
Há autores com que colamos ficando-nos metidos na pele de leitura. Nenhum livro deles nos decepciona, todos são esperas confirmadas que nos compensam a ansiedade da escrita publicada. Esta empatia simbiótica só acontece quando o talento, o estilo, o olhar e o percurso nos colocam a ler aquilo que gostávamos fosse obra nossa. Não a pessoa, mas os seus livros, numa espécie de roteiro de autobiografia transfigurada. É um género de que, pela degola das decepções, só me restam dois titulares: José Cardoso Pires e Jorge Semprún. O primeiro foi-se, Semprún tem 85 anos e publica pouco. Por isso, resta-me relê-los. E é assim que, volta e meia, quanto a Semprún, me reencontro com o personagem Federico Sánchez (que foi o seu apelido de clandestino na Espanha franquista do fim dos anos cinquenta) que o escritor, quase há duas décadas atrás, decidiu suicidar como alter ego literário (e político), o que foi uma forma simbólica de deixar de autobiografar-se.
Eis senão quando leio que Frederico Sánchez voltou, fez uma breve palestra no Senado espanhol e voltou a desaparecer. Pelo resumo jornalístico, fica-se a saber que fez revelações que ainda causam furor, perturbando alguns clichés fixados na memória colectiva. E também contou anedotas do tempo de clandestinidade, como a do risco corrido quando num bar de Madrid dos anos cinquenta perguntou com inocência perigosa quem era esse tal Di Stefano de que todo o mundo falava à sua volta. E dá para imaginar, comparativamente, o risco de estranheza que um clandestino aqui correria, por chamada de atenção para a sua pessoa desentranhada do mundo, se na década de sessenta do salazarismo final mostrasse em público a sua ignorância acerca de quem era um tal Eusébio.
Foi brevíssimo e soube a pouco este reencontro com um meu escritor de pele. Mas foi. E do outro nem isso, para minha desgraça de leitura, posso esperar.