
Quem gosta, ou gostou, do cinema italiano, sobretudo o do seu período glorioso, 1945/1970 (*), só pode ter (desculpe-se o atrevimento) um apreço particular por Mario Monicelli, autor e guionista de 65 películas, sendo algumas delas autênticas obras-primas do neo-realismo e da comédia. Com 93 anos de idade (há dois anos, ainda rodou um filme), Mário Monicelli vai ser homenageado no próximo Festival de San Sebastian, em que haverá uma retrospectiva da sua obra com a projecção de 41 dos filmes que escreveu e dirigiu. Motivo que serviu de pretexto para uma entrevista do “El País” deveras interessante.
Na entrevista, Mário Monicelli discorre sobre as gerações italianas do pós-guerra e sobre a que se lhe seguiu (a dos “68”):
Respecto a la generación de la posguerra, todo cambió mucho. Aquella era gente muy solidaria y comprometida. Había un sentimiento colectivo de país, queríamos sacar a Italia de una guerra estúpida y hacerla entrar en Europa, modernizarla, industrializarla. Después entregamos el país a la generación siguiente, que se corrompió rápidamente. Empezó a mandar el mercado, que es la ley menos piadosa que existe, que no perdona ni tiene caridad, y las cosas fueron empeorando.
[68] fue el primer movimiento que tomó ese testigo. Esa generación de veinteañeros tomó Italia y pensaron poder revolucionarla entera cambiando lo que hacían sus padres, ridiculizándonos, tratándonos como a viejos que había que dejar de lado. Creían que lo podían hacer todo de nuevo, sin piedad, eligiendo su nueva vida. Fue una generación de violentos y corruptos. Ese tanto de corresponsabilidad colectiva se perdió. La gente se volvió individualista y empezó a pensar en imponerse al vecino.
Sobre a actual situação italiana após a vitória de Berlusconi, Monicelli, que continua a considerar-se comunista, tem uma frase curiosa:
"El Gobierno Berlusconi dice que la lucha de clases no existe, pero sólo hace falta ver cómo hemos convertido a los gitanos en el chivo expiatorio para saber que es mentira".
(*) – Muitos filmes italianos foram exibidos em Portugal e gozaram de grande popularidade, apesar de quase todos eles serem miserável e largamente retalhados pela Censura. A seguir ao 25 de Abril, foi uma grata descoberta para muitos cinéfilos voltarem a ver filmes italianos marcantes e aperceberem-se de que, afinal, “não os tinham visto”, tão decisivas na unidade fílmica eram as longas partes antes cortadas pelos censores do fascismo português. A popularidade do cinema italiano, além de estar recheado de grandes obras, teve muito a ver com o facto de grande parte dos filmes tratarem de situações quotidianas e passadas com “gente comum”, havendo, apesar das diferenças em termos da extroversão exuberante das gentes italianas, uma grande proximidade de cultura latina entre portugueses e italianos, a que acrescia o humor transbordante de muitas das películas. Além, é claro, da enorme galeria de grandes actores e grandes actrizes.