
Notável a oportunidade da edição do livro de Álvaro Garrido com a sua biografia política de Henrique Tenreiro (*). Juntando-se, à oportunidade, o brilho do autor (um académico de Coimbra) na investigação, na organização, na distância de análise e na qualidade da escrita, estamos perante uma das mais interessantes edições sobre o período da ditadura. De facto, após um período prolixo em referências (e exaltações) aos chefes supremos da ditadura, Salazar e Caetano, faltava “descer” ao enquadramento histórico e político das “segundas linhas” do regime pois o senso comum estava a contaminar-se com uma fulanização excessiva no papel dos ditadores como se tivesse sido possível um regime de longa duração ter sobrevivido exclusivamente à sombra de um poder unipessoal, sem o papel decisivo dos seus duques e valetes, sobretudo na gestão da submissão popular. E ninguém como Tenreiro desempenhou esse papel, onde nem sequer foi ultrapassado por Cerejeira (o pastor espiritual da atitude conformista e submissa). De facto, não é possível pensar-se o sucesso do fascismo português (enquanto projecto concretizado de forma duradoira) sem se encarar o “fenómeno Tenreiro”, espinha dorsal da mais conseguida concretização corporativa-oligárquica (nas pescas), chefe operacional da repressão onde quer que o regime fosse ameaçado, encenador dos actos celebrantes e aclamatórios, o mais indefectível apoiante do salazarismo integral, a eminência parda da praxis salazarista, peça chave no tripé da Marinha fascista (com Ortins Bettencourt e Américo Tomás) que cumpria uma dupla missão – neutralizar a tradição democrática e revolucionária dos “marinheiros” e permitir, ainda, que o Mar e a Armada (incluindo a marinha não militar) funcionassem a preceito como referência simbólica do imaginário do ideário salazarista-imperial (com o brinde extra de ter transformado os pescadores, pela dependência do assistencialismo, em “tropa de choque” do apoio social à ditadura). Tenreiro, enérgico, determinado e implacável, omnipresente nos momentos chave (até na madrugada do 25 de Abril ele “esteve lá”), com uma enorme intuição a colmatar a cultura limitada, com os seus ódios concentrados e dirigidos, é também a personalização da miséria corruptora da ditadura, mestre na arte da cunha e dos arranjos, na repartição de paus e cenouras, na difusão e preservação da docilidade de rebanho, no favor e no nepotismo, nos amanhos de toda a espécie. E, finalmente, no ocaso ditatorial pós-Salazar (1968-1974), gerindo uma fidelidade ambígua com Caetano mas recusando-se a levantar-lhe a mão, Tenreiro integra a facção ultra dos irredentistas salazaristas (ao lado de Tomás que era um seu político-dependente) que bloqueia o projecto marcelista e, ao impor a Caetano uma crispação regressiva, leva o regime para um beco sem saída, sobretudo pela inviabilização de qualquer solução para o problema e a guerra colonial, o que, como sabemos, foi a sentença suicidária do pós-salazarismo (a histérica fidelidade de Tenreiro e outros a Salazar não concebia o regime como respirável sem a marca da liderança física do ditador de Santa Comba Dão). Manipulando uma importante parte do aparelho corporativo, dirigindo a parte mais operacional da Legião, controlando o “Diário da Manhã”, influenciando a União Nacional, manobrando a cumplicidade de Cerejeira para este prestar a Igreja a servir de recalcante e ritualista do regime, com íntima ligação à PIDE, dispondo de verbas consideráveis dos lucros das pescas que usava a seu belo prazer, Tenreiro foi uma das chaves mais importantes do salazarismo e do marcelismo que não são entendíveis sem o entender e o papel do seu sub-sistema de poder. Neste sentido, o trabalho de Álvaro Garrido é um contributo valiosíssimo para que não só a memória não se apague como possa ser nítida. Absolutamente, uma leitura inevitável.
(*) – “Henrique Tenreiro, uma biografia política”, Álvaro Garrido, Edições Temas & Debates.
Imagens:
- Em cima, capa do livro de Álvaro Garrido.
- Em baixo, Tenreiro e Tomás, dois amigos e dois apoios.

De Hélder S. a 27 de Junho de 2009
J. Tunes
Os meus agradecimentos, não só por teres feito esta divulgação, realmente bastante oportuna, como também pelo excelente comentário ao tema, à personagem em causa, ao seu enquadramento e responsabilidade no regime então vigente, preparando assim melhor a obrigatória leitura do trabalho.
Um abraço.
Hélder S.
O prazer (nem a sinceridade) não se agradece. Abraço.
De Anónimo a 30 de Junho de 2009
ALGUEM SE LEMBRA DA SUA TRANSFERENCIA E POSTERIOR FUGA DO HOSPITAL PARTICULAR DE LISBOA?
E A RESPOSTA DOS ANARCAS " O POVO LIBERTOU O CAMARADA HENRIQUE TENREIRO" EM RESPOSTA A LIBERTAÇÃO DO CAMARADA ARNALDO DE MATOS.
O HUMOR FAZ BEM.
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