
Considerava Severiano Teixeira um homem de inteligência, cultura e bom senso. Mas embarcar na opereta tosca de levar Jaiminho a general, como exercício gratuito de velhas desforras, é uma nódoa de cedência à boçalidade estrelada que o deslustra. Não tinha necessidade de se baixar tanto, cedendo ao círculo de militares anti-abril que poluem o seu staff.
De Jorge Conceição a 9 de Abril de 2009
A minha aversão pela figura deste homem vem de antes do 25 de Abril, vem da cidade de Tete, do ano de 1972, em plena Guerra Colonial. Nunca poderei esquecer a prepotência dos Comandos sobre a tropa restante (para não falar da sua acção sobre os guerrilheiros da Frelimo e os massacres exercidos sobre a população nativa exactamente no Distrito de Tete). Prepotência e comportamentos aberrantes, com a total cobertura do seu chefe Jaime Neves, que lhes ofereceu sempre toda a impunidade e lhes permitiu toda a sorte de marginalidades.
Pois em Tete, cidade onde sediava a ZOT (Zona de Operações de Tete, englobando alguns Sectores Militares), era um centro militar importante onde, além das unidades de combate que por ali passavam rumo ao mato, havia toda a sorte de aquartelamentos do Exército, uma Base Aérea e companhias de tropas especiais dos três ramos (paraquedistas, fuzileiros e comandos), algumas também ali baseadas.
Destas companhias operacionais de tropas especiais de vez em quando se ouvia falar de um ou outro desacato, sendo imediatamente punidos os causados pelos "fuzos" e pelos "páras" e totalmente desculpabilizados e branqueados os dos comandos - sempre muito mais graves - pelo Major Jaime Neves, criador e "dirigente" da auto-designada «Brigada da Madrugada» (pequeno grupo de oficiais, em Tete, que passavam as noites nos copos nos "bares de meninas"), porque, segundo um profundo pensamento dele, «o soldado comando não é melhor nem pior que os outros, simplesmente é diferente»...
Uns curtos exemplos para comparar a diferença de tratamentos:
- Numa determinada noite de futebol de salão, dois "fuzos", para "brincarem", mandaram uma granada de instrução para baixo das bancadas, que, evidentemente, não feriu ninguém, mas provocou o pânico, com os atropelos daí resultantes. Como consequência, no dia seguinte a Companhia (toda!) de Fuzileiros foi, como castigo, enviada para Cabo Delgado, para uma zona de grande perigo.
- Numa das noites de diversão dos "páras" na cidade (a base deles ficava na Base Aérea a cerca de 8 km de Tete), ouve zaragata e pancadaria que envolveu civis. Estiveram (todos os "páras") proibidos de se deslocarem à cidade durante um mês inteiro!
- Quando passava numa rua uma ronda da PM, dois soldados comandos atiraram uma granada ofensiva para baixo do seu jipe, mandando-os para o hospital militar e ferindo gravemente uma criança que brincava numa varanda próxima. Esta acção foi premeditada e preparada na mesa ao lado da que me encontrava, numa pastelaria.
- Um alferes fardado, meu amigo, conduzia o seu carro (civil) na Avenida prinipal de Tete, quando surge em contra-mão um camião militar cheio de comandos que obrigou o carro civil a saltar para cima do passeio para não ser abalroado. O condutor, o tal alferes, deu meia volta e foi mais à frente interceptar o camião para pedir explicações. Foi recebido com uma rajada de G3, cujos tiros não lhe acertaram, mas que furaram o "capot" do carro e o parabrisas.
- Qualquer destas duas ocorrências foram participadas e apontados os agressores. O Jaime Neves negou a responsabilidade dos seus homens, afirmando que o que havia era "muita inveja dos que são comandos" e que os outros militares estão sempre a roubar os "crachats" dos seus homens (coitados, que afinal até são os fraquinhos ingénuos...).
De modo que, quando este "cow-boy" prepotente apareceu na ribalta e não pelas melhores razões, não estranhei.
Obrigado pelo depoimento.
De paulo santiago a 9 de Abril de 2009
Onde vai esta merda parar?Os que fizeram o 25 de
Abril foram ostracizados, contam-se pelos dedos os
que passaram de Coronel. Agora querem promover
este bronco,há 20 anos na reforma, a General e diz
o paspalho do Min.da Defesa que é tudo legal,não
imagino como. E será que vai receber retroactivos?
Esta trampa liga bem com aquela do tal concurso
para o melhor português. F....-se
De LUIS PARREIRA a 9 de Abril de 2009
Há uma forma genérica e simples, de atribuição de recompensas aos militares. Estes têm um processo próprio de verem reconhecidos publicamente os seus méritos: louvores, medalhas, condecorações e, em casos excepcionais, a promoção ao posto imediato.
Para além das promoções que resultam, de um prémio por acção em campanha há outros “processos” de promoção ao posto imediato, mas esses são sempre resultantes de uma de duas atitudes: ou da via revolucionária ou da via política. Em qualquer dos casos é um prémio, mas um prémio que nada tem a ver com a vida e o desempenho militares; está claramente ligado a uma acção política.
Temos exemplos recentes de promoções revolucionárias: Machado Santos, o oficial de Administração Naval a quem se deveu a implantação da República, que foi promovido a capitão-de-mar-e-guerra e, depois a vice-almirante; Pinheiro de Azevedo, que em 25 de Abril foi promovido a almirante; Rosa Coutinho, promovido a almirante e Galvão de Melo, promovido a general, todos na mesma data.
