Sábado, 18 de Novembro de 2006

ORDJONIKIDZE: UM SUICÍDIO NA PARANÓIA PARADIGMÁTICA

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Num anterior post sobre o “enigma paradigmático” do assassinato de Sergei Kirov, caracterizámos a fase do terror estalinista (o “terror vermelho sobre os vermelhos”) como o culminar paranóico da patologia política intrínseca ao marxismo-leninismo. Em que a inércia da dinâmica da prática da violência acumulada na liquidação de classes hostis para imposição absoluta do domínio do partido único, descamba numa deriva em que a sede de sangue se vira para o interior das próprias fileiras revolucionárias. E estas purgas, recorrendo às prisões, às torturas e aos fuzilamentos, visavam: primeiro, o estabelecimento do domínio absoluto unipessoal na liderança para um único partido (em que se impunha a liquidação política e física dos eventuais concorrentes); depois, a perpetuação da obediência cega ao chefe era assegurada pela contínua pressão do medo devido à forma aleatória como a sangria continuava sem termo à vista. A justificação doutrinária desta imparável espiral de purga e sangue assentava no conceito de que, com o saltar das etapas para o socialismo e o comunismo, as contradições não só não se atenuam como germinam e desenvolvem-se. Assim, liquidados os inimigos externos (os partidos, as classes e as personalidades hostis, mais os recalcitrantes e os indecisos), o ajuste de contas tinha de continuar no interior do partido onde se supunha que se aninhavam os novos inimigos ou resistentes, numa fase do fraticídio ininterrupto.  

 

Stalin, desfavorecido na apreciação de Lenin sobre os seus méritos relativos face aos restantes dirigentes bolcheviques, precisou primeiro de liquidar os mais brilhantes, pertinazes e capazes concorrentes à liderança sucessória de Lenin. Fê-lo, com apoio de um pequeno grupo de velhos bolcheviques seus cúmplices (com Kirov e Ordjonikidze, à cabeça) e uma camada de burocratas servis recém-promovidos ao Olimpo do Kremlin. Assim, foi afastando e liquidando Trotski, Zinoviev, Kamenev e Bukharin, todos potenciais concorrentes à liderança, arrastando consigo milhares de quadros do partido suspeitos de simpatias e de identidade programática para com os “companheiros de Lenin”. Liquidada quase toda a velha guarda bolchevique, sobraram Kirov e Ordjonikidze, mais uma catrefa de medíocres burocratas emergentes e em permanente pânico a tentarem salvar a pele (Vorochilov, Molotov, Kaganovitch, Kalinin, Mikoyan, Krutchov, Zhdanov, Beria). Nesta fase clímax do terror, os “problemas” para Stalin passaram a reduzir-se aos seus amigos e cúmplices Kirov (muito popular, com grande poder em Leninegrado) e Ordjonikidze (presidente da poderosa Comissão Central de Controle, a cúpula das purgas e das promoções) e o poder desmedido adquirido pelos chefes da polícia política (NKVD). De facto, num Estado já intrinsecamente policial (mais policial que partidário), os chefes da polícia, os carrascos mor, não só sabiam demais (sobretudo como se inventavam as conjuras fabricadas) como ainda tinham um poder discricionário sobre todos os escalões da sociedade e do partido. Encharcados em sangue de camaradas ao serviço de Stalin, os chefes policiais passavam rapidamente a elementos a afastar (que, na versão de Stalin, correspondia à liquidação física). Assim, Iagoda foi fuzilado e substituído por Iejov, Iejov foi fuzilado e substituído por Béria, Béria escapou por pouco até à morte de Stalin, sendo depois fuzilado às ordens de Krutchov). Para completar a obra, sobrava o mister de resolver os “problemas” Kirov e Ordjonikidze. Casos bicudos estes, não só pelos perfis, prestígios e influências dos estorvos, como ainda gozavam de grande proximidade com Stalin e tinham sido seus dedicados cúmplices, embora começassem a demonstrar algum nojo pela espiral paranóica em que o regime descambava. Sobre Kirov, tratado neste post, sabemos que foi “utilmente” assassinado em final de 1934. Quanto a Ordjonikidze, um íntimo amigo de Kirov, alguma “saída” se havia de encontrar. E encontrou-se em 18 de Fevereiro de 1937, data em que este duro bolchevique, também “utilmente”, se suicidou.

 

Grigory Ordjonikidze (conhecido como “Sergo”) (na foto) era um revolucionário georgiano que se destacou na repressão aos georgianos, em trabalho de equipa com Stalin e Dzerjinski, com uma tão enorme brutalidade que escandalizou Lenin, para lhes impor o domínio revolucionário de Moscovo e liquidar as veleidades autonomistas. Alcandorado por Stalin à cúpula do controlo de quadros do Partido (Comissão Central de Controlo), enquanto acumulava com as funções de Comissário da Indústria Pesada, colaborou com Stalin nas liquidações dos velhos camaradas bolcheviques e foi um importante inspirados do “culto da personalidade” de Stalin. A partir do assassinato do seu amigo íntimo Kirov em 1934, a estrela de Ordjonikidze começou a empalidecer. E o cerco começou a ser-lhe montado através da prisão e liquidação dos seus colaboradores próximos no Comissariado da Indústria, atingindo o zénite com a prisão do seu adjunto Piatakov. Aqui, Ordjonikidze percebeu que a sede de sangue de Stalin exigia a abertura das suas próprias veias. E decidiu resistir, dizendo a Stalin: “Tu és louco. Sei-o agora, confirmando o que tinha vindo a perceber ao longo do tempo. Eu revelarei ao Partido que tu não podes ser mais o nosso chefe, porque tu estás psiquicamente doente”. E começa a preparar a sua intervenção para a reunião próxima já marcada do Comité Central. Na sua ausência, a NKVD revista-lhe a casa (a casa do presidente da Comissão de Controlo de Quadros do Partido!). Enfurecido, pede contas a Stalin que lhe responde friamente que nem ele, Stalin, estava livre de lhe acontecer o mesmo. Após uma manhã passada no Kremlin reunido a sós com Stalin, de regresso a casa, ouve-se um tiro e Ordjonikidze é dado como suicidado. O suicídio foi certificado pelo médico legista Dr. Kaminsky que pouco durou após emitir esta certidão de óbito (dias depois, foi preso e fuzilado). E, assim, Ordjonikidze não interveio, como ameaçara, na próxima reunião do Comité Central. O caminho do domínio absoluto de Stalin estava aplanado. Sobravam só os burocratas medíocres e servis para as migalhas de poderes delegados. E o partido estava tão disciplinado e unido que Stalin acabaria por dispensar reuniões do CC e Congressos do Partido até ao final da II Guerra Mundial. A paranóia da patologia marxista-leninista passou a navegar em cruzeiro. Até hoje, com mais ou menos sangue, sucessos, recuos, recaídas e implosões.

Publicado por João Tunes às 20:10
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4 comentários:
De Gil a 19 de Novembro de 2006
"...de regresso a casa, ouve-se um tiro e Kirov é dado como suicidado." - aqui deverá ler-se "Ordjonikidze" em vez de "Kirov", n é?
bom trabalho.
De João Tunes a 19 de Novembro de 2006
Obrigado, Carlos. Já corrigi. Abraço.
De Try_Logic a 19 de Novembro de 2006
Admirável a sua erudição no que toca ao comunismo soviético.Não me canso por isso de visitar o seu blog, aprendo aqui coisas que de outra forma, seguramente, nunca o conseguiria. Mas hoje comento o seu blog lateralmente para apresentar algo do campo da pura ficção para não o catalogar, até, como um delírio. É simplesmente uma arrogância. A política (isto sem aspas) continua a ser entendível apenas de forma unidimensional (esquerda-centro-direita), o eixo dos "x", ora se na explicação do real (seja isso o que for) temos desde há tanto tempo uma perspectiva pluridimensional será que, neste caso vertente, não conseguiremos introduzir pelo menos o eixo dos "y" (que poderá validar a dicotomia ricos-pobres, já nem vou para bons-maus...), isto pelo menos para nos dar mais hipóteses de escolha perante a realidade que temos nos dias de hoje, pois se assim não for temos mesmo, tal como eu faço, e você me auxilia, que nos interessar pelo passado. Tentar, coerentemente catalogar o que temos presentemente, e descendo ao ponto minúsculo da nossa situação nacional, o nosso governo actual como socialista não se consegue obviamente utilizando apenas o eixo das abcissas. Vejo por aí tantas teses de mestrado, ensaios e crónicas articuladas em jornais de referência e nunca vi este aspecto aflorado. Cai no campo do delírio eu sei perfeitamente... mas continuo então a interrogar-me a mim próprio de que valeu o esforço de integrar-mos a realidade ( aquela que, de momento, conhecemos) numa perspectiva tetradimensional, se a componente que mais nos molda o dia a dia continua a ser entendida numa perspectiva unidimensional? Isto não tem resposta evidentemente. Terá quando muito sorrisos complacentes. Eu sei :) Por isso continuaremos com a secreta esperança que a nossa querida Ségolène Royal, qual ninfa da floresta, fará cumprir a máxima que qualquer pessoa de bem espera que se cumpra : " Liberté...e o resto". E pur si muove...
De João Tunes a 19 de Novembro de 2006
Boa tese (e que me deixou a pensar nela). Obrigado.

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j.tunes@sapo.pt


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