Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009

A COLHEITA DOS VOTOS DE PROTESTO

 

O Bloco é o partido mais eleitoralista, mais parlamentarista e mais fulanizado do arco partidário. Fora dos períodos eleitorais, sobra dele quase nada mais que Louçã no Parlamento. E se esta Convenção teve algum reflexo mediático, isso deve-se a estarmos em ano de três eleições e ao efeito da aproximação bloquista a Alegre e a Carvalho da Silva. Este é o grande paradoxo de um partido que não descola da sua matriz de partido de protesto sem que tenha expressão e intervenção relevantes fora do Parlamento e da comunicação social, nomeadamente no mundo do trabalho onde não passa de atrelado às acções da CGTP que, por sua vez, é ferreamente controlada pelo PCP. A demonstração deste fim-de-semana de radicalidade anticapitalista e fixação revolucionarista não jogam com a expressão da sua praxis política que tipificam alguns dos maiores defeitos próprios de um partido burguês e criticáveis até num partido social-democrata.
 
O certo é que o Bloco vai subindo nas sondagens e já ameaça o posicionamento eleitoral do PCP. Não porque o Bloco tenha capacidade de roubar votos ao eleitorado comunista mas pela habilidade excepcional de quase fazer o pleno da recolha dos votos dos eleitores socialistas (de “esquerda”) descontentes com o governo PS. É, assim, um fenómeno notável de parasitismo político e eleitoral: o PCP desgasta, corrói, constrói e cristaliza, minuto a minuto, o ódio político a Sócrates e ao PS, enquanto o Bloco existe pelos discursos de Louçã e depois recolhe os efeitos das raivas do eleitorado socialista descontente e propícias à vontade de castigo ao pai tirano.
 
A forma fácil como o Bloco tem crescido e anuncia crescer mais, se não é criticável enquanto recurso à via rápida para a afirmação (não há partido que desdenhasse este filão de enriquecimento veloz), atrasa o seu amadurecimento na disponibilidade de transitar do criticar ao fazer melhor que aqueles que fazem. Muito pelo contrário, qual adolescente mimado com mesada de pai patrão, rico e generoso, faz perdurar a atracção pela folia do happening revolucionário sob a máscara de grupo de vegetarianos que não comem carne de governo por causa dos ossos. As próximas eleições ainda se apresentam como propícias a esta engorda de puto obeso ocioso e, assim, não vai ser agora que o Bloco perderá os seus vícios de parasita partidário. Só quando o limite de crescimento potencial se esgotar e entrar em refluxo de capacidade atractiva indolor e não suada, o Bloco se verá defrontado com a impossibilidade de ser adolescente para o resto da vida. Ou, se houver uma cisão na esquerda do PS, pela junção de uma nova vaga de sociais-democratas, ajudando a uma reconstrução do Bloco que obrigue a que a turma acabe o recreio e se sente na sala de aula a fazer os exercícios da política e dos jogos dos partidos que são normais numa democracia normal. De qualquer forma, é cedo para arriscar em definitivo. Nunca se sabe no que dão as crises de crescimento.
 

Outro factor relevante neste panorama da recolha dos votos de protesto é a incapacidade do PCP em fidelizar eleitoralmente todo o descontentamento que espalha, agita e mobiliza socialmente. Muitos são os que lhe aceitam as bandeiras do protesto, poucos os que lhe dão as chaves do poder. Porque sabem que, com o PCP no poder, as razões de protesto não só aumentariam como perderiam a possibilidade de protestar. E porque se nota que o PCP, enclausurado no mais cego sectarismo, desde que “não se descaracterize”, é feliz sobretudo “com poucos e bons” e os seus sonhos políticos são contas de outro rosário, o da revolução que há-de chegar numa manhã de nevoeiro. Alternativamente, o voto de protesto deslocado para o Bloco, pela abstinência deste relativamente ao poder, o burguês e o revolucionário, é um voto sem a marca do irremediável, um voto em que o eleitor descontente sente que pode dar e tirar, um voto de castigo mas não de casamento com filhos para aturar.  Além de que, como raramente o Louçã faz um mau discurso, a margem de decepção é garantidamente reduzida.

 

Nota: Sobre este tema é interessante cotejar dois magníficos contributos para o debate: um post de Osvaldo Castro (aqui) na óptica de um militante do PS (da sua ala esquerda não centrífuga) e outro de Rui Bebiano, um eleitor no Bloco pela fatalidade da força do destino e que teve neste fim-de-semana um merecido momento de glória na comunicação social enquanto comentador-estudioso do "fenómeno bloquista" (aqui).

 

Publicado por João Tunes às 17:23
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2 comentários:
De Osvaldo Castro a 9 de Fevereiro de 2009 às 20:50
Caro João Tunes,
Fiz um link para o seu blog a partir do "Praça Stephens " jppedrosa2005@gmail.com ).
Cumprimentos.
Osvaldo Castro
De João Tunes a 9 de Fevereiro de 2009 às 21:40
Já li e retribui em nota de rodapé neste post.

Cumprimentos.

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