Segunda-feira, 18 de Maio de 2009

CONTRA OS PLANIFICADORES DO AMOR

 

Pepetela ainda tem capacidade para surpreender. O que prova que o Prémio Camões, tendo coroado o escritor, não matou a sua escrita. Pelo contrário, depurou-a, deu-lhe um equilíbrio gostoso entre poética, capacidade de síntese, intriga dos homens em sociedade e uma nostalgia crítica que descompõe os estereótipos e lugares comuns, ainda sobrando espaço para contributo à reinvenção da língua literária, o melhor dos meios de comunicação entre autor e leitores e ajudando a impedir que, contra os dinossauros linguísticos, o português se mumifique em língua para académicos, insultos e sermões. A maravilha literária de “O Planalto e a estepe” (*) aí está a demonstrá-lo. E cheio de África até à ponta da última página.
 
O último livro de Pepetela é o grande (embora pequeno em tamanho) romance sobre o amor no terreno do internacionalismo proletário. Ou da essência sob a aparência. Melhor e mais certo: sobre o conflito entre a verdade da paixão do enamoramento - o mais radical e subversivo dos impulsos - e a mentira da representação dúplice do comunismo, a mais conseguida das mentiras ideológicas em política. Uma mentira que tem o poder pérfido da ilusão, explorando os mais fundos impulsos para com a fraternidade e a generosidade que habitam os homens e as mulheres que não vivem sentados sobre as misérias do mundo, que depois ou se aquietam no conformismo das regras da célula (só democrática enquanto servil para com o centro) ou então têm de defrontar-se com um polícia político à perna (o "controleiro" na marcha para o poder, o polícia policiado na fase do poder nas mãos). O marxismo-leninismo quis planificar tudo, sentimentos e pulsões incluídos, até o que é inevitavelmente espontâneo no ser humano. Implodiu porque não sendo capaz de planificar o não planificável, ruiu a planificação do modelo e da norma, até quando cabiam no plano. Porque os planificadores, eles mesmos, eram um desvio humano do plano, esse mero instrumento de conservação do poder, o da utopia burocratizada ao serviço de uma elite, a das vanguardas auto-nomeadas, o grupo mais degradável entre todos os grupos.
 
(*)“O Planalto e a Estepe”, Pepetela, Edições Dom Quixote.

 

Publicado por João Tunes às 15:43
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4 comentários:
De mc a 18 de Maio de 2009
uma das próximas leituras. Oferta da minha filha. Depois digo-lhe de minha justiça. :)
De João Tunes a 20 de Maio de 2009
Parabéns pela filha com bom gosto. Cá espero a sua sentença.
De cc a 18 de Maio de 2009
Fiquei com muita, muita vontade de ler!
~CC~
De João Tunes a 20 de Maio de 2009
Vou cobrar comissão à Dom Quixote...

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