

O nacional-catolicismo que apoiou os fascismos ibéricos e lhes deu conteúdo ideológico ao emprestar-lhes Deus para integrar a trilogia do projecto totalitário (Deus-Pátria-Família), arrastava há muito um paradoxo de sangue do tamanho de uma pedra no sapato: o assassinato às ordens de Franco de catorze sacerdotes católicos bascos que, na guerra civil, se mantiveram do lado da República, da legalidade democrática e dos povos bascos. Esses sacerdotes e mártires foram sempre uma mancha de denúncia surda da hipocrisia e cumplicidade para com o crime que a união entre Franco e a Igreja representou. As legiões de sotainas negras que alinharam e abençoaram o golpe e a vingança de Franco contra os vencidos e se juntaram ao banquete de domínio da ditadura espanhola, silenciaram sempre que houve uma outra parte (embora muito minoritária) da Igreja que não escolheu o lado do nazi-fascismo e se manteve junto do seu povo e das suas escolhas. Finalmente, rompendo a ignominia do silêncio de muitas décadas para com os sacerdotes bascos fuzilados e condenados a saírem da memória, os bispos bascos acabam agora de repor a dignidade elementar ao recordá-los e pedir para eles o direito, conquistado com o seu sangue, a terem os seus martírios colocados dentro da história de Espanha, no capítulo das suas vergonhas. Pois, tarde só é melhor que nunca, mas é.
Imagens:
1) Em cima, sacerdotes católico-franquistas treinando para o tiro nos espanhóis republicanos.
2) Em baixo, sacerdotes católicos bascos entre outros prisioneiros de Franco, aguardando os tiros do fascismo espanhol.
De José de Sousa a 30 de Junho de 2009
A propósito dos padres franquistas e guerreiros.
Talvez esteja a cair em desuso, mas durante muito tempo houve cruzadas para tudo e por tudo. Em vez de campanhas – aqui talvez caiba uma continência e não uma santa benção – de empresas, ou de outras quaisquer designações.
Pois tínhamos e ainda temos as Cruzadas. Os curas prontos a matar. Sempre uma Terra Santa a recuperar. Sempre uma cristandade a aumentar. E sempre uma heresia a extinguir.
Quanto nos deves, Igreja Católica ! És tu que nos impões a virtude da paciência. Bem o sabes.
De paulo santiago a 30 de Junho de 2009
Atendendo ao Vaticano que temos...muito louvável
esta justa atitude dos Bispos Bascos.
A imagem dos sacerdotes franquistas é execrável.
De José Eduardo de Sousa a 1 de Julho de 2009
A imagem é de facto execrável.
Pelo que eu julgo saber, imediatamente a seguir ao desembarque de Franco e dos seus mouros, houve uma explosão anticlerical no País Basco. Havia aí um grande ressentimento, um alinhamento dos padres pelo que era mais retrógrado, etc. Mataram. Não sei quantos. Mas todos os que mataram estiveram a mais.
Pouco depois, os poderes políticos, que tinham perdido a capacidade de acção nesse período, retomaram o controlo das coisas. E a caça ao padre acabou. Julgo que, a partir daí, não houve mais nada de semelhante.
Sabe-se a distinção que o Vaticano fez, entre os sacerdotes assassinados pelos republicanos e aqueles que o foram pelos franquistas. Só houve mártires de um lado. Os outros, foram dados como inexistentes pela Igreja. Por isso, a declaração dos Bispos é notável. É um Não dirigido a várias direcções. É um “eles também”, mais apontado para o próprio Vaticano.
Sabemos o que foi o clero católico durante e depois da Guerra Civil, mas – e eu que nunca sei se sou apenas compreensivo ou demasiado tolerante – por detrás daquela imagem repugnante dos padres em armas – talvez até apenas um truque para a mobilização dos católicos – por detrás daquela imagem pode-se adivinhar, talvez, um fazer músculo perante aquele arranque de caça aos padres.
Que a repugnância que a imagem provoca, nos ajude a recusar, a condenar tudo aquilo que ela possa representar.
Nota: Estou a recorrer à memória, nada consultei, além do que sou pouco versado em Vaticanos e, portanto, peço desculpa por qualquer erro que esteja cometendo.
