Terça-feira, 24 de Março de 2009

QUANDO UM PÁROCO ABRIGOU UMA TENTATIVA DE GOLPE

 

Apesar de ser um aniversário com um “número redondo”, arrisca-se a passar despercebidos os 50 anos que nos separam da tentativa de um golpe, envolvendo militares e civis, para derrubar a ditadura. Ficou conhecido como “golpe da Sé” por as reuniões conspirativas se terem realizado na Sé de Lisboa com cobertura de um pároco. A historiadora Irene Pimentel sintetiza aqui o que sobre este golpe não consumado (foi abortado pela PIDE) descobriu através de pesquisa nos arquivos da polícia política.

 

Publicado por João Tunes às 01:16
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8 comentários:
De José Eduardo de Sousa a 24 de Março de 2009 às 22:05
A Irene Pimentel tem a paixão de saber. Só lho podemos agradecer. Os seus livros são para serem lidos. Bem como os seus textos avulsos.
Talvez devesse escrever este meu comentário no post dos Caminhos de Memória, mas o texto sobre a Revolta da Sé é tão “académico” que, se o fizesse, fugiria completamente desse tom. Por outro lado, é tão insignificante o que possa dizer que o meu acrescento nada acrescentava e muito diminuía.
Já o João Tunes escreveu num tom que me facilita uma intromissão. Sem grande perda para o seu texto. Espero.
Por aquele tempo, o da Revolta da Sé, eu, à ilharga dum amigo de infância, frequentava um pouquinho uns quantos amigáveis, não bem amigos meus, e entre eles estava o Pastor Fernandes. Era um meio profissional.
Numa ocasião, em conversa a dois, eu, pelo que me lembro, comecei a fazer as minhas observações à cumplicidade, ou talvez tão só a inércia, à indiferença das forças armadas perante aquele regime. Ora, o Pastor Fernandes respondeu deixando-me a ideia de que alguma coisa se poderia estar a preparar. Por isto se adivinha a facilidade com que a PIDE se pode ter infiltrado.
Pelo que se dizia, entre aqueles amigáveis, o Pastor Fernandes esteve na Trafaria donde saía, de quando em quando, para dar aulas (ligadas à energia nuclear) na Academia Militar. Parecia que, naquele tempo, ele era alguém insubstituível para leccionar aquela matéria.
Mais tarde, muito mais tarde, um desses amigáveis, este um quase amigo que eu também tentei endoutrinar e que, antes ou depois do 25 de Abril, foi pela certa do PC, disse-me que o Pastor Fernandes lhe tinha escrito, julgo que de Timor (hesito se não seria de Macau, mas seguramente que não foi) contando que, ele, com a sua história, estava ali como elemento de um Tribunal, julgo que seu Presidente, que julgava crimes contra a Pátria.
Não sei se o Pastor Fernandes já morreu. Não me lembro do seu nome ter sido referido no 25 de Abril ou mesmo depois.
Olhando para outro lado, para o lado do Almeida Santos e do seu assassínio, eu lembro-me do frenesim de boatos, de bocas, do que se sabia a partir de quem estava bem informado, etc. Houve vários casos, antes e depois, que provocaram como que uma histeria popular de falatórios. O caso do crime de Cascais, por exemplo.
Cada um tinha a sua história para contar, o seu pormenor para acrescentar. Havia pouca gente a calar e muita a falar em maior ou menor medida. Esta vozearia , imponderada e excitada, aparece ainda hoje a propósito de tudo e de nada. Se tivesse de indicar uma das coisas que mais falta aos portugueses, eu talvez respondesse: tento na língua.
O assassínio de Almeida Santos foi atribuído à PIDE. Tudo bem, parecia mais do que provável. Parecia certo. Mas havia uma história que circulava e que também se destinava a provar tal autoria. Dizia-se que Almeida Santos tinha os sapatos ao contrário. O sapato direito no pé esquerdo e o contrário, naturalmente. Depois dizia-se que era assim porque a PIDE, na tortura de estátua e do sono, calçava assim os interrogados, para a fazer mais dolorosa e a tornar mais insuportável
Que alguém me corrija, mas nunca tive conhecimento, nem antes da morte do Almeida Santos, nem depois, que a PIDE fizesse tal. Se eu estou enganado, reconhecerei que me faltará muita coisa para ainda saber qualquer coisinha. Se não estou enganado, será para admirar a imaginação de quem criou aquela sobre a morte de Almeida Santos.


