUF durante a Primeira República – 1910-1919”, Vanessa de Almeida, Editorial Bizâncio.
 
 
Imagens (cimo) – O Grande Patrão e operárias da CUF em greve
 
---
 
Nota: Este post também foi publicado aqui

 

Publicado por João Tunes às 11:57
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3 comentários:
De Vanessa de Almeida a 14 de Julho de 2009
Obrigada João por este seu «post». Eram outros tempos (tão iguais) do Barreiro que conheceu bem. um abraço
De João Tunes a 14 de Julho de 2009
Parabéns pelo seu excelente e utilíssimo livro. Eu nunca trabalhei na CUF (embora a isso estivesse destinado quando me mandaram estudar na Escola Alfredo da Silva) mas fui das poucas excepções na minha família. E só desopilava da CUF por todos os lados, com a paixão, também partilhada por toda a família, pelo Barreirense (que sendo rival assanhado do Desportivo da CUF, era uma forma tolerada de dizer "não" ao Patrão). Digo tolerada porque o campo do Barreirense (chamado de D. Manuel de Mello, o genro de Alfredo da Silva!) não só era encostado às fábricas como metade do terreno era propriedade cedida pela CUF. Abraço para si com votos dos maiores sucessos nos seus trabalhos (e se me permite um conselho de admirador, alivie um pouco a sua escrita dos bordões do jargão político marxizante tão pesado que usa, vai ver que a escrita fica mais leve, mais fresca e mais convincente).
De Anad a 15 de Agosto de 2009
Gosto do blogue. Vou voltar mais vezes.
Anad

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