Na parte que respeita aos bascos, caro José de Sousa, julgo que esteja a generalizar em parte a realidade espanhola de então. O clero basco sempre foi autónomo e nacionalista, até porque o próprio nacionalismo basco tem raízes fundas no seu catolicismo. Os bascos alinharam no lado republicano enquanto defesa do seu nacionalismo. E uma parte importante do clero católico esteve, então, com o seu rebanho. Daí o ódio de Franco, e da Igreja do centralismo castelhano, contra os padres bascos que o fizeram. Na ressaca, muita desta perseguição ao catolicismo basco, parte integrante do nacionalismo local, alimentou na sua face conservadora e burguesa o PNV e na juventude mais irredentista a ETA que fez uma fusão apressada e paranóica-terrorista entre marxismo-leninismo e catolicismo progressista. Mas sem se perceber o catolicismo atávico, o conservadorismo das tradições, as fundas raízes burguesas e o elitismo racista intrínsecos ao nacionalismo basco, pouco se entenderá sobre o País Basco, ontem e hoje, do PNV à ETA.
Quanto ao resto do seu comentário, nada a obstar.
De José de Sousa a 1 de Julho de 2009
Terá toda a razão. Andei por aqui à procura das minhas fontes recentes, mas não as encontrei. De livros antigos, nada tenho. Emprestei tudo o que tinha ao meu irmão, Franco de Sousa, porque ele andava com a ideia de escrever uma qualquer ficção sobre a Guerra Civil de Espanha. Morreu e eu não fui pedir à minha cunhada os livros que, sendo meus, estavam lá em casa.
Desde há muitos anos que não leio nada de sério sobre o País Basco. Há trinta e tal anos ainda escrevi uma coisa qualquer para aproveitamento político.
Contudo, eu tenho uma ideia que corresponde, aproximadamente, pouco, ao que escreve. Tão pouco aproximadamente, que não recordo ter feito, no meu velho papel, uma caracterização do País Basco e da sua ETA nos moldes em que, caro João Tunes, a faz.
Aquilo que indica, como necessário, para se entender o País Basco parece-me, hoje, pertinente. Como me pareceria há 35 anos? Conclusão: o meu velho papel divagaria por outras paragens. Não estava no País Basco. Só que, numa leitura recente, sem pergaminhos académicos, talvez uma “Histoire”, eu apreciei um ou uns tantos textos (?) que me pareceram interessantes e devidamente credenciados. E lembro-me da referência a essa caça aos padres, no tempo imediato ao golpe de Franco. Julgo ter lido também que a motivação seria a que referi.
Posso estar enganado quanto à motivação? Admito-o facilmente. Passei para o País Basco o que se passava em Espanha. Enganei-me quanto a quem fez essa caçada. Será menos provável, mas também pode ter acontecido ter lido o nome duma cidade, e não dum país, cidade que eu localizei no País Basco. Não sei por não encontrar a fonte.
Não chegou ainda o momento de pôr, em saldo, a minha memória. Mas cada vez mais ela merece a minha desconfiança. E até me parece ter melhor proveito quando ela falha do que quando acerta. Na falha, alguma coisa se corrige, desaparece uma certeza ou fica uma dúvida, algo mais se aprende. É o caso, até conseguir reler a minha fonte, não repetirei o que já fui dizendo.
Um abraço
Julgo que seja dado adquirido que a perseguição desvairada e criminosa a padres e freiras, queima de igrejas e profanações várias, se deram quer imediatamente após a vitória da Frente Popular e no início da guerra civil, e não por toda a Espanha mas em territórios onde o anarquismo era mais forte - na Catalunha, na Andaluzia e Extremadura (mas aqui, as tropas de Franco ocuparam-nas muito cedo), em Madrid e em Aragão. E passada a fase inicial mais emotiva do início da guerra em reacção ao golpe, a perseguição à Igreja foi impedida e mesmo reprimida. O próprio exército republicano integrou alguns sacerdotes como capelães e sobre o país basco já falámos. O ódio franquista foi especialmente violento contra os sacerdotes que permaneceram do lado republicano e com especial enfoque nos padres bascos. Pelas razões que se entendem.
De José de Sousa a 3 de Julho de 2009
Sim, arrumemos a questão da perseguição aos padres no País Basco. Continuo sem encontrar a minha “fonte” e, pelos vistos, a minha memória mostrou-se e está ainda vesga. Já lhe dei um ralhete.
Esta procura da fonte, na minha depauperada bibliografia, levou-me a ver, ou a julgar ver, um pouco melhor a situação, então existente. E concordo com o que escreve. Mas e apenas para reforçar a o incómodo que aqueles anarquistas foram, continuo escrevendo mais um pouco.
O Anarquismo em Espanha, e também os conflitos sociais e políticos anteriores, pesaram muito na complexidade da situação que se vivia, aquando da eleição da Frente Popular e nos primeiros tempos da Guerra Civil.
