Domingo, 5 de Novembro de 2006

ESPÉCIE DE KOMINTERN PÓS MURO

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Entre 10 e 12 de Novembro, com organização do PCP, vai realizar-se em Lisboa o VIII Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários. Está prevista a presença de 70 delegações partidárias e, segundo os organizadores, a iniciativa “visa encontrar caminhos para o socialismo” e “discutir os perigos do imperialismo”.

 

Após a “queda do Muro de Berlim”, grande parte dos partidos comunistas desapareceram ou transformaram-se em outras coisas bem distintas. Isso foi notório entre os partidos que estavam no poder e os partidos com maior apoio de militância e de votos nos países democráticos. Sobraram uns tantos grupos partidários de maior ou menor dimensão, sobretudo os mais enquistados na velha ortodoxia que ainda vivem dos rendimentos da resistência ao autoritarismo de extrema-direita e cujos povos não provaram a construção doméstica das “democracias populares”. Além dos partidos que ainda mantêm as suas velhas ditaduras na América Latina e na Ásia (embora alguns destes, mantendo o domínio do aparelho de partido único, tenham adaptado os seus países à reconversão económica para a competição globalizante). E tão fracas foram as sobras que o PCP acabou por, no rescaldo, andar a fazer, entre eles, a figura de parente gordo. E, nesta predominância entre sobras, bem se entende que Lisboa seja agora o ponto de encontro dos saudosistas do “socialismo real”.

 

Claro que o que sobrou não dá para reconstruir o Komintern como bem explicou um dirigente do PCP: «Não estamos a criar uma estrutura, uma espécie de Internacional. Houve experiências no passado, nomeadamente a Internacional Comunista, criada em circunstâncias históricas concretas, que teve o seu tempo. No momento actual isso não faz qualquer sentido». Digamos então que este Encontro de Lisboa é “uma espécie de Komintern” ou coisa que valha ao descalabro de que estão a colar alguns cacos.

 

Um Encontro deste género precisa, primeiro, de definir um ou vários inimigos para se começar por se saber contra quem se luta. Por aqui não há lugar a surpresas. Ou seja, são os mesmos de sempre: «Os EUA, que com Israel, são a principal potência militar do mundo, levaram a guerra ao Médio Oriente e à Ásia». Arrumada a questão dos inimigos, impõe-se a definição de um plano de batalha e a irradiação de novos “focos socialistas”. Onde estão eles, dando esperança à humanidade? A resposta já teve um adiantamento: «Será que estes processos na Venezuela, Bolívia e no Brasil a outro nível, vão conduzir à criação de países socialistas do século XXI?”.

 

A deslocação do farol revolucionário “comunista-operário”, antes vivendo localizado no eixo Europa-Ásia, para a América Latina e, nesta, centrando a esperança no poder de Chavez, não deixa de levantar questões interessantes. Primeiro, além do adiamento da esperança na revolução na Europa (e até na Ásia, dadas as opções do Vietname e da China), é uma constatação das debilidades cubanas a precisarem, no momento actual, mais de ajuda que aquilo que mostram de capacidade de irradiação. Depois, sendo Chavez um populista suportado nas camadas suburbanas e no aparelho militar, com uma ideologia política em que mistura cristianismo de catequese com populismo caudilhista, sem apoio nos trabalhadores e operários venezuelanos, como entender esta entrega de liderança e de esperança dos resquícios do marxismo-leninismo? Não há revolução sem “suporte material” e o petróleo pode muito. Pois pode. Mas tanto que dê para a troca da memória do velho Komintern?

Publicado por João Tunes às 00:26
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