

O nacional-catolicismo que apoiou os fascismos ibéricos e lhes deu conteúdo ideológico ao emprestar-lhes Deus para integrar a trilogia do projecto totalitário (Deus-Pátria-Família), arrastava há muito um paradoxo de sangue do tamanho de uma pedra no sapato: o assassinato às ordens de Franco de catorze sacerdotes católicos bascos que, na guerra civil, se mantiveram do lado da República, da legalidade democrática e dos povos bascos. Esses sacerdotes e mártires foram sempre uma mancha de denúncia surda da hipocrisia e cumplicidade para com o crime que a união entre Franco e a Igreja representou. As legiões de sotainas negras que alinharam e abençoaram o golpe e a vingança de Franco contra os vencidos e se juntaram ao banquete de domínio da ditadura espanhola, silenciaram sempre que houve uma outra parte (embora muito minoritária) da Igreja que não escolheu o lado do nazi-fascismo e se manteve junto do seu povo e das suas escolhas. Finalmente, rompendo a ignominia do silêncio de muitas décadas para com os sacerdotes bascos fuzilados e condenados a saírem da memória, os bispos bascos acabam agora de repor a dignidade elementar ao recordá-los e pedir para eles o direito, conquistado com o seu sangue, a terem os seus martírios colocados dentro da história de Espanha, no capítulo das suas vergonhas. Pois, tarde só é melhor que nunca, mas é.
Imagens:
1) Em cima, sacerdotes católico-franquistas treinando para o tiro nos espanhóis republicanos.
2) Em baixo, sacerdotes católicos bascos entre outros prisioneiros de Franco, aguardando os tiros do fascismo espanhol.