Quarta-feira, 18 de Março de 2009

ENTRE DUAS CAPAS

 

António Teixeira num dos seus interessantes posts acerca de curiosidades históricas, apresenta um paralelo de tratamento da revista TIME com uma capa (1946) com o ditador Salazar e outra (1966) com o ditador Ceausescu. E chama a atenção para a diferença de tratamento (reprovação/aceitação) dado aos dois ditadores através do enquadramento das duas capas. No caso português, tratando negativamente um aliado dos EUA; no caso do romeno, uma certa exaltação mitigada de alguém com poder dentro do “bloco inimigo” da “guerra fria” por já mostrar sinais de independência perante o seu pólo imperial. E António Teixeira considera que “São edições separadas por 20 anos (…) mas, não tendo evoluído o cenário geoestratégico de uma data para outra, faz sentido que se comparem aquelas duas edições”. E aqui (na imutabilidade do cenário geoestratégico) é que não posso concordar com este estimado blogo-companheiro. Entre uma data e outra, muita água correu debaixo das pontes pois foram 20 anos em que o mundo, mais que as pontes, mudou e muito. Basta atender que os golpes de tomada de poder pelos comunistas na Europa Central e de Leste ocorreram depois da primeira capa (1947/48) e, a sério, a "guerra fria" iniciou-se em 1949.
 
Em 1946, Portugal ainda não era membro da NATO (foi-o em 1949, quando esta organização foi criada) nem da ONU (admitido em 1955), estava fresca a memória da guerra e do nazi-fascismo, o apoio de Salazar a Franco na guerra civil espanhola e ao lado do nazi-fascismo, os negócios de Portugal com a Alemanha nazi e aqui ter sido decretado luto oficial pela morte de Hitler e os fortes sentimentos anti-americanos da ditadura portuguesa (que ainda hoje marcam a direita nacional e são a sua ponte mais visível com a esquerda radical). No mundo, havia a perspectiva que as ditaduras de Salazar e Franco seriam apeadas como efeitos da desintegração do nazi-fascismo. A tranquilidade da ditadura portuguesa só foi readquirida com a entrada na NATO em 1949 e mesmo então de forma muito relativa pois sabe-se da aposta americana em que o ditador fosse substituído, projecto que a Administração americana só abandonaria após o falhanço do “golpe Botelho Moniz” em 1961 (e onde os EUA tiveram o seu papel). Portanto, a capa da TIME exprime a repulsa por Salazar então corrente na opinião pública americana. Entretanto, junto ao Mar Negro, Ceausescu ainda dava os seus passos intermédios na ascensão na nomenklatura comunista romena (transitava então da liderança da Juventude Comunista para segurar uma pasta ministerial e a chegar-se à cadeira de número dois do Partido ainda com chefia de um velho estalinista, Gheorghiu-Dej). Obviamente que estava “muito verde” em importância nacional e internacional para merecer capa da TIME. Além de que a própria Roménia não era então notícia pois o golpe com que ali os comunistas tomariam o poder só foi realizado em 1947.
 
Em 1966, o bloco político e geoestratégico entre a ditadura portuguesa e os EUA estava firme e consolidado, com Portugal encarregue de “combater o comunismo em África” em três frentes militares da guerra colonial (a que a NATO deu um apoio efectivo embora camuflado). Salazar, então um aliado útil e “eficaz”, só poderia receber uma capa simpática da TIME se para tanto houvesse descaramento. Quanto a Ceausescu estava a emergir no caminho para o poder absoluto mas ainda não o tinha seguro nas mãos. No ano anterior, por morte de Gheorghiu-Dej, tinha chegado à liderança do Partido mas só no ano seguinte se sentaria na presidência do Conselho de Estado. Perante um líder emergente e que dava mostras de querer ganhar uma margem de autonomia (que foi mais ambivalência que autonomia) no diferendo sino-soviético estalado com fragor dois anos antes, a capa da TIME é uma aposta de risco calculado no “melhor cavalo” (e certeira, como mais tarde se confirmou).
 

Resumindo, e a moral aqui aplicável é a “moral da história”, do ponto de vista americano, da sua Administração, da sua opinião pública, da sua informação, as duas capas da TIME estão “certas”, cada uma no seu tempo. O mundo é que mudou muito nesses vinte anos de intervalo. O que foi estático, aspecto de somenos para a TIME, foram as desgraças, para portugueses e romenos, da inalterabilidade das respectivas ditaduras, simétricas na ideologia, irmãs na brutalidade.

 

Publicado por João Tunes às 11:45
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3 comentários:
De A.Teixeira a 19 de Março de 2009
Meu Caro João Tunes, fossem as discordâncias todas como esta que aponta comigo e este mundo seria mais enfadonho...

De facto, eu subscreveria quase tudo, mas mesmo quase tudo, daquilo que escreveu sobre a evolução da situação mundial de 1946 para 1966.

E o quase, convêm esclarecê-lo porque é mesmo pequeno, é apenas aquele apontamento em tom que adivinho repreensivo sobre o comércio com a Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial.

Uma coisa distinta é o Cenário Geoestratégico a que me referi no meu poste.

Há autores que colocam o seu inicio desse Cenário em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial (foi o que fiz). Há quem prefira colocá-lo em 1949, ano do estabelecimento do equilíbrio atómico, com a detonação da Bomba atómica soviética.

Há quem o faça acabar em 1989 (Queda do Muro) mas há quem prefira 1991 (fim da União Soviética). Mas, seja quais forem as datas escolhidas, o Cenário Geoestratégico em vigor durante estes cerca de 45 anos, perceptível em 1946, evidente em 1966, é o do Mundo Bipolar.
De João Tunes a 19 de Março de 2009
Caríssimo, discorda que seja "repreensivo" sobre os negócios com a Alemanha nazi (sobretudo volfrâmio e conservas para os militares alemães) que eram pagos à ditadura portuguesa, em grande parte, com o ouro roubado aos judeus do Holocausto?
De A.Teixeira a 19 de Março de 2009
Folgo que tenha ficado esclarecida a questão do Cenário Geoestratégico. Quanto à questão me coloca é um caso tão engraçado e típico de uma “questão carregada” que, se me permite e devido à extensão da resposta, até lhe responderei num poste no meu blogue.

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