Domingo, 10 de Maio de 2009

A BOA MULHER FALANGISTA

 

A Secção Feminina da Falange (SFF), sempre dirigida por Pilar Primo de Rivera (irmã do líder da Falange), funcionou entre 1934 e 1977, chegando a atingir o número de 600.000 mulheres espanholas aderentes. Teve a particularidade de ser uma organização tipicamente fascista, embora plasmada pela Igreja Católica, cujo início de actividade é não só anterior à eclosão da guerra civil em Espanha como sobreviveu ao início da re-democratização da Espanha. Durante todo o franquismo, a SFF foi um dos pilares do regime na doutrinação e no enquadramento das mulheres espanholas e Pilar foi uma das personalidades mais influentes e poderosas no mundo político e social da Espanha sob ditadura.
 
A SFF tentava passar para as mentes das mulheres espanholas mensagens sobre o seu papel na sociedade e, particularmente, sobre as atitudes perante os homens, seus donos ou senhores. E não esquecia o proseletismo quanto a questões sexuais para gáudio dos sacerdotes católicos conselheiros activos da SFF. Nomeadamente, instruía-as com recomendações indiscutíveis como as seguintes: “se o teu marido sugere terem relações sexuais, acede humildemente, mas tem sempre em conta que a satisfação dele é mais importante que a tua”; “se o teu marido te pede práticas sexuais que não são comuns, obedece e não te queixes”.
 
Aqui, pode consultar-se parte do espólio fotográfico da SFF.
Publicado por João Tunes às 23:39
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16 comentários:
De Ana Paula Fitas a 11 de Maio de 2009 às 00:25
Caro Amigo,

Terrífico testemunho do que é o fascismo... obrigado!

Um abraço.
De João Tunes a 11 de Maio de 2009 às 14:50
É. Se me revolvem as entranhas ver um homem fascista, mais vómitos me dão uma mulher fascista. Na exacta medida em que o eugenismo fascista relegava automaticamente a mulher, mesmo que fascistizada, para um papel subalterno, o de adorno vital. E se isso foi notório no fascismo paganizado (o de raiz teutónica) , pior foi, quanto ao papel da mulher, nos fascismos de matriz clerical católica (Espanha, Portugal, França-Vichy, Hungria, Eslováquia, Croácia). Aí o pior do fascismo juntou-se ao pior do catolicismo.

Abraço.
De Ana Paula Fitas a 11 de Maio de 2009 às 18:57
Esta resposta ao meu breve comentário, merecia um post... um post onde se clarificasse ao mundo essa complexidade subjacente às dimensões fascistas de cariz, por um lado, teutónico e, por outro, clerical católico... é curioso porque também a mim me revolve ainda mais as entranhas, ver uma mulher fascista do que um homem e penso que isso se deve exactamente ao que aqui explicita: ver uma vítima assumir-se como guardiã do carrasco é uma espécie de expoente máximo da destituição de carácter, por muito carismática que possa ser a personagem que o assuma. Abraço.
De Monsenhor Escrivá a 11 de Maio de 2009 às 00:51
Parecem-me muito bons conselhos.
De João Tunes a 11 de Maio de 2009 às 14:52
Só me faltava ver aparecer aqui a alma penada do Santo Escrivá de Balaguer... Chiça!

De mdsol a 11 de Maio de 2009 às 11:53
É por estas e por outras que fico muito indignada com a ligeireza com que se comparam os tempos actuais ao tempo da ditadura! Balhamedeus!

