
Leio sempre o Marcelo Ribeiro com um ritual prévio de expectativa, paramentando-a com um salivar de cumplicidade iminente. Será isto o que se chama de camaradagem de escrita ou talvez tenha a ver com coisas que são outras, entre os géneros das emoções ou dos valores forjados em trajectórias nada iguais mas suficientemente cúmplices e que são comuns naqueles que “andaram ao mesmo” por vias tortas e algumas direitas. Confesso que, na blogosfera, me acontece pouco disto. No cinema, na música e na literatura, lá aparecem um ou outro, todos somados a fazerem um pelotão pronto para combate. Com amizades vividas, isso sim, porque é esse o sal que as temperam e lhes dão uma benigna hipertensão. O caso do Marcelo Ribeiro é diferente: não o conheço ao vivo, não fugimos juntos à polícia, não nos cruzámos sequer numa esquina, não sei se tem voz grossa ou fininha ou se prefere tinto velho ou branco novo. Mas ao ler esta nostalgia irónica, parece-me, em irrealidade conveniente, que a Figueira e o Barreiro são aldeias do mesmo concelho:
Que ironia sentir-me vivo, rodeado da morte de outros, da morte de ideais, da morte de uma certa forma republicana de governo, da melancólica apatia dos ideais socialistas que agora nem sequer se notam de tão puídos, na máscara rugosa de um punhado de ministros todos igualmente fungíveis, todos igualmente espertalhões, todos tristemente votados, e a história aí está para os marcar, ao anémico desaparecimento das primeiras páginas, da política e do resto.