
Desafiado a contar o meu “24 de Abril” pela Sofia Loureiro dos Santos, satisfazendo também a curiosidade da Cristina Vieira, esse dueto de simpatias, aqui fica a síntese de memória que a distância ainda me permite ser capaz de fazer:
Em 24 de Abril de 1974, a ditadura preparava-se para estrangular o cineclubismo, movimento em que participava como dirigente do ABC. Na noite de 24 para 25 de Abril, quase não preguei olho. Não por causa da PIDE a apertar o cerco sufocante aos cine-clubes. E nada sabia das movimentações dos militares. A vigília tinha outro motivo - a minha filha Catarina, então com três anos, com uma amigladite, desafiava a escala do termómetro com um febrão consistente. Quando um amigo e meu vizinho me tocou à porta a dar-me a novidade e dizendo-me para ligar o rádio, seriam umas cinco da madrugada, estava acordado embora zonzo de uma noite quase não dormida. Depois, foi a escuta, partilhada de sobrolho carregado, do que a telefonia dizia e cantava, intercalada com os banhos de água tépida para refrescar a Catarina. O meu amigo e vizinho palpitava que era o Kaulza que tinha metido a tropa na rua. Eu inclinava-me por Spínola. Em sintonia, achávamos que estávamos tramados. Quando a manhã rompeu, a Catarina melhorou repentinamente pois o antibiótico começava a evidenciar o seu efeito. Podia, então, tirar as dúvidas, saber. E havia ruas para encher. Enquanto os cine-clubes iniciavam a marcha da ausência de utilidade rumo à inacção que a PIDE tentara e não tivera tempo para conseguir.