Só duas ou três coisas. Nas eleições de Novembro de 1934, a Direita ganha. Os anarquistas tinham feito apelo à abstenção. Uma vez que a Direita foi ganhadora, os anarquistas (CNT) lançaram-se num putsch, em Saragoça, que perderam. Com consequências.
Ensaiaram este putsch, mas, de facto, realizavam continuadas acções violentas. O espírito era revolucionário. E, neste período, até há um marco importante: a insurreição dos mineiros das Asturias e a violenta repressão que sofreram. Franco a comandar as tropas que a fizeram.
Nas eleições de Fevereiro de 1936, ganhou a Frente Popular, mas teve ganho em lugares parlamentares, mas não em votos. Situação um tanto indefinida. A Frente Popular reclamou o poder. Pouco depois houve o desembarque de Franco. A Frente Popular não teve tempo para desenvolver uma política.
Não quero alargar-me. Há os anarquistas, o POUM, Barcelona, aquele Maio de 1937, as ruas. Longa discussão isso tem dado e poderia continuar a dar. Aqui, embora, para isso, não esteja suficientemente informado. Não interessa, o que parece contar, neste caso, é que os anarquistas, também tiveram a sua quota parte de responsabilidade. Não estou a inocentar ninguém. Eu até criminalizo, apesar da minha insuficiência de informação, uma outra força política e outros interesses bem poderosos. Mas e é isso que conta, as forças republicanas saíram enfraquecidas.
Sinal dos tempos: o Governo Negrín, em 17 de Maio de 1937, é apoiado pelos comunistas. E elimina os anarquistas e os trotskistas.
Os anarquistas, onde aguentam o seu poder, radicalizam posições. No 1º de Dezembro de 1937, “edictent les bases régémentaires du mouvement de colectivisation en pays valencien » (Marc Ferro) Etc, etc.
Admito, pois, que tenha toda a razão, quando escreve que a perseguição aos padres se teria verificado “em territórios onde o anarquismo era mais forte - na Catalunha, na Andaluzia e Extremadura” havendo, nos outros, as necessárias moderação e razoabilidade.
De Van Aerts a 30 de Junho de 2009
Bem, José de Sousa só lhe falta acusar a ICAR da I e II grande guerra nao olvidando o gulag e o crash de 29...
De José de Sousa a 1 de Julho de 2009
Obrigado, Van Aerts, pela condenação que me faz.
Não o convido a reler o que escrevi, mas já agora, peço-lhe para ler o pouco que vou dizer.
A Igreja de Deus dos católicos estará na comunidade dos crentes. Mas a sua organização, a sua institucionalização é a Igreja hierarquizada que sobe até ao Vaticano. Suponho que a Igreja serve para fazer testemunho da existência de Deus. Para O servir. Na Sua Obra.
Eu não percebo nada de catolicismo, e posso estar a dizer disparates. Se assim for, as minhas desculpas. Já sei mais qualquer coisa de História e aí posso dizer que a Igreja Católica, não Deus, nos tem cobrado muito para se afirmar. Deve-nos muito, aos homens de muitas épocas. E não paga, nem pagou.
Aqueles acontecimentos, a que se refere, em tão trágica evocação, se não foram obra de Deus, não Lhe foram indiferentes. Pela certa.
Poderia, talvez, quem sabe, aplicar-lhes aquela golden share que tem na Igreja Católica e, porque não, a que terá em todos os católicos, para neles, em tais dramas, exercer uma boa influência. As situações eram graves e o nosso Deus tem várias Igrejas ao seu dispor. Poderia pô-las todas a agir. E talvez até conseguisse impor um direito de veto.
Tenho ouvido ou lido referência a algumas concepções sobre a morte de Deus. Desde a da morte em Cristo porque nele encarnou, até outras menos distantes. Fica o Espírito Santo para as variadíssimas intrigas teológicas. Entretêm. Tudo bem, eu acredito em todas. E não me dou conta do Espírito Santo. Deixa para lá, como diria um brasileiro.
E, com Igrejas ou sem elas, não se podia pedir a um morto que se mexesse e fizesse qualquer coisa. Não sou exigente.
Eu, por mim, concedo-lhe, a si, Van Aerts, todos os perdões.
De Van Aerts a 1 de Julho de 2009
Hã?? o quê?? Como? ...Obrigado pelos perdoes no fim e pelas desculpas no meio, revogo a sua condenaçao por uma indulgência...
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