
Um dos aspectos menos abordados na literatura histórica difundida, por isso entre os menos conhecidos e discutidos, acerca da guerra civil em Espanha (1936-39) é o envolvimento soviético ao lado da Frente Popular. Sobre este aspecto, ou abundam os silêncios ou os clichés que romantizam o “lado republicano” ou o demonizam. Este artigo de António Elorza, professor de Ciências Políticas, é uma síntese equilibrada e sugestiva sobre a forma como Estaline lidou com o conflito espanhol que emocionou e envolveu praticamente todo o mundo no final da década de 30 do século XX, desencadeando paixões maniqueístas cujos ecos ainda contaminam a actualidade ideológica.
Penso que é relativamente normal que hajam questões mal resolvidas em Espanha... a guerra civil e a victória franquista silenciaram temas que acabaram por não ser discutidos por mais de 40 anos... quando a repressão terminou é normal que tudo isso venha ao de cima (um pouco reeditado com a questões mais modernas mas ainda assim indentificáveis).
Deixa-me cá ir ler o artigo...
Nem tudo o que parece normal o é. Quanto ao seu "relativamente normal" não sei bem o que seja, deformação dos meus anos em ofício de engenharia, mas calculo por força de imaginar, o que dá força de concordância pacífica. Já quando diz "quando a repressão terminou é normal que tudo isso venha ao de cima" é que a porca torce o rabo, na minha modesta opinião e com a devida licença da reca sua dona. É que o fim de repressão no retorno de Espanha à democracia (interrompida por Franco até à hora da sua morte, amen) desembocou num pacto de silêncio que serviu aos partidos para emergirem da proibição e aos franquistas para obterem a amnésia sobre o passado (absolvição por omissão) e a conservação tácita do rei pela graça de Franco. Foi um punhado de jovens historiadores espanhóis (jovens demais para serem capazes de viver na impotência historicista) e de familiares das vítimas do franquismo (sobretudo as não resignadas a terem os seus antepassados insepultos nas fossas e valetas onde se amontoam os restos dos fuzilados) que foram minando esse silêncio de chumbo que durou duas décadas a lembrarem que matando-se o passado se estava a matar o presente e o futuro. Foi com a chegada ao governo de Zapatero (ele mesmo, neto de um fuzilado em nome de Franco) substituindo Aznar (este, neto de um prócere do regime de Franco), que houve um reencontro progressivo, parcial e moderado de Espanha com a sua história recente. E, recentemente, Baltazar Garzón, partindo parte da loiça, deu um importante empurrão para que os espanhóis varram o pó que ameaçava sepultar-lhes a memória. O que não é um dado adquirido, veja-se o que querem fazer com o cemitério de Badajoz (artigo no "Público" de hoje) a lembrar as sacanices amnésicas cá por casa com a sede da PIDE, Forte de Peniche e Tribunal Plenário da Boa Hora.
Mas o meu post era uma simples remissão para o artigo de Antonio Elorza. Esse sim, é fala de catedrático. Para concordar, discordar ou completar. Uma pena que a sua pressa de comentar tenha precedido a sua leitura (e tê-lo feito é, do ponto de vista intelectual, prova de arrogância própria de pedante palavroso). Mas, à volta, cá o espero. Com todo o gosto.
O pacto de silêncio (não sei bem que grande novidade pensa que está a dar…) só reforça o que eu disse. Se os assuntos e traumas não foram resolvidos porque houve um silêncio obrigatório sobre certos aspectos da história nacional é normal que reapareçam à primeira oportunidade – ou seja assim que se abdicar do princípio de não imputar responsabilidades históricas.
Se não quer que comente pode dizê-lo directamente (e já agora admitindo os verdadeiros motivos por que o faz). Não tenho personalidade para andar a trocar insultos com quem não conheço de lado nenhum nem percebo a psique de quem tem esse tique.
Cumprimentos,
"Pedante palavroso"
Comentar post