Sexta-feira, 3 de Novembro de 2006

KIROV: O ENIGMA PARADIGMÁTICO

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As teias de mistério que envolvem o assassinato de Sergei Kirov prometem permanecer como um dos maiores enigmas da história mundial do Século XX. E, assim, dificultar a compreensão plena da essência do paradigma bolchevique que, na versão “marxista-leninista” (que mais não é que a essência estratégica do uso do poder pelo estalinismo, ou pós-leninismo, nas suas múltiplas variantes), descambou numa patologia ideológica que vertebrou uma praxis de predominância violenta, depuradora e criminosa (enquanto tratamento da arrumação forçada de projectos nacionais e internacionais, pessoas e grupos sociais e políticos).

 

Como se sabe e se assiste, o paradigma bolchevique apresenta-se em quatro etapas sequenciais e só perceptíveis pela visão do conjunto do projecto: uma primeira fase, em que o projecto se estrutura na fase de luta contra o capitalismo e as formas primitivas de domínio conservador-reaccionário, em que se mescla com a defesa das liberdades, mimetizando-se como força de vanguarda, sacrificial e consequente no avanço democrático e social; uma segunda, em que disputa a hegemonia de poder com as forças democráticas num quadro de radicalização da luta de classes, explorando as tensões entre as pulsões da liberdade e as da igualdade; uma terceira, em que atinge e consolida a hegemonia política e de classe, delegada numa vanguarda partidária apresentada como a parte esclarecida das classes beneficiárias do fim da exploração das relações capitalistas, estruturando um aparelho de terror e aniquilamento contra as resistências ao poder absoluto, à colectivização, ao pensamento único e à uniformização social e política, culminando na destruição das classes fora (portanto, adversárias ou inimigas) da sustentação da nova pirâmide de poder absoluto; uma quarta, em que, destruídas as principais resistência de classe e política ao domínio do partido esclarecido e único, entretanto instituído como substituto das classes pretensamente representadas como beneficiadas do devir histórico, se institui a forma paranóica de Estado policial para a eternização no poder e limpeza das resistências e oscilações fora e dentro das fileiras da nomenklatura instalada no poder e invocando uma legitimidade no cumprimento de uma missão nacional e na procura de sustentações internacionalistas. A perversão patológica reside aqui: o ciclo começa em luta contra a opressão, pela liberdade, pela igualdade, pela fraternidade e pela democracia, termina invariavelmente, se o ciclo for completado, num domínio policial de partido sobre a sociedade (em formas mais ou menos sangrentas e criminosas, consoante a força das resistências e o grau patológico de violência criminosa das novas elites e, sobretudo, do seu líder). Em última instância, quando o ciclo se completa, o que predomina, enforma e caracteriza a fase terminal de um regime bolchevique (depois desta, só resta a sua implosão com regressão a formas primitivas de acumulação capitalista e à aprendizagem de práticas democráticas, quando é o caso), é a patologia pessoal e política do líder absoluto e absolutista que estica o regime até aos seus limites de sustentabilidade – Brejnev na URSS (a implosão começou com ele pois Andropov, Tchernenko e Gorbatchov, foram meros administradores desorientados da gestão da agonia), Mao na China e Ho Chi Minh no Vietname (onde as implosões graduais têm a forma de transfigurações capitalista proporcionadas pela globalização), Pol Pot no Cambodja, Ceaucescu na Roménia, Honneker na RDA, Kadar na Hungria, Husak na Checoslováquia, Kim (pai mais filho) na Coreia do Norte, Fidel em Cuba, etc.

 

[Se Lenin deixou para Stalin (faltando demonstrar se esta sucessão-transmissão era ou não inelutável e se outra alternativa de passagem de poder daria resultados substancialmente diferentes) a fase da orgia sangrenta e policial em que a maioria dos velhos bolcheviques foi liquidada (ou seja, a fase em que o comunismo se refinou a assassinar comunistas), falecendo na etapa em que ainda só havia o terror de vermelhos contra brancos, Cunhal ficou-se pelos méritos de o PCP se ficar pela imagem do martirológio da luta contra a ditadura fascista por só ter participado na primeira fase e ser sustido a meio da segunda fase do projecto bolchevique. A ausência de capacidade, pelo PCP, de atingir o poder absoluto e culminar nas fases de terror e de violência com predomínio policial (ou seja, chegar á terceira e quarta etapas, as do terror vermelho sobre os "brancos" e do terror vermelho sobre "rosas" e alguns dos "vermelhos"), permitiram que o seu refluxo sustentado lhe dão azo a explorar a aura ambígua de força democrática e de emancipação social, cuja duplicidade só é posta a nu quando o PCP revela quais os modelos internacionais de praxis política que o apaixonam e ele apoia (numa revelação eufórica que a sua atracção genético-política vai inteira para os regimes mais paranóicos e mais criminosos, onde as formas mais mitigadas de democracia e liberdade não afloram). Isto é, são os homens das "relações internacionais" do PCP que, hoje, revelam melhor e mais descaradamente como é persistente a matriz das patologias associadas às terceira e quarta fase do projecto bolchevique na versão portuguesa (ora em "stand-by") e desenvolvida por Cunhal a um ponto que o fundiu com a essência política e a natureza ideológica do PCP, restando este partido como um dos últimos e mais fortes esteios mundiais do estalinismo consequente.]

