Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

HENDAYA, 1940

 

 

Muito interessante de ler, também no blogue do Daniel, a evocação do célebre encontro de Franco com Hitler, em 23 de Outubro de 1940, em Hendaya. Do post, respigo esta reveladora carta de Franco para Hitler, enviada antes do encontro:
 
"No necesito asegurarle lo grande que es mi deseo de no permanecer al margen de sus cuitas y lo grande que es mi satisfacción al prestarle en toda ocasión servicios que usted estima como valiosos."
 
O Daniel baseou-se em variada bibliografia editada em Espanha sobre as relações entre os dois ditadores fascistas. Julgo que a sua apreciação ficaria mais contextualizada se tivesse tido acesso a alguma bibliografia historiográfica portuguesa sobre as relações entre Franco e Salazar, no mesmo período.  Ambos desejavam, obvia e ideologicamente, uma vitória do nazi-fascismo na guerra e, nesse sentido, perspectivaram as diplomacias e a propaganda, mas Salazar tinha uma posição mais ambivalente e manhosa, permitindo-lhe equilibrar-se nos “dois tabuleiros”, enquanto Franco era mais directo e incondicional no apoio a Hitler. Aliás, formalmente perante o conflito, enquanto o fascismo português se definiu como “neutral”, o regime homólogo espanhol ficou-se pela “não beligerância”, um passo acima da posição de Salazar. No fundo, duas posições de hipocrisia diplomática, pois nem Salazar foi neutro nem Franco foi “não beligerante” (neste último caso, o envio da “Divisão Azul” para a frente leste nazi, atesta-o). Mas Salazar não desejava a presença militar nazi aquém Pirinéus e muito menos ocupando Gibraltar, em conflito militar próximo com a Inglaterra (com quem Salazar não queria romper, tendo em conta a sobrevivência do seu império colonial, o qual era cobiçado pelos alemães e necessitava da protecção inglesa). Tendo em conta os interesses específicos da sua ditadura, Salazar foi um moderador importante e até decisivo dos ímpetos de Franco para passar ao estatuto de beligerante ao lado de Hitler, aconselhando-o ao jogo da manha e da ambivalência e o beirão e o galego acabaram por se entenderem no jogo da duplicidade mal disfarçada. A “travagem” de Franco por parte de Salazar (e talvez o comportamento arrogante de Franco que irritou Hitler no encontro de Hendaya, tenha sido inspirado por Lisboa) acabou por se revelar decisiva no final da guerra e após ela, na sobrevivência das duas ditaduras ibéricas. A duplicidade influenciada e dirigida por Salazar permitiu o alinhamento a tempo, no volte-face da guerra a seguir a 1943, com ingleses e americanos, “limpando” os passados pró-nazis, e a “guerra fria”, que começou logo a seguir, enquadrou as duas ditaduras anti-comunistas ibéricas no “bloco ocidental”, permitindo-lhes que sobrevivessem uma até 1974 e a outra até 1975, ou seja, trinta anos (!) após final da II Guerra Mundial.
 

Imagem: Primeira página do jornal “Arriba”, órgão da Falange, noticiando o encontro entre Hitler e Franco.

Publicado por João Tunes às 13:13
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4 comentários:
De Daniel a 25 de Julho de 2008
Obrigado por el comentario.
Sí, es cierto que me falta el punto de vista que ud. aporta (y yo le agradezco). La verdad, no sé cuáles fueron los vínculos de amistad o colaboración entre Franco y Salazar, más allá de sus coincidencias ideológicas y otras coasa en común como su desprecio por las libertades.

También es sabido (corríjame si me equivoco por favor) que Portugal e Inglaterra han sido