Sexta-feira, 25 de Julho de 2008

AMIGOS, DITADORES E FASCISTAS

 

Sobre a problemática das influências recíprocas entre Salazar e Franco, relativamente ao envolvimento peninsular ao lado de Hitler durante a II Guerra Mundial (e os dois ditadores confiavam e desejavam uma vitória do nazi-fascismo), a propósito de um post do Daniel evocativo do encontro de Franco com Hitler em Hendaya em 1940, desenrolou-se uma conversa com o meu amigo blogger das Baleares.
 
Para os eventuais interessados no tema (também para chatear os saudosistas de Salazar que continuam a não me largarem por mail), respigo o que ali escrevi sobre as relações de “amizade e família política” entre os dois ditadores e a respectiva influência no alinhamento e não alinhamento na parceria com o esforço de guerra nazi:
 

É natural que Salazar se arrogasse um certo ascendente político, por vezes até paternalista, sobre Franco e tenha aproveitado isso para “moderar” o alinhamento franquista com o Eixo (sendo verdade que Franco, muito orgulhoso, várias vezes repeliu a mão paternalista que Salazar gostava de lhe pousar no ombro). Salazar era mais velho e tinha já uma longa experiência governativa (onde muito se dedicou aos assuntos diplomáticos) quando Franco tomou o poder. Salazar tinha a “escola” do Seminário onde estudara para Cura, mais uma anterior posição de prestigiado professor universitário, enquanto Franco era um militar e legionário. Salazar estava bem situado nos “dois tabuleiros” (aliança de muitos séculos com a Inglaterra, boas relações com Hitler, Mussolini e Pétain), enquanto Franco estava mais “puxado” para o lado do nazi-fascismo (Franco tinha, para com Hitler e Mussolini, uma “dívida de guerra”, coisa que não atava as mãos de Salazar). E Salazar (pelo papel fundamental que desempenhou na vitória de Franco na guerra civil) achava que Franco lhe devia mais que o contrário. Salazar dedicava uma grande atenção aos assuntos de Espanha (era o único país fronteiriço, sofrera grandes amargos e pânicos no tempo da Espanha republicana que apoiara o golpismo oposicionista contra o seu regime), Franco tinha mais para onde olhar e com que se preocupar. Salazar tinha colónias para conservar, Franco queria recuperá-las. Além do mais, em assuntos internacionais, Salazar jogava bem e tinha até prestígio nas chancelarias inglesa e alemã (era, com imagem roubada ao xadrez, um bom jogador de “simultâneas”), enquanto Franco estava mais alinhado com um dos campos, logo mais limitado em dispor de saídas múltiplas (como se viu, após o fim da guerra, com a admissão dos dois países à ONU e à NATO). E, no muito que tinham em comum (mesmo gosto clerical por irem à missa, ajoelharem e tomarem hóstias; mesmo gosto político em fazerem salada de fascismo, clericalismo e nacionalismo; o mesmo ódio à democracia, à liberdade e aos partidos; a mesma mão pesada para com a diferença e a oposição; o mesmo desprezo para com os direitos humanos e cívicos; uma parecida idiossincrasia dado que se um era beirão, o outro era galego, ambos provincianos – um de gabinete e outro de quartel – com fraquíssimo conhecimento cosmopolita do mundo pois ambos viajaram muito pouco ou quase nada; eram exímios corruptores mas pouco corrompidos), Salazar ganhava em experiência, manha e cultura.

Publicado por João Tunes às 15:43
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