 

Sergei Kirov, um bolchevique ascendente com qualidades de organização, experiente, culto, enorme talento de orador e mobilizador, cruel mas não implacável, com um enorme carisma, converteu-se à normalização da afirmação estalinista na disputa de poder contra os velhos bolcheviques com apetência a recolherem a herança de Lenin. Assim, Kirov foi um precioso aliado na luta de predomínio de Stalin contra Trotski, Zinoviev, Kamenev, Bukharin. Melhor orador que Stalin, mais popular que Stalin, com o carisma que faltava a Stalin, Kirov acabou por se ver alcandorado por muitos quadros do partido (assustados com as revelações patológicas da afirmação do mando único de Stalin na repressão, na colectivização forçada da agricultura, na industrialização acelerada, na perseguição aos resquícios das identidades nacionais) ao papel da derradeira alternativa à liderança de Stalin antes deste impor, pelo sangue, o seu poder absoluto, celerado e inquestionado (no XVII Congresso, Kirov teve mais votos para o CC que Stalin). Foi assassinado em 1 de Dezembro de 1934, na então Leninegrado, por um medíocre despeitado. De imediato, Stalin transformou Kirov, enfim desaparecido, num objecto de culto por toda a União Soviética só comparável ao prestado a Lenin. A par do endeusamento de Kirov, a perseguição aos “assassinos de Kirov” transformou-se numa paranóia infernal e sangrenta que atingiu praticamente todos os comunistas que alguma vez, em menor ou maior grau, tinham afrontado ou discordado de Stalin, ou simplesmente tivesse perdido a graça dele. Entre 1936 e 1939, foram dezenas de milhares os comunistas fuzilados e deportados sob a acusação de envolvimento na conspiração do assassinato de Kirov. Como se grande parte do partido bolchevique tivesse estado apostado na liquidação do discípulo mais dilecto de Stalin. Depois, Stalin ficou solitariamente com o seu poder acolitado por obedientes e atemorizados burocratas.

 

As versões sobre o assassínio de Kirov nunca foram esclarecidas e surgem inúmeros elementos contraditórios (*). Dificilmente o autor dos disparos poderia ter actuado sozinho. Mas a única alternativa que dá consistência à existência de uma conspiração organizada, no grau de apuramento de uma sociedade já com grande controlo policial, levam inevitavelmente à polícia política (NKVD) e esta só podia actuar sob ordens de Stalin. Ou seja, tratar-se-ia de um crime político com o máximo de perfídia: Stalin liquidava o seu então principal discípulo e único concorrente e, sob pretexto de perseguir e castigar os assassinos, liquidava grande parte dos quadros comunistas com que antipatizava, impondo um terror absoluto conduzindo à fidelidade absoluta pelo medo extremo. Resumindo: uma limpeza absoluta na atracção pela diferença e o medo imposto como moral política.

 

Misteriosas são também as razões porque  o assassinato de Kirov nunca se esclareceu após a morte de Stalin. Krutchov, em 1956, nomeou uma comissão de inquérito que, anulando a teoria da conspiração, concluiu por o acto ter sido perpetrado por um assassino solitário. Gorbatchov voltou a nomear outra comissão de inquérito que concluiu o mesmo. Um e outro relatório foram fortemente contestados e apontada uma deficiente investigação com falta de muitos documentos de arquivo que podiam ser esclarecedores. Ieltsin nomeou outra comissão que não foi conclusiva até desembocar no desinteresse pelo assunto. Putin não mostra vontade em adiantar mais sobre o mistério. Tudo indica que vigorou e continua a vigorar um “interesse de Estado” em que o mistério não se esclareça, não se deslindando o caso que pode configurar o enigma paradigmático do poder estalinista que, com o tempo, acabou por ser parte dos patrimónios russo e bolchevique e da herança estalinista espalhada pelo mundo. Talvez a perfídia, neste caso, seja insuportável e não digerível. Veremos até quando.  

 

 

 

(*) Leia-se, a propósito, o livro “Quem Matou Kirov?”, Amy Knight, Ed. Record (Brasil)

Publicado por João Tunes às 15:54
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2 comentários:
De RN a 19 de Novembro de 2006
Krutchev, no relatório ao XX C e depois no XXII congresso, e nas suas Memórias Edit Inquèrito (tradução da versão inglesa de 1990 de Jerrold L.Schecter) e especialmente Roy Medvedev (em Let History Judge 1971 Editions Alfred A. Knopf ou na versão francesa Le Stalinism, 1972 Editions du Seuil) descrevem inúmeros factos antes e depois e em torno do assassinato de Kirov que praticamente o dão como ordenado por Stalin e executado pelo NKVD.
De João Tunes a 19 de Novembro de 2006
Os demasiados insólitos encadeados do assassinato de Kirov levam inevitavelmente a essa convicção. Lamentável é que nenhuma comissão de inquérito (com Krutchov, com Gorbatchov, com Ieltsin) consiga aceder aos documentos em arquivo que o comprovem. E, sem elas, as provas, a evidência não passa de uma alta probabilidade.

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