De João Tunes a 24 de Março de 2009 às 23:10
Obrigado pelas suas achegas. Sobre as dúvidas levantadas, lamento mas nada sei que possa esclarecer.
De irene pimentel a 25 de Março de 2009 às 11:06
Pelo contrário, acho muito interessantes as achegas do José Eduardo de Sousa. Sobre o caso Almeida Santos, de facto, pensou-se na época, sobretudo no seio da oposição, que era um assassinato perpetrado pela PIDE. Tudo apontava para aí, sobretudo o facto de ele ter fugido da prisão de Elvas e ter participado no golpe da Sé. Também ouvi a questão da troca de sapatos, que, a ter existido, apenas atribuo à precipitação e confusão no acto do enterro nas areias da praia do Guincho. Como se sabe, o que aconteceu foi um crime passional, que não teve a autoria da PIDE. PIDE essa que, anos depois, foi a autora do assassinato de Humberto Delgado e Arajaryr Campos, em Espanha. Este caso apenas tem em comum com o de Almeida Santos o facto de a PIDE e o governo salazarista terem nas duas ocasiões tentado atribuir os assassinatos a ajustes de contas no seio da oposição, De qualquer forma, do que sei e penso ser verdade, a PIDE não necessitava de trocar os sapatos aos presos, na tortura da estátua e do sono, para que os pés e as pernas inchassem, como de facto acontecia. O problema, e o José Eduardo de Sousa aponta para aí, embora sem o afirmar, é que muitas vezes as afirmações exageradas levam à descredibilização dos acontecimentos verdadeiros por parte dos negacionistas . Dizer que a PIDE não matava a torto e a direito - e refiro-me à metrópole não aos campos de guerra colonial - não retira nada à sua brutalidade, que de facto existiu.
Evidentemente que a Censura e o facto de o regime abafar propositadamente a investigação dos crimes, mesmo quando não eram perpetrados por ele, proporcionava e potenciava os «boatos» e o «diz-se que», com prejuízo para a verdade.
De José Eduardo de Sousa a 26 de Março de 2009 às 17:10
Obrigado, Irene Pimentel, pela forma como apreciou o que escrevi. E também por ter visto a minha pretensão de que se faça sempre uma narração verdadeira. Tanto quanto possível.
Claro que o caso dos sapatos trocados, a estarem-no, deveu-se a uma natural atrapalhação do momento.
No inverso, eu bem desejaria que não campeasse a invencionice, a fantasia, a difamação fácil. Em plena liberdade, claro. Isso tanto vale para o que se passou antes do 25 de Abril, como para o que se foi e vai passando depois.
Algumas vezes me encontro a pedir, quando dizem dislates incríveis sobre o regime anterior: por favor, não diga isso, aquilo era tão mau que basta dizer a verdade. Corro o risco de ser tomado por um fascista. O que a comunicação social faz circular, o que vozeia a generalidade das pessoas são, inúmeras vezes, “produtos tóxicos” de graves consequências. Em relação ao regime anterior, o que se ouve, o que se “sabe” acaba por parecer uma história de terror que, ao fim e ao cabo, conduz à desacreditação da História e da verdade daquele regime. Ora aquilo não foi uma narração, mais ou menos ficcionada e melhor ou pior protagonizada por quem a faz; foi uma realidade terrivelmente vivida durante meio século. E nem vale a pena acrescentar mais nada, apesar de, ainda hoje e por quanto tempo mais, a sofrermos tão pesadamente.
O que se diz sobre os tempos que correm, apropriando-se quase inteiramente da opinião pública, e, paralelamente, reduzindo cada vez mais o número dos incréus, parece-me que conduz a um empobrecimento da cidadania e até a uma sua maior ou menor alienação.
E, com a comunicação social, quanto maior for a sua toxicidade, maior é a avidez com que é lida ou ouvida. Pedindo, para ontem e para hoje, o mesmo sentido de responsabilidade, corto a conversa e, por me ter lido agora, agradeço-lhe ainda mais .
De João Tunes a 26 de Março de 2009 às 21:06
Já agora, meto-me na conversa.

