Terça-feira, 14 de Novembro de 2006

O NEO KOMINTERN EM LISBOA

000kwt09

O Encontro Internacional de Partidos Comunistas que recentemente teve lugar em Lisboa, organizado pelo PCP, se teve a finalidade doméstica de demonstrar projecção e prestígio internacional do partido organizador, não deixou de ser interessante a vários níveis:

 

- Demonstrou a forma insignificante e grupuscular em que se pulverizou o movimento comunista internacional. Lendo-se a lista das presenças, constata-se que, além de partidos em poder único [Cuba, Vietname e Laos (*)], a grande maioria dos participantes representam pequenas seitas com reduzida expressão eleitoral e com influências social e política diminutas. A par desta natureza de grupúsculo que é da essência da maioria das organizações participantes, em muitos casos duplicam-se e triplicam-se as organizações comunistas nacionais, o que demonstra a dinâmica cisionista e de multiplicação de rivalidades ideológicas domésticas, que é também própria da vida, multiplicação e morte das organizações sectárias. Foram os casos das representações comunistas de Brasil, Dinamarca, Espanha, Grã Bretanha, Índia, Itália, México, Peru, Rússia, Síria, Turquia e Ucrânia. Ainda o facto de o Encontro ter decorrido “à porta fechada”, com excepção do discurso protocolar na cerimónia de abertura por Jerónimo de Sousa, será indicador da dificuldade e delicadeza de gerir as dissenções e rivalidades inter-seitas.

 

- Sobre a situação internacional, o comunicado final, além da reprodução dos chavões habituais sobre o capitalismo, o imperialismo e a globalização, o repúdio da UE e da NATO, dos Estados Unidos e de Israel, os focos de luta apontados como principais e de radicalização do conflito capitalismo/socialismo, foram o Médio Oriente (apoiando-se o radicalismo islâmico no seu conflito com o Ocidente) e a América Latina (contando-se com uma grande esperança revolucionária no tripé Cuba-Venezuela-Bolívia). Ou seja, uma deslocação da velha esperança revolucionária e de construção do socialismo e do comunismo da classe operária e das sociedades desenvolvidas para as massas conduzidas pelo populismo, sejam as dirigidas pelos tallibans e os outros fundamentalistas muçulmanos ou pelo caudilhismo populista latino-americano, agora com a matriz chavista (mais o seu petróleo, evidentemente). De onde se conclui que, se o marxismo-leninismo ainda existe (existirá? é que os documentos oficiais do Encontro não lhe fazem uma única referência…) para os seus persistentes herdeiros, ele não só não está nada bem de saúde como em nada se recomenda, reduzido como está a uma amálgama residual de conglomerado de ressentimentos radicais e sem escrúpulos quanto a princípios, numa forma mórbida de reagir ao tremendo esfarelar do mundo comunista que implodiu em 1989-91.

 

- Confirma-se, na radicalidade grupuscular dos partidos reunidos, a apetência exaltante palas crises, pelas guerras “justas”, pelos conflitos e rupturas sociais e políticas, pelas contradições, negando o mundo dos nossos dias, não contribuindo rigorosamente nada para o avanço das sociedades, a melhoria da vida dos povos e diminuição dos fossos entre povos e camadas sociais, consolidação e aperfeiçoamento da democracia e da intervenção democrática, defesa e alargamento das liberdades individuais e colectivas (a não ser quando estão em causa as práticas radicais de grupos revolucionários). Ou seja, enquanto e onde exista capitalismo, a democracia e as liberdades que interessam são exclusivamente as que levam à luta sem quartel até à desintegração social e política e onde o socialismo chegou ao poder, a democracia e as liberdades passam a ser assuntos de contra-revolucionários e, assim, casos de polícia.

 

- O PCP revela com a maior claridade a sua duplicidade política na exibição da sua face internacionalista. Para consumo interno, defende a democracia e as liberdades, explora até à saciedade a memória do seu martirológio na luta contra o fascismo, cola-se aos movimentos sociais de descontentamento, agitando-os e organizando-os, explora com afinco as desigualdades, as injustiças e as iniquidades, joga o eleitoralismo, ostenta uma solenidade parlamentarista, afirma-se paladino da democracia avançada, faz o papel de cordeiro democrático exemplar, exigente e intransigente. No plano internacional, apoia ditaduras execráveis, aberrantes e paranóicas, apoia a revolução, a luta armada e a repressão, despreza a democracia e as liberdades, interdita a evolução e harmonização humana e social, em favor do confronto revolucionário, seja qual for o preço a pagar. Este Encontro Internacional serve sobretudo como antevisão de que sociedade seria a nossa com o PCP perto ou dentro do poder. Fraco resultado para tanta gente se juntar.

 

(*) O Partido da China participou como “observador”, o Partido da Coreia do Norte não participou.

Publicado por João Tunes às 13:11
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO