Terça-feira, 7 de Novembro de 2006

A HISTÓRIA, OS GRANDES, OS MÉDIOS E OS PEQUENOS

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Do desastre total e absoluto no ensino/aproveitamento em Matemática, estamos mais que avisados. Só falta mesmo encontrar as raízes da maldição e remendar uma qualquer solução ainda não vislumbrada. Que talvez seja, quem sabe, e em desespero de causa, ir ao Cemitério dos Prazeres desenterrar Bento de Jesus Caraça. Quanto ao Português, é quase idem com aspas. Quanto à História, bastam umas espreitadelas a um desses concursos com o inefável Malato, o franciscano telegénico, para se perceber que ainda é pior que com a Matemática e o Português. Só que, no caso, a agravante é mais confrangedora porque muitos dos exemplos exibidos de ignorância absoluta sobre os sinais, marcas e personagens do passado, incluindo o nosso, provêm de licenciados, alguns professores do ensino secundário.

 

No caso da História, diferentemente da Matemática e do Português, a ignorância e a aversão tem raízes diversas, mais fundas e melhor explicáveis. Por um lado, o hedonismo dos tempos modernos deifica o imediato e indispõe à reflexão e ligação com o passado, mesmo o mais próximo. E a míngua de perspectiva de projectos para o futuro, leva também ao acentuar do efeito perverso de, centrando tudo no “presente imediato”, não havendo espaço para o “após”, levar, por acrescidas razões, à desvalorização do “antes”. Por outro lado, as gerações dos pais dos actuais alunos e dos jovens licenciados, dos que hoje têm menos de quarenta anos, é composta por pessoas não escolarizadas ou semi-escolarizadas ou, entre a minoria dos que frequentaram o ensino, foram submetidos à cartilha de propaganda histórica simplificadora e cheia de “brancas” e tabus, reduzidas às camadas de reconstituição de heroificações histórica e ideológica segundo a mensagem do salazarismo, que tornou o ensino de História não só desinteressante como reduzido a um ritual curricular tacitamente contractualizado entre a Escola e os alunos. Para a última camada de pais dos actuais estudantes, a que frequentou o ensino no imediato pós-25 de Abril, ou encontrou o deserto do vazio da reconstrução do ensino da História (ainda não refeito do corte com o legado pedagógico-salazarista) ou compensou esse hiato por via das cartilhas materialistas-históricas em que a simplificação, a cristalização, a parcialidade e o dogmatismo difundiam um pronto-a-vestir de magazine de luta de classes (para os que não sabem o que foi essa cartilha, leiam o António Vilarigues que volta e meia, no “Público”, dá dela um show revivalista sobre “marxismo-leninismo” com cheirinho a Brejnev). Num caso e noutro, ambos convidando à preguiça e ao desprazer na aventura de descoberta da leitura e interpretação do passado. Com a democratização e massificação do ensino, traduzida na explosão das populações académicas, estas foram não só encontrar professores maioritariamente mal preparados como os seus meios familiares eram (e são) relapsos ao interesse e ao conhecimento da História.

 

Paradoxalmente, como se tratasse de um plano paralelo, explodiu o número de “historiadores” entre nós. E nunca se publicou tanto como actualmente, sobretudo sobre história contemporânea, nomeadamente sobre aspectos parcelares do Estado Novo e do colonialismo português. E assiste-se a um sector altamente dinâmico e produtivo no mundo universitário que tornaram a historiografia uma das principais pontes de ligação da Academia com a sociedade, sobretudo utilizando o passadiço da política.

 

Enquanto é patente o enorme fosso entre uma maioria escolarizada e escolar avessa e ignorante da História e um mundo académico febril na “moda da História” (na fase de “recuperação do tempo perdido”), surgiu o célebre concurso televisivo sobre “Os Grandes Portugueses”, o qual remete inevitavelmente para os mitos, as santificações e as heroificações na cristalização do imaginário português sobre as suas julgadas grandezas e referências. Que será, julgo, a revelação mais clara dos contornos da crise das nossas ausências de conhecimento com as formas de as compensar através da revelação dos mitos de substituição, alguns fantasmagóricos. Interessante? Sem dúvida. Pelas mais variadas e contraditórias razões. Por exemplo e como diz, com todo o propósito, o historiador Rui Bebiano:

 

Numa altura em que o conhecimento do passado – mesmo aquele mais elementar e factual – se reduz praticamente, para a maioria das pessoas, a umas quantas generalidades ensinadas até ao 9º ano de escolaridade, a notas avulsas surgidas em alguns jornais diários ou na imprensa light, a rubricas de certos programas e concursos televisivos, ou à interferência dos romances históricos de qualidade literária duvidosa, mais do que lamentar as mudanças impostas por este estado de coisas, importará questionar a concepção litúrgica da história que tem servido de álibi a essa vaga de simplificação. Essa «história-cerimónia» que, em nome da estrita «cientificidade», ou da intenção legitimadora, se exclui por vontade própria do papel pedagógico e de intervenção quotidiana no presente, desvalorizando-se enquanto instrumento da cidadania e isolando-se socialmente.”

(ler o post completo de Rui Bebiano aqui)

Publicado por João Tunes às 13:38
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