Promoções tipicamente políticas, nos tempos mais recentes, ocorrem-me somente à memória os casos do general Eanes, e o dos marechais Spínola e Costa Gomes — os últimos de general a marechal (que, entre nós não é um posto, mas uma graduação honorífica) e o primeiro de coronel a tenente-general no decurso de ter sido eleito Presidente da República e por decisão do conselho de ministros.
Não estando Portugal envolvido em situação de guerra — mas tão-só em operações militares ditas de paz — a promoção por distinção em campanha não faz qualquer tipo de sentido e, menos ainda, se for para premiar acções militares passadas há mais de 35 anos atrás. Então, qualquer promoção ao posto imediato de qualquer militar na situação de activo, reserva ou reforma só se pode enquadrar no âmbito do acto político, do prémio político.
Se a proposta para uma promoção ao posto imediato partir dos chefes dos Estados-Maiores dos ramos das Forças Armadas, então, podemos — e, se calhar, devemos — fazer duas leituras: a proposta de promoção é um acto político puro e os chefes militares estão, por isso, declaradamente, a intrometer-se na actividade política, praticando acto político.
Assim, qualquer que seja a proposta de promoção ao posto imediato de qualquer militar e a respectiva consecução do acto só podem ter leituras políticas, isto é, querem dizer coisas políticas; são mensagens políticas dadas à Nação e, como tal, são passíveis de todas as especulações e de todas as interpretações, mas nunca serão motivo de entendimento como um prémio militar dado a um operacional que o foi há 35 ou mais anos, em situação de campanha. Para poder ser entendido como prémio militar teria de vir sob a forma de condecoração, reconhecendo um mérito que havia ficado esquecido.
Deste modo, sou obrigado a dizer: Quem não quer ser lobo não lhe veste a pele.
De paulo santiago a 9 de Abril de 2009
o comentário de Luis Parreira baralhou-me,e os
exmplos indicados não me convencem. Caso do Eanes
Penso que quando foi promovido a General,era além
de P.R.,CEMGFA,estando graduado naquele posto,e
julgo não ter sido promovido pelo Conselho de
Ministros mas sim pelo CR. Assim sendo,o Eanes,
esfingica figura que não me é simpática,estava no
activo,não é o caso de J.Neves.
Claro que esta promoção é politica,baixa politica.
Um tipo,há vinte anos na reforma,em que nada fez
de relevante,ser promovido agora...porquê?
Quero crer que o Min. da Defesa está a fazer um
"frete",em nome de quem?Neste caso não há
contenção de despesas,nem andam para aí os Mários
Crespos a bradarem contra o Governo.Isto só tem
um significado:é a Direita mais retrógoda a deitar as
garras de fora
De Jorge Conceição a 9 de Abril de 2009
Concordo: a direita mais retrógrada e, atendendo à personagem em causa, também a mais trauliteira, o que é ainda mais alarmante, se atendermos ao apoio que tem no terreno!
De José Eduardo de Sousa a 16 de Abril de 2009
Jaiminho, perdeste a confiança dos teus homens, ter-lhe-ia dito Otelo, quando se encontrou perante a “destituição” de Jaime Neves do comando, pelos seus soldados . Ao que me lembro. E segundo a minha interpretação deste episódio, na altura e ainda pelo que recordo, tratou-se duma precipitada asneira do PC. Que só veio a reforçar Jaime Neves.
Jaiminho, aqui tens a confiança e o agradecimento da tua gente, aquela de que permitiste a existência política com a tua intervenção no 25 de Novembro, e, com um abraço, vai lá para General, antes que morras. Que com menos não poderias ser honrado! Teria dito o nosso pessoal político e militar.
Podiam ter esquecido Jaime Neves. Acredito que a pressão foi grande, feita não pelos homens do 25 de Abril, mas pelos de 25 de Novembro. Claro.
Achei interessantes os comentários de Jorge da Conceição (que continue com as suas recordações) e a exposição que Luís Parreira fez, embora com algumas comparações inapropriadas, para concluir que aquela promoção de Jaime Neves era indiscutivelmente política.
João Tunes fez bem em levantar a questão que parece ter um significado político ( e que talvez fosse para passar desapercebida e fazer feliz toda a gente). Porque cede um homem como Severiano Teixeira? Será que também ele pensou “Teixeirinha, não vás perder a confiança dos teus homens que bem precisas deles!”.
Desculpem estas minhas farroncas de me pôr a apreciar tudo e todos. Para mim, a natureza política daquela promoção fica por compreender. Talvez que nem tenha, em si, significado e que esse lhe seja exterior. O significado do à vontade com que se vai fazendo política neste país. Uma coisa menor, aquela promoção dum Jaime Neves. Promovamo-lo!
Excelente texto. Obrigado.
De Filipe a 20 de Abril de 2009
Esplanado o ponto de vista militar Ok.
Mas o Sr. JN, não é empresário de uma uma organização de segurança ??
Pois claro... o que nos espera neste país o que será ???
Então vai-se preparando a repressão que se aproxima, porque o povo português, poderá aguentar a crise internacional, mas não acompanhada da corrupção interna, do roubo, do não funcionamento da justiça etç etç. Para bom entendedor meia palavra basta. Boa noite.
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