
O romance autobiográfico de Ricardo de Saavedra sobre a resistência à descolonização em Moçambique (*) foi um livro cuja leitura me suscitou, simultaneamente, uma leitura empolgante e uma repulsa constante. Se, por um lado, o estilo literário é poderoso e fascinante da primeira à última página, muito pelo estilo de jornalismo de repórter na acção marcado por um ritmo sempre em alta, o recheio permanente de estereótipos de ódio à descolonização, como se de um manual dos “retornados” ressentidos se tratasse, torna-o num depositário de lugares comuns velhos e gastos da decepção africanista de colonos renitentes.
No meio de tanta edição e propaganda parcial de cariz maniqueísta sobre África e os africanos, muitas vezes fruto de um racismo paternalista mascarado de “esquerda amiga”, obviamente que RS tem direito ao contraponto vingativo, usando as mesmas armas e virando-as ao contrário, dando, assim, voz aos ressentidos (e prejudicados) com a descolonização moçambicana. Se uns e outros não ajudam ao juízo histórico, colocando lugares comuns construídos mais pelos boatos e retratos destruidores que pelos factos, isso é outra história, que, no caso e tratando-se de obra de ficção, literariamente muito bem conseguida, ajuda a disfarçar a água acartada para o moinho de uma das partes. Mas feridas frescas e ainda a pingarem sangue nas memórias, como são o colonialismo e a descolonização, são de cicatrização demorada. Não admira, pois, que ainda seja a pedido e a gosto que se pintam os heróis e os vilões. Ricardo de Saavedra tem as suas escolhas feitas e adquiridas, valendo a pena ouvir o que tão bem escreve.
(*) – “Os dias do fim”, Ricardo de Saavedra, Edições Campo das Letras
