Quinta-feira, 23 de Novembro de 2006

SALAZARISMO ALÉM DOS MITOS

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O tempo leva à simplificação e ao mito. A distância relativamente ao anterior regime (ditatorial), com a maioria da população activa e interventiva nascida ou tornada adulta posteriormente e em regime democrático, dificulta não só a percepção do que era a realidade do país sob Salazar, como a descodificação do mito Salazar sofre dois impulsos nebulosos – o dos saudosistas que glorificam o ditador através de um quadro alegórico mistificado pela apologia, mais o da simplificação anti-salazarista que se esgota na diabolização do antigo seminarista alçado a décadas de mandante absoluto.

 

Na espuma do confronto surdo entre os dois tratamentos redutores do mito Salazar, surge a questão da definição do regime. Na banda do anti-salazarismo preguiçoso, o sujeito foi um chefe fascista tout court, ponto final. Pelo lado dos apologistas, com a ajuda dos neófitos do rigorismo, não houve fascismo em Portugal porque a ementa do “fascismo puro” (Itália e Mussolini, como modelos) aqui não foi servida na íntegra e então propõem outras gavetas de categorização em que a mais utilizada é a do autoritarismo conservador-nacionalista de matriz catolicista. E, afinal, uns e outros têm razão (parcial). O modelo político de referência do salazarismo (sobretudo depois da ascensão de Hitler ao poder e nitidamente após o início da guerra civil em Espanha) foi claramente o fascismo italiano. E foi esse modelo que moldou as instituições mestras do salazarismo (a saudação regimental "à romana", o culto do Chefe, as corporações, os sindicatos nacionais, as milícias Legião e Mocidade Portuguesa, a integração das mulheres, o figurino da polícia política, a censura, o aparelho burocrático e administrativo, a ajuda social aos pobres, o recurso às obras públicas para debelar o desemprego). Mas, sem dúvida, o nacionalismo serôdio, o tradicionalismo camponês e o atavismo colonial, estreitando horizontes de expansionismo imperial e de desenvolvimento, deram uma plasticidade ao regime autoritário que impediram uma imitação avançada do modelo italiano. Salazar apostou na constância da ignorância, do atraso e do ruralismo como molde de impor e manter os mecanismos de predomínio ditatorial. E serviu-se da religião católica como substrato de consolidação das imposições, dos medos e das obediências. Nestes aspectos, nesta plástica de país destinado a ser pobre mas compensando-se com a ilusão da eternidade do império colonial, a casinha arrumada, a aldeia, a cruz, a confissão, a hóstia, a missa, a procissão, a feira, a romaria, os foguetes, o jogo de futebol, a roupa pobre mas bem lavada e bem remendada, o saber ler, escrever e contar como medida de cultura suficiente, o tirar o chapéu ao senhor doutor, o recato, o receio da GNR e da PIDE, o racismo primário e contido, a desconfiança perante o desconhecido e os estrangeiros, a alergia surda e muda à vizinha Espanha, preenchiam os condimentos da liturgia de exaltação, identificação e obediência ao regime. Como modelo ruralista que o salazarismo foi, ele manifestou-se distante dos rituais dos impactos de massas e demonstrações de força e adesão, manifestados nas celebrações em grandes urbes, com que na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler se pretendia, e conseguia, galvanizar por dentro e impressionar e assustar o mundo exterior. No fundo, o que nos calhou em sorte foi, numa definição larga, um fascismo “à portuguesa”. Pequenino, rural, atrasado, com o padre no centro da continuidade e o polícia no ajuste dos carris.

 

Mas o grande factor que impediu que o modelo do salazarismo fosse mais “puro” no decalque do modelo fascista inspirador, bem como a política de relacionamento e alinhamento internacional, foi de ordem geo-estratégica. Se o impulso original do salazarismo foi o ruralismo pacóvio e clerical-católico, intrinsecamente anti-moderno, o poder de alinhamento com a reprodução do modelo fascista italiano que se lhe seguiu foi moderado pela necessidade de sobrevivência que passava pelo apoio britânico. Que, em contrapartida, acabou por ter a capacidade de manter o salazarismo na mediania dos seus impulsos centrípetos. Perante os apetites de Espanha, umas vezes para modificarem o regime português e outras para darem vara larga ao às pulsões anexionistas, e as ameaças para a continuação do impérios colonial, Salazar viveu intensamente com a necessidade de manter e avivar, hora a hora, a aliança anglo-portuguesa. Sem a Inglaterra, Portugal não tinha capacidade de se defender de Espanha. Sem a Inglaterra, Portugal não tinha capacidade de defender as colónias. Sem a aliança com a Inglaterra, a própria Inglaterra tendia não só a querer apoderar-se das colónias portuguesas como a negociá-las como moeda de troca nos jogos de repartição colonial com outras grandes potências (nomeadamente, com a Alemanha). Pela parte da Inglaterra, esta nunca achou que os portugueses merecessem mais que o salazarismo, servindo-lhe perfeitamente como pequena fortaleza de impedimento à influência soviética na Península, por isso não o hostilizou, procurando que não caísse na órbita das influências da França, da Alemanha (nazi) e da Itália (fascista). E se Salazar geriu a aliança com a Inglaterra em permanente aflição, disfarçada com grandes doses de manha, típica do subordinado necessitado, os governos ingleses viram-nos sobretudo como peça que lhes interessava nas suas rotas marítimas e pelo seu anticomunismo radical. O compromisso assentava em que a ditadura portuguesa fosse uma sopa para se comer fria, sem sabor mas sem risco de escaldar a língua. E terá sido também isso. Com o preço de ter metido Portugal a andar de carroça e de que ainda se ouve o chiar das rodas gastas.

 

O livro recentemente editado pela “Dom Quixote” da autoria de Valentim Alexandre (*), contribui para uma visão polifacetada da génese ideológica e da evolução política do salazarismo na sua fase de identificação programática e de inserção no cenário internacional. Leitura a não perder. Pelo seu rigor, metodologia e fundamentação sobre a formação da essência ideológica do salazarismo. Mais complexo que as reduções correntes querem fazer crer. Ou seja, útil para ver além do mito.

 

(*) – “O Roubo das Almas – Salazar, a Igreja e os totalitarismos (1930-1939)”, Ed. Dom Quixote, Valentim Alexandre

 

Imagem – Assim se ensinava Salazar aos jovens.

Publicado por João Tunes às 17:04
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