Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Um excelente texto de Maria Manuela Cruzeiro que também dá para boleia de muitas conversas

 

Não tem interesse algum no sentido prático de resolver seja o que for mas se alguém se quiser interrogar porque é que a esquerda está como está, ou porque continua como está, bastará ler este texto da investigadora Maria Manuela Cruzeiro e entenderá o essencial num instante, o do tempo de leitura e remate de reflexão. Porque mais, muito mais, que a “história”, as “massas”, as “classes” e as “vanguardas”, foram Cunhal e Soares, estes dois líderes poderosíssimos da ocasião, a de uma revolução caída dos quartéis aos trambolhões, em antinomia permanente entre si e após breve tutoria de um sobre o outro (na versão adulta da primeira relação havida entre ambos no Colégio Moderno), que marcaram (e marcam, com um deles morto e o outro na pré-reforma) a esquerda portuguesa. Com um excepcional poder de síntese, MMC ao ideologizar no mínimo as figuras, sublinhando os seus encontros e desencontros de "inimigos íntimos", dá-nos o essencial deles em termos de impacto revolucionário (e contra-revolucionário, no que respeita ao “segundo Soares”) e, sobretudo, explica como a esquerda portuguesa, muita dela nascida nos dias em que os acolheu vindos do exílio, adoptou estes dois “pais políticos” para ir além do antifascismo que a revolução tinha acabado de esgotar como projecto (além das, sempre empoladas, prevenções das recaídas) e que, confirmou-se cedo, era a única plataforma capaz de unir Soares e Cunhal. Porque quanto ao socialismo do “day after”, que ambos tinham inscrito nos estatutos, no programa, na bandeira e no hino, tudo os dividia, tanto como o que havia dentro de cada um, enquanto pessoa, estilo e líder. Com a direita nas encolhas, acabada de perder um regime e carregando a culpa de nos ter adiado um país (perdendo o império que tinha atrelado a guerras que não se ganham) e, em meio século, politicamente só nos ter dado dois ditadores; enquanto o génio de Sá Carneiro cerzia o que sobrara do aparelho da União Nacional com a resistência burguesa à mudança e programando um “marcelismo póstumo”; a maioria do povo, extrovertido em súbita politização, virou da quietude para a esquerda, uns seguindo Soares e outros Cunhal. Destinado a continuar maioria mas para não se voltar a entender, enquanto esquerda. Assim estamos, agora na quietude do voto e enquanto as sombras antigas de Cunhal e Soares por aí esvoaçam sobre a “esquerda velha” (a serôdia que é um mausoléu de Cunhal e Brejnev e a centrista que até ao Soares meteu na gaveta). E não será por acaso que o fragilíssimo Bloco (enquanto organização e projecto de uma esquerda política e social), mais partido “de não” que outra coisa, cresce e engorda muito acima dos seus méritos na capacidade de resolver. No mínimo, e não é pouco, corresponde a uma esquerda liberta dos sindromas de Cunhal e Soares, os “pais tiranos”, dando a sensação que é uma esquerda “com as chaves de casa no bolso” para dar uma volta pela política e pelas urnas de voto sem hora marcada para voltar ao seio da "família partidária", obedecendo ao Comité Central ou bajulando Sócrates e os seus adjuntos feitos de cera de obedecer. Até porque (tirando a pequena tira do “grupinho Miguel Portas”, uma sub-espécie da orfandade de Cunhal) o núcleo aparelhista e ideológico-táctico do Bloco vem exactamente da esquerda que, na revolução, sempre olhou de revés Soares e Cunhal, fugindo-lhe aos redis e até tentando tresmalhar-lhe as ovelhas. No que vai dar a maturação desta adolescência tardia e retardada de esquerda que é o voto no Bloco, um voto especial pois que prescinde (ainda) de militância e compromisso, é assunto que só meterá a urgência em cima da mesa lá mais para adiante. Para já, areja os fatos dos atrasados enterros políticos de Cunhal e Soares para poderem ser oferecidos a uma qualquer instituição de beneficência dos desvalidos da esquerda agarrada ao baú da memória passadista, em resposta a peditório que há muito tardava. O Bloco consolidado como terceiro partido é (melhor, será se fôr) prémio e desafio. E que seja o eleitorado mais jovem (maioritariamente do litoral, citadino, instruído, incluíndo alguns que são cultos, emancipado quanto às amarras nos costumes, "filho" da internet e do trabalho precário) a dar-lhe gás, dá ânimo de confiança de que a esquerda não só se vai aliviando dos fardos do passado, incluindo os afectos que oprimem mais que libertam, como é suficientemente atrevida para querer escolher ter futuro.

 

Adenda: A Joana Lopes acrescenta por entre o muito mais que ainda havia (e há) a dizer.

 

Publicado por João Tunes às 11:44
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2 comentários:
De Jorge Conceição a 1 de Julho de 2009 às 13:00
Ainda não li o post " de Manuela Cruzeiro, mas desde já quero aplaudir este excelente texto (com as ideias subjacentes)! É um diagnóstico certeiro do panorama político da esquerda portuguesa. Quanto a mim, claro e a mais uns quantos, pois são muitos os que ainda trazem vestidos os trajes fúnebres!

Aliás, sempre me espantou que muita da tal esquerda que, nos idos anos de 70 e início de 80 olhava de soslaio para essas duas personagens, tivesse embarcado na aposta de esquerdizar " um deles, entrando em massa (ou em massinha, mais propriamente, atendendo à sua dimensão) no PS, acabando por perecer num canto que já nem é da memória, pois praticamente nunca deu ali um sinal de si para o exterior. À parte uns quantos, como o Jorge Sampaio, que, no entanto, quando pertencia à tal esquerda desconfiada era acusado pelos seus companheiros de ser mais um verdadeiro social democrata... (Ou quando dá esse sinal de memória, o dá de uma forma distorcida e totalmente autista, como o faz o Eduardo Graça nos Caminhos da Memória).

No que respeita ao Bloco, 3ª força portuguesa no Parlamento Europeu... Estou curioso para ver se se assume como 3ª força candidata ao Parlamento Português (que às autárquicas não deverá ter essa veleidade...). Isto é, se consegue dar o passo decisivo pela política dum projecto estruturado e consolidado, pois que a política "do não" não vai bem com uma "medalha", mesmo que "de bronze"!

(Talvez os tempos e a prática tenham mudado nos anos mais recentes, mas costumava ver que, nas autarquias, a força política que verdadeiramente estava estruturada e tinha programas concretos de desenvolvimento municipal era o PCP. Mas os tempos talvez tenham mudado e, na verdade, hoje vou vendo muitos presidentes de câmara que se enquistaram em caciques locais, pouco dados a receber e a discutir ideias alheias).
De João Tunes a 1 de Julho de 2009 às 13:46
Mas leia o texto da MMC. Esse, sim, dá retorno com juros pelo tempo consumido a lê-lo e a pensá-lo.

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