
Num artigo publicado em “El País”, Nicolás Sartorius, um velho militante contra o franquismo, sindicalista e activista político da esquerda espanhola, alerta e propõe:
Milhares de milhões para os bancos e milhares de trabalhadores para o desemprego é uma mistura explosiva. Os sindicatos estão a adoptar uma atitude muito responsável mas não seria bom que fossem ultrapassados pela revolta das pessoas. É que toda a paciência tem limites.
É evidente que os sectores “sistémicos” da economia não se podem deixar cair – a parte financeira, a energia, as comunicações, a actividade do meio ambiental -. Mas, por isso mesmo, estes serviços públicos globais têm que merecer uma eficiente supervisão e regulação a diferentes níveis e, em certos casos, têm que estar em mãos públicas.
Desta crise pode-se sair com mais do mesmo ou com outro modelo, mais democrático, mais social e, desde logo, sustentável. Penso que a época em que os EUA e a Europa faziam e desfaziam está ultrapassada. Há que democratizar todas as instituições internacionais; fomentar os processos de integração regional de forma a criar uma rede de governação coordenada e global; apostar num novo paradigma energético baseado em energias limpas; estabelecer novas regras no comércio mundial que incluam cláusulas de coesão social; acabar com os paraísos fiscais que são autênticos roubos aos fiscos enquanto as pessoas continuam a perguntar-se “onde está o dinheiro?”. Numa palavra, ir criando, paulatinamente, um Estado de bem estar global, única maneira, em minha opinião, de manter para o futuro aquilo que desfrutamos no Ocidente.
Esta grande operação de criar um novo modelo de desenvolvimento democrático, social e sustentável tem que ser liderado pelas forças progressistas, políticas e sociais, passando à ofensiva no terreno das ideias, dos valores, das políticas e das alianças.
(ler o artigo completo aqui)
A direita e o centro (que a direita arrastou para o neo-liberalismo), incluindo toda a banda social-democrata que, a partir de Blair e imitando-o, se vergou ao primado absoluto do privado e do mercado até às suas últimas aberrações, estão incapacitados de responderem à crise. E, neste “museu da crise”, Cavaco Silva, Sócrates, Ferreira Leite e Portas ficam bem como “figuras de cera”. Muito menos esta gente é capaz de a aproveitar para a construção de um novo paradigma global que, partindo dos escombros da crise, resolva não só os graves problemas económicos e sociais do momento, mormente a relação entre o económico e o financeiro, como a construção de uma nova ordem global que previna os entorses e as disparidades toleradas como crie os alicerces de uma nova era de prosperidade, espalhando-a e não restringindo-a. Só a esquerda, se for propositiva e reformista, ousada a pensar, a agir e a unir, alijando o projecto que parasita a face simétrica do neo-liberalismo que é o sonho obsessivo e apocalíptico da revolução redentora agarrado à pele dos leninistas serôdios, tem essa oportunidade e missão. Terá ambição para isso?
Da crise de 29 do século passado, os EUA foram para o New Deal, enquanto a Europa se encafuou nos extremismos mórbidos e assassinos do fascismo e do comunismo. Agora, nesta crise, a América foi buscar Obama. A Europa quer ir para onde com Durão Barroso ao leme?
João Tunes,
Eu não quero ser desnecessariamente alarmista mas se calhar a primeira pergunta a sair do saco seria: A Europa quer ir a algum lado enquanto entidade unificada?? Não há plano para sair deste lamaçal (economico e politico) nem interessa ter porque isso só poderia por em cheque os pilares de quase tudo o que é instituição de poder hoje em dia (a começar pela classe politica e os seus patrocionadores empresariais privados...).
Eu direi que a Europa é uma entidade (muito) fragilmente unificada. E o tremendo alargamento (mas necessário e inevitável, porque justo) com a integração dos países saídos da derrocada comunista fragilizaram ainda mais essa unificação. E daí? O caminho percorre-se andando. Não há nem pode haver plano europeu para sair da crise, primeiro porque a crise não é europeia, é global; segundo, os fundamentos da crise ainda não foram percebidos e o que há é uma aproximação medicamentosa de tentativa-erro-tentativa. Mas o meu post não se virou para aqui (apesar do interesse destas questões), tomei boleia do artigo de Sartorius e comunguei um aspecto que muito me interessa: a oportunidade que esta crise oferece à esquerda para se reposicionar como centro das soluções, não só para a saída da crise como para a construção de uma ordem global mais justa.
O alargamento é justo? Mesmo sendo justo foi esse o critério que ditou o calendário? Daí que tal como na questão que eu mencionava acima também nestas se vê que os interesses do eixo Paris-Berlim-Londres tendem a destruir os interesses do resto dos membros (nós incluidos). Em suma, eu não acredito nas vantagens de uma política europeia que nos ignora sistematicamente.
De resto o meu comentário ia no sentido de dar a entender que de esquerda não há muito que sobreviva quer lá fora quer internamente. Ambas respondem aos mesmos interesses porque ambas são dominadas por preocupações meramente pessoais desprovidas de pensamento sistemático - quando oposição de direita e governo de esquerda trocam de discurso quando trocam de posição relativa não pode haver dúvidas que não são eles que estão a ditar a agenda política e muito menos que têm em conta os nossos melhores interesses.
Ficaram evidenciadas as nossas diferenças de pontos de vista. Não vejo com os seus óculos, vc não usará os meus. Portanto, a conversa teve, no mínimo, essa utilidade. Muito obrigado pelo seu contributo.
De Jorge Conceição a 31 de Março de 2009
As notícias hoje ouvidas sobre os sequestros em França das administrações da Caterpiller, da Sony e de outras duas empresas pelos trabalhadores, em acções contra o desemprego, vêm concretizar as preocupações de Sartorius sobre a tal "mistura explosiva". Será que ali estas acções estão já a ultrapassar os sindicatos? E a tal rastilho poderão vir juntar-se as "cargas" também noticiadas pelo relatório da OCDE sobre a depressão (mais de 4%) e o aumento do desemprego previsto para 2009.
De Jorge Conceição a 31 de Março de 2009
Uma correcção ao meu comentário: o termo técnico é recessão e não depressão.
A avisar já são muitos, mais que as mães. Que à recessão se segue a explosão, restam poucas dúvidas. Enquanto os políticos europeus andam a querer curar uma ordem doente e em contágio em cadeia, com a aplicação de "pensos rápidos". E é um risco tremendo que a esperança do mundo se concentre em Obama.
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