
À primeira vista destinado a públicos sitiados em necrofilias políticas, a dos saudosistas salazaristas e a de algum antifascismo de memória, o livro de Paulo Otero sobre o período que vai do acidente de Salazar em Agosto de 1968 até à sua morte em Julho de 1970 (*), surpreende como relatório (é esse o estilo do livro), aclarando muitos aspectos pouco conhecidos ou ainda não levantados, da atribulada movimentação palaciana nos bastidores da sucessão que levou Marcello Caetano a substituir Salazar na cadeira do poder ditatorial.
Sendo o autor um académico de ciências jurídicas, não um historiador, nota-se no livro uma elaboração ético-defensiva na sua feitura em que, sem perder objectividade e o bom tratamento das fontes, arrasta a obra para inúmeras repetições e para uma saturação exasperante de referências às fontes que tornam o livro um desafio à paciência do leitor e à sua boa capacidade de vencer o enfado. Apetecendo dizer que um historiador com boa capacidade de escrita trataria o mesmo tema, sem perda de análise de factos e de ângulos de enfoque, com uma economia superior a metade das páginas impressas.
O tema da análise da transição de Salazar para Caetano, parecendo uma questão já sobejamente conhecida, de que só faltaria a divulgação de quaisquer aspectos anedóticos, surpreende, através do livro de Paulo Otero, como sendo de enorme riqueza identificadora sobre a complexidade e jogos de interesses que atravessavam a elite do Estado Novo, revelando um puzzle de personalidades, ambições e velhacarias frequentemente soterrado em apreciações redutoras e simplistas (de apoio ou de rejeição para com o regime derrubado em 1974). E, neste aspecto, pese embora o suor inútil, por desproporcionado relativamente à sua necessidade, para suportar a leitura do livro, Paulo Otero presta um estimável serviço ao aprofundamento do conhecimento do período político abordado. E se o livro revela a esplendorosa miséria da forma sobressaltada como a elite do fascismo português lidou e geriu a sucessão do Chefe, denotando as suas fragilidades, rivalidades e contradições da época, uma conclusão não equacionada pelo autor permite aproximar uma tese que julgamos implícita e decorrente das demonstradas: a oposição antifascista, apesar das aparências difundidas pela literatura de exaltação, estava na época, como tinha estado antes e esteve depois, numa incapacidade absoluta de, sem o bramir das espadas, apear o regime. Não o ter feito em 1968-70, com a consistência do regime no seu nível mais baixo (se exceptuarmos, para comparação, o período crítico de 1958 com Delgado), provou que enquanto os militares não saíssem dos quartéis não havia hipóteses de “insurreição popular” ou "insurreição nacional" que fossem motores da queda da ditadura e da reimplantação da democracia.
(*) – “Os últimos meses de Salazar”, Paulo Otero, Edições Almedina
... "como sendo de enorme riqueza identificadora sobre a complexidade e jogos de interesses que atravessavam a elite do Estado Novo, revelando um puzzle de personalidades, ambições e velhacarias frequentemente soterrado em apreciações redutoras e simplistas (de apoio ou de rejeição para com o regime derrubado em 1974). "
Ora é neste aspecto e segundo a minha modesta opinião que nada de nada se alterou neste País. É que os jogos agora são exactamente os mesmos. Só mudaram os nomes dos protagonistas.
Como podemos ver estamos na mesma. Quem lá está não está interessado em levantar ondas para não perder o barco numa próxima paragem. E para o ano que vem vai ser uma alegria...
Comparar ditaduras fascistas com regimes democráticos lembra-me alguém que descobriu que Abel e Caim eram iguaizinhos no desenho das orelhas. O que não impede que considere o seu comentário uma tirada idiota. E ofensivo para quem viveu nos dois regimes, batendo-se em ditadura para que houvesse democracia e em democracia para que não voltassem mais ditaduras.
Apesar de tudo e da sua falta de democraticidade, pois não aceita criticas ou comentários que não perfilhem as suas ideias, REAFIRMO que está tudo na mesma.
Entre 1968 e 1970 quem estava, estava e quem passava, deixava-se estar. Tal como agora quem lá está não faz ondas aguardando que chegue a sua vez de comer à mesa do orçamento. Só que antes eram meia dúzia e agora devem ultrapassar o meio milhar,senão mais.
Afirme e reafirme o que entender, mas, já que tem um lugar na praça, venda sff o seu peixe na sua banca. Não traga as moscas dos seus lugares comuns para este estaminé. Isto não é um forum, nem um tasco.
De
lili a 28 de Outubro de 2008
necrofilias políticas?! Assim sendo, toda a História é uma necrofilia.
A pressa na leitura pode ser boa para sentenças de desdém mas arrisca-se a ser péssima como evidência de capacidade interpretativa. A história quando lida e interpreta figuras não vivas não tem que ser necrófila e é claro que não deve sê-lo. A busca histórica do passado só faz sentido se pretender servir para melhorar a vida dos vivos e dos futuros, rasgando alamedas com menos repetições de erros civilizacionais ou atropelos repugnantes. Necrofilia (histórica ou política) é uma fixação por figuras desaparecidas e datadas na defesa de uma marcha de retrocesso para figuras de marca que, eventualmente, se consideram "gloriosas". Ou na sua negação paranóica. Essa é a questão em todas as filias. Pior são as "necrofilias sitiadas" e foi a essas que aludi (negando que ela existisse no caso deste livro). Recomendo à senhora lili (suponho que lili seja alcunha de senhora com gosto por alfinetadas resguardadas pela coragem púdica do anonimato) que controle os fluxos do suco gástrico, o seu excesso não é amigo do discernimento. Ou então pode entreter-se a embirrar consigo e sem necessidade de sair do seu habitat, cara senhora.
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