
Passei boa parte da minha vida política ensopada em militância encartonada a dar coices nos maoístas made in Portugal. Se eram concorrentes, e eram, pelo menos em símbolos e liturgias, havia que assegurar a liderança de mercado como monopólio vanguardista da classe operária que não é coisa própria para amadores miméticos sobrevalorizando o sangue na guelra. Nunca foram, enquanto sobreviveram, peras fáceis de apanhar. Não pela dimensão ou profundidade - eles sempre imitaram caricaturalmente o pior que havia na tradição do PCP -, oscilando em penetração entre estudantes que faziam política como Coimbra cumpria as praxes e o lumpen com farda de operários, mas pela agilidade, irreverência e facilidade com que proliferavam pela decomposição fragmentária, género aranhas que se reproduziam rapidamente numa miríade de aranhiços. No fundo, tinham um poder de cisão imensamente superior ao poder gregário cúmplice para formarem um Partido, mesmo que na condição angustiante de só poderem ser, por destino do comum Pai Estaline, um partido alternativo. O que bem se compreende hoje ao olharmos as trajectórias desencontradas dos ex-maoístas made in Portugal. É que nunca passaram de individualistas empedernidos juntos em bandos de ocasião. Como eu, que os combati. E que terá sido o que, depois, nos valeu.
Ao ler-se aqui a notável sinopse de Miguel Cardina sobre o maoísmo em Portugal, percebe-se melhor como é difícil caçar aranhas.