Gosto desse sentido ético pelo rigor (a maior aproximação possível à verdade e que é sempre um processo de tentativas). O que contará necessariamente com a antipatia dos mitómanos que usarão o cutelo do "branqueamento". Paciência. Já bastam as "brancas" que os mitómanos conseguem impor por serem detentores únicos dos suportes documentais e testemunhais sobre etapas que não se consegue coser com o antes e o depois.

Àquilo que o José Eduardo de Sousa caracterizou das incompreensões acerca da não ficção (inútil e contraproducente, cujo efeito de boomerang é o negacionismo) da realidade da ditadura, Gostaria de, se me derem licença, acrescentar um outro efeito preverso da banalização estereotipada e empobrecida da realidade da ditadura: a forma fácil como hoje, por dá cá aquela palha, se acusam de "fascistas", "ditatoriais", "censórias" e "pidescas" actos de entorses democráticos, condenáveis enquanto tal, mas que se sabe que a denúncia democrática e o combate (usando a liberdade de expressão e os recursos institucionais) tem capacidade de corrigir e superar. Para quem viveu a ditadura, dá vontade (a mim dá-me vontade) de propor a troca desses "anos vividos em ditadura" pelos "anos de democracia" dessas pessoas que vivem em permanente e eterna "democracia fascista".

