
Num post anterior, a propósito de um celebrado concurso televisivo sobre as “maravilhas de Portugal no mundo” em que os sítios levantados por integração no circuito do esclavagismo eram pudicamente isentos dessa condição, referi-me à Cidade Velha na ilha de Santiago (Cabo Verde), o único local concorrente que conheço em visita repetida e a que, com todo o gosto, tentarei regressar. Pois a Cidade Velha não só foi uma das vencedoras desse concurso como acaba de ser classificada pela Unesco como “património mundial”. E, curiosamente, a declaração da Unesco invoca, com descaramento histórico notável perante o pudor português, para a atribuição do título, exactamente o papel de entreposto negreiro do sítio. Como não podia deixar de ser. Porque, de outro modo, a Cidade Velha simplesmente não existia. Nem Cabo Verde. Nem o desenvolvimento das Américas. Nem…
Pedro Pires, Presidente de Cabo Verde, durante a campanha de promoção da Cidade Velha junto da Unesco, teceu um discurso cultural que devia fazer corar de vergonha os académicos de Coimbra que asseguraram o staff científico do prémio televisivo português. Colocando a distância histórica no seu lugar, Pedro Pires declarou:
"A ideia é que foi o primeiro porto no comércio de escravos na costa ocidental africana, ou seja, a meio caminho para os países da América do Sul e Central. Foi um ponto de passagem, mas para além de ponto de passagem ficou gente. Nós entendemos que este facto é o início de qualquer coisa nova. Fala-se tanto do mundo novo. Mas eu creio que o novo mundo começa aí, começa em Cabo Verde. Há marcas, é certo, de ordem material, mas é mais do que isso. É esse valor histórico, esse momento da história do mundo. Podemos estar contra a escravatura mas não é isso que estamos a discutir. O que estamos a discutir são factos históricos que não vamos valorizar do ponto de vista moral. São factos históricos que mudaram qualquer coisa. E esses factos tiveram como ponto de partida ou como ponto de referência a Cidade Velha ou o porto da Ribeira Grande de Santiago"
"Entendemos que a partir daí nasce qualquer coisa nova que é uma nova cultura, a cultura caboverdiana, que é uma cultura mestiça. E nasce um novo homem, que é o homem mestiço quer biologicamente, quer culturalmente. Será que na verdade Cabo Verde é a origem de qualquer coisa? Eu acho que sim. Penso que é a origem do que se passa nas Américas do Sul, Central e do Norte. É o primeiro exemplo de miscigenação do ponto de vista biológico, o primeiro exemplo de uma cultura crioula, de uma cultura mestiça que vem também desse encontro de povos. Nós vamos discutir se foi um encontro forçado ou voluntário mas foi um encontro. E quando há encontros entre povos há qualquer coisa nova que nasce. E entendemos que Cabo Verde é o sinal e que a Cidade Velha é o ponto de partida. Merece ou não merece ser considerado um património da humanidade? Pensamos que sim."
Ou seja, talvez nada melhor que um mestiço não complexado para ensinar a distância entre julgamento moral e apreciação histórica a doutores de Coimbra sentados sobre tampa de vergonha do baú onde se (res)guarda o passado.
Pela sua parte, José Maria Neves, primeiro-ministro de Cabo Verde, celebrou a declaração da Unesco sobre a Cidade Velha, desta maneira:
“Trabalhamos todos para este estatuto e vamos continuar juntos esta caminhada, em cooperação com o governo de Portugal, uma vez que a Cidade Velha é também um património importante de Portugal. Aliás, há poucos dias foi declarada como uma das Sete Maravilhas de Portugal no Mundo. Mas é um dia singular e histórico para Cabo Verde. Podemos ganhar o futuro e construir uma grande Nação, um grande país. Só quem tem uma história grandiosa, um grande passado, pode ter a ambição de construir o futuro. Representa que Cabo Verde é um país possível e que podemos realizar os nossos sonhos. Deveremos continuar a lutar para obter novos ganhos no futuro.”
“[Cidade Velha] É a primeira cidade europeia nos trópicos, é a diocese primaz da África Ocidental, a primeira diocese em África. No século XVII era a cidade com mais igrejas por metro quadrado, mais do que em Roma. Tem um património religioso e imaterial extraordinário. Há um trabalho diplomático feito mas há o valor histórico e patrimonial, que é mais importante.”
“Tenho neste momento duas grandes prioridades. Uma delas é a elevação do Campo de Concentração do Tarrafal a Património Mundial da Humanidade. Tomei, há dois ou três anos atrás, a decisão de classificá-lo como património nacional. Agora é prepararmos a candidatura, com o apoio dos outros países de Língua portuguesa, para que o Tarrafal, que, no fundo, já é também Património Mundial da Humanidade, seja formalmente assim considerado pela UNESCO. A segunda grande prioridade é transformarmos também a Língua Cabo-Verdiana, que é também um património nosso, que é uma riqueza singular de Cabo Verde e que resulta desse diálogo intenso de culturas. Temos dois grandes patrimónios em termos linguísticos, que é a Língua Portuguesa, nosso património, que assumimos como nossa, como parte da nossa história, e, ao lado, temos uma língua que se baseia na Língua Portuguesa, que é a Língua Cabo-Verdiana.”
Cabo Verde continua a ser um caso surpreendente de como, sendo um país africano e paupérrimo em recursos materiais, em vez de se afundar na miséria e na cleptocracia, é um caso de democracia e governação saudável, apostando na cultura como o seu melhor recurso para sobreviver, desenvolver-se e afirmar-se, desmentindo os que entendem que barriga não cheia não é amiga do desejo pela riqueza cultural. As metas colocadas agora de afirmar o Campo do Tarrafal (*) como local histórico marcante da humanidade (como face das ignomínias fascista e colonial) e a valorização do crioulo são projectos que os portugueses sem complexos deviam apoiar.
(*) – Entre nós, tenho a expectativa do empenho da notabilidade cultural, universitária e política que é o venerado Doutor Adriano Moreira, o autor do despacho ministerial que, em 1961, ordenou a reabertura do Tarrafal para internar prisioneiros africanos suspeitos de simpatias nos movimentos de libertação. Como Adriano Moreira nunca reconheceu publicamente esse crime político e dele não pediu desculpa aos povos africanos nem sequer o lamentou, talvez o seu empenho na elevação do Campo do Tarrafal a património da humanidade, lhe facilite a limpeza dessa lama que arrasta nos sapatos desde que serviu Salazar.