: ))
De João Tunes a 11 de Maio de 2009 às 14:52
De marceloribeiro a 11 de Maio de 2009 às 13:54
A secção feminina só existiu a sério até meados de cinquenta. Depois não passava de um embaraçoso cadáver adiado. com o turismo e o OPUS a organização deixou de ser atraente e sobretudo de ter sentido. Arrastou-se (como os celebrados "camisas viejas") até à transição mas era redundante e despertava um geral desprezo entre os espanhóis, conservadores incluídos. E era motivo de graçolas brejeiras...
De João Tunes a 11 de Maio de 2009 às 15:10
Se desejasse um texto de negacionismo por via relativista por companhia aqui o tinha servido por bandeja amiga. E aqui está ele. Salientar que a SFF só foi pujante até meados da década de 50 que é uma forma de irrelevar que ele foi pujante até aí, no terrível período de 1934-1955 (só 21 anos!). E que, mesmo perdendo, depois, o viço pujante da dinâmica nazi-fascista, continuou a marcar o condicionamento da mentalidade da mulher espanhola (ainda hoje, entre as mulheres do PP). E é uma forma de esquecer o papel do lobby feminino de Pilar, mesmo após a morte de Franco, para impor e consolidar a solução monárquica em Espanha (a SFF foi um dos sustentáculos da "solução Juan Carlos"). Aliás, a SFF foi das últimas organizações do franquismo a serem extintas (só o foi em 1977 e após a lei de desfascização de 1976). E Pilar, até à sua morte em 1991, ainda teve força e eco para formar e alimentar uma Organização de "Veteranas da SFF". E o fantasma ideológico da SFF ainda hoje continua a dar luta (por exemplo, quanto à querela sobre o aborto) em luta contra a modernidade e autonomia da mulher espanhola. Desvalorizar, pelo papel da contestação brejeira às caves escuras do fascismo, o papel da SFF, é um contraditório que admito mas não estimo.
De marceloribeiro@netcabo.pt a 11 de Maio de 2009 às 18:45
Meu caro João
V. desculpe mas não entendeu o que eu escrevi. E só escrevi o que está escrito, nada mais. Sobre o que foi a guerra de Espanha e, pior ainda, o pós-guerra julgo já ter deixado escritos suficientes para ter de os renovar. Ou melhor, e resumindo: o pós-guerra foi ainda pior:
porque os vencidos deixaram de ter qualquer referente e qualquer esperança
porque o delírio persecutório atingiu inclusivamente gente que a duras penas penas se mantivera não beligerante (mesmo que não neutral)
porque as leis do "ano da vitória" e seguintes foram temívelmente cumpridas a ponto de ainda não se saber exactamente o número de presos, de executados sumariamente, ou de justiciados de qualquer outra maneira
e etc...
Todavia tudo isso não impede (utilizando até um dos seus argumentos, o de a SF ter infantilizado as mulheres e ter-lhes retirado qualquer autonomia politica, social, económica ou moral) que tornasse a organização num fantasma a partir dos anos cinquenta e tal.
Subsistiu? Claro que subsistiu mas sem relevância política de qualquer espécie e sem a importância que só teve enquanto serviu de retaguarda aos combatentes.
V desculpará seguidamente se eu me atrevo a contradizer a tese juancarlista das mulheres fascistas. Estas estavam muito mais próximas do ideário dos "camisas viejas", que referi (ou seja de um certo anti-monarquismo que se plasmava num desenfreado culto a Franco). Quem impõe JC são os outros aliados, a opus dei e o velho e forte conservadorismo que a Falange desprezava. E o desejo de romper o isolamento politico e diplomático espanhol. Com um toque de originalidade: JC é escolhido para não se aceitar o conde de Barcelona que aliás bem o sentiu e bem se indignou.
Eu não quero comparar a SF a certos relentos lusitanos como a Legião mas o processo de apagamento político é idêntico. Continuam a existir em vida vegetativa para o que der e vier. Mais nada. Basta ler "los años de miedo" (Galán) ou o "anedoctario de la españa franquista" em que alguém se lembrou de casar a Pilar Primo de Rivera com Hitler e este, espavorido, desculpou-se com uma ferida de guerra!!!
Quanto a Pilar que foi inclusive da comissão politica do Movimiento será bom relativizar: não é sequer mencionada no "Diccionario de Historia de España" de Ferrer Cuesta que menciona a SF como mera organização auxiliar de enquadramento. Já na "História de España" de Miguel Artola, vol 7 (republica e época de Fanco) direcção de Ramón Tamames, nem a SF nem Pilar PR têm direito a ser citadas. Também "La España del siglo XX" de Santos Juliá e outros não confere relevancia quer á instituição quer à mulher que a dirige.
Anthony Beevor dedica-lhe uma dúzia de linhas em "La guerra civil española" (em 900 páginas!). Na "la Cruzada de 1936" nada as relembra. No "Manual de historia de España" de Javier Tusel há 1o linhas dedicadas á SF relatando quase todas a proibição de fotografar os joelhos das filiadas e sete linhas dedicadas a Pilar. Em 927 páginas!!! Poderia continuar a lista bibliográfica mas suponho que a seriedade e a militância dos autores que menciono bastarão para promover o meu ponto central. A SF foi meramente instrumental e muita da sua importância vem-lhe de ser chefiada a partir de certa altura pela "irmã do grande ausente". Nada disso tem a ver com o horror que foi a história do franquismo. Mas também aqui cumpre propor períodos: o da guerra, o de 39-44, o que vai até 55, o desarrollismo de 56 em diante até aos anos 68/9 e a época de declarada resistência que se prolonga até à transição.