Cumprimentos aos dois.
De José Eduardo de Sousa a 27 de Março de 2009 às 22:58
Meteu-se na conversa e muito bem. Pela minha parte o digo e, pela certa, a Irene Portela o aceita. com gosto, também. Aqui na sua casa.
Agradeço que goste do “meu” cuidado de rigor e de verdade. A questão, além de ética, é política. De resto. o João Tunes aborda esse lado político.
O discurso que ouvimos constantemente, não sendo, nem mais ou menos, as coisas de que se fala, delas se alheia, passa-lhes longe e, muitas vezes, até por feios lugares. E facilita, proporciona mesmo, a donos da palavra publica, os branqueamentos, os apagamentos, o não reparo de hiatos.
Porque o faz, obstinadamente, uma parte deste patronato da palavra? Porque as circunstâncias nos levam a uma cegueira, que é propícia a esse patronato, uma vez que com ela, naturalmente, não vemos a realidade presente e recente e podem então recreá-la? Porque nós continuamos a ser aquele povo que aguentou a ditadura e a guerra colonial? E porque, hoje, a população parece estar mais farto de 35 anos de democracia do que esteve dos 45 de ditadura (bem sei que, nessa altura, as coisas estavam escondidas e agora são histericamente exibidas, por motivos que, esses sim, não o são)?
Não sei, mas parece que têm um público alvo, não só para a compra dos “activos tóxicos” comunicação social, como para afeiçoar, criar, animar uma ideia, um conhecimento determinados com exclusão dos seus contrários, claro. E isto de forma que leve as gentes a não perturbarem a não chatearem. Sossego e respeito.
Dizia Bordiga que o pior do fascismo era o antifascismo. Nós somos vítimas do antifascismo e somo-lo, talvez, no mesmo passo em que somos vítimas do fascismo. Por muitos e maus anos. Leia-se ditadura em vez de fascismo.
Antes do 25 de Abril, a falta de participação cívica e política dobrava-se com a incultura, a ignorância e o atraso. A ditadura, dura e aparentemente monolítica, tendo “apenas” o catolicismo existente como uma possível forma de totalitarismo, conduzia a um processo de simplificação, em que esses, os do regime, eram os fascistas e os outros não o eram e talvez até fossem antifascistas. Esta distinção, este preto e branco, estava inserida, como uma necessidade, na relação entre as populações amorfas e indiferentes e a luta política, sindical, etc. do PC e de todos os maoísmos. Até aos próprios PCs cabia a honra de serem tratados, pelos maoístas, como social-fascistas, designação antiga vindo doutro contexto, mas onde, claro, aparecia o termo “fascismo”.
Eu não quero alargar-me mais. Podia falar do que se seguiu ao 25 de Abril, a todo o complexo processo que vivemos, à baralhada dos tempos actuais, da expectativa em que estamos. A crise, o desemprego...
A mim parece-me ver, nos tempos actuais, aquela nuvem, a do Jaurés, que trazia obrigatoriamente a tempestade.
O “fascista” à força de tanto circular perdeu valor real, mas mantém uma espécie de valor facial. Tem razão o João Tunes, parece-me, nas suas observações sobre a “eterna” “democracia fascista”. Esquecendo as minhas nuvens que só lá mais diante veremos se existem e o que descarregam, aceito que o apropriado funcionamento das instituições pode corrigir os entorses, as censuras e o mais de que todos nos vamos queixando.
O comunismo, os comunistas deixaram de ser palavras de arrepiar.
E aqui parece-me que é justamente na medida em que tudo é vertiginosamente mutável e que dificilmente compreendemos o que se vai passando, que terão de ser, imaginadas e fantasiadas as narrações feitas. Assim surge facilmente, quase como apoio, o uso daquelas palavras. Fascistas, pidescas e mais outras lindezas. O velho outro que não é o “nós” leva com essa carga de epítetos em cima. Em vez de boca teremos nós um bico de papagaio?
Ora isso parece-me pernicioso porque, passe a imagem, estamos a oferecer umas rédeas para que nos conduzam como cidadãos votantes e não incomodantes, para que nos façamos elementos úteis à reprodução, a apenas necessária, daquilo que existe, para que cumpramos bem as nossas funções sociais, no trabalho, na família... E até é por isso, por me parecer “útil” o uso daqueles termos, hoje peles secas sem corpos dentro, que não chego a perceber bem essa preocupação em branqueamentos ou apagamentos.
De José Eduardo de Sousa a 27 de Março de 2009 às 22:59
continuação.
Merecia algum comentário a actual linha do PC, linha em que aqueles termos, que não sossegam apenas no dicionário, ainda cumprem um papel importante. Mais até, essa linha mereceria atentas análises. Eu vejo ali como que o slogan: “Fascismo sempre, 25s de Novembro, nunca mais”
Imensas desculpas por tanta conversa e aos dois por me ter afastado dos vossos registos, a que me devia obrigar.
..
De João Tunes a 27 de Março de 2009 às 23:17
José Eduardo de Sousa ,

Como deve ter reparado, porque a Irene Pimentel o considerou e eu confirmei, dado o interesse desta conversa, eu transportei-a para o "Caminhos da Memória", onde acho que está melhor colocada tendo em conta que o post original da I.P. (de que eu me limitei a fazer remissão) foi lá que foi editado.
Ademais, este meu post, com a antiguidade, perdeu já lugar ao ecran principal do meu blogue pelo que este seu novo contributo, deveras interessante, se arrisca a não ser lido.
Será abuso pedir-lhe que faça cópia e o introduza no "CM"? (estão lá os nossos comentários anteriores pelo que encadeia perfeitamente). Se sim, o que desde já lhe agradeço, corrija sff o nome da emérita historiadora (é Pimentel, não Portela).

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