Quanto ao ponto de haver na luta anti-aborto relentos de SF permita-me que lhe contraponha: os relentos são do catolicismo ultramontano que já existia e que permanece. Esse passa bem com Franco ou sem ele, como se vê!
Se V acha que isto é brejeirismo...
De João Tunes a 11 de Maio de 2009 às 21:47
Pois, caro Marcelo.
Se é necessário dizê-lo, eu digo-o: as histórias, nomeadamente as sobre os fascismos e os comunismos, arrastam um velhíssimo handicap, o de serem escritas predominantemente por homens (historiadores). E se estes forem marxistas ou afins, tanto pior (a opressão da mulher encolhe em importância perante outras opressões, nomeadamente a do proletariado). Na selectividade das relevâncias chocantes, há uma tendência para subalternizar (esquecer) a opressão das mulheres, e o mecanismo que o sustenta, bem como as crianças e os idosos. [em parêntesis, a historiografia portuguesa sobre o fascismo é "outra" desde que Irene Pimentel e Maria Manuela Cruzeiro, além de outras, se notabilizaram no mister e ganharam "palco"] E a história do franquismo ainda é uma criança... (embora não deseje que a IP e a MMC emigrem). Nesse sentido, a referência documental do "El País" pareceu-me uma chega que ilumina uma face menos vista do franquismo/falangismo, daí este modesto post.
De José de Sousa a 11 de Maio de 2009 às 18:36
Não conheço, nem pouco mais ou menos, a história do fascismo espanhol.
O que diz, João Tunes, e os documentos a que permite o acesso são extraordinários. E é por isso que quero agradecer-lhe. É das vezes em que tal agradecimento se impõe mesmo. Obrigado!
Não vou sobrecarregar os comentários recebidos.
Só uma observação quase íntima. Olhando aquilo, fiquei melancólico e a pensar duma forma que se poderia traduzir com “o que eu vivi para aqui chegar!”
Um abraço
De João Tunes a 11 de Maio de 2009 às 21:56
Eu acho, caro Sousa, que tenho alguma memória. Já disse e mantenho que a maior diferença que encontro entre o fascismo que ambos conhecemos e a democracia coxa em que hoje sobrevivemos, já na parte final do prazo de validade das nossas vidas e utilidades, são as "nossas" mulheres. Que espectáculo! Da mesma forma, se se quiser "revisitar" o fascismo a detecção das suas marcas mais ignomiosas está no "desenterro" da forma como a mulher era vista e tratada. E é por isso que o mais que me agonia são as mulheres saudosistas ou de direita.
De José de Sousa a 12 de Maio de 2009 às 16:48
De facto é a condição das “nossas” mulheres o que mais mostra a específica infâmia do nosso fascismo. Não vale a pena estar a falar de épocas, de evolução de mentalidades e de costumes, etc. Nada disso, porque o fascismo, fervido em água benta, era mesmo a maior das merdas.
E há não há paciência para aturar o saudosismo de direita, sobretudo se for feminino.
Haverá outras condições humanas em que a marca particular do beatofascismo existiu, com maior ou menor força. Julgo que pode ser o caso das relações entre muito do pequeno patronato ( rural, industrial ou comercial ) com o “seu” pessoal. Não conheço estudos que indiquem, como condicionantes de formas da vida social de então, aquele tipo de regime, de ideologia e de valores. Não estou a falar só do puro catolicismo ou da opressiva presença duma Igreja. Que com esses estamos quites em estudos e conhecimento. Falo daquela simbiose entre a Santa Igreja e o menos santo fascismo local.
Permita-me, caro João Tunes, que lhe diga que apreciei o que escreveu Marcelo Ribeiro. Meteu-se em brios, coligiu elementos, fez o seu trabalho e elaborou um texto com boa informação e quase uma tão boa análise. É verdade que, como diz o João Tunes, entre todos os torções a que a História vai sendo sujeita, há os que resultam dos esquecimentos e dos meio esquecimentos. Será o caso do papel das mulheres e da particular influência que têm entre si e para além de si. No franquismo e no pós franquismo, por exemplo.
E aqui, a História parece tropeçar, para cair em qualquer buraco, e deixar como baldio o que também devia ser o seu campo de trabalho.
Se Marcelo Ribeiro, por interpostas pessoas dos seus historiadores, também caiu num desses buracos, não sei. Sei que, mesmo se isso aconteceu, não deixou de escrever um texto útil e por isso mesmo o felicito.
Para melhor acompanhar a minha franqueza, aqui vai um amistoso abraço do
Sousa
De João Tunes a 12 de Maio de 2009 às 17:08
O talento do Marcelo Ribeiro aqui é tabu, está fora de questão e de discussão. Jurei a mim mesmo deixar de o elogiar, com a continuação parecia assédio de amigo. Mas quanto a concordar, a taxa deve andar pelos 50% (felizmente).
De José de Sousa a 12 de Maio de 2009 às 20:53
Assim é que é. Fico satisfeito. Atitude de amigo com o Marcelo Ribeiro.
E claro que os acordos não podem ser a 100%. Abaixo tal coisa. Abaixo o unanimismo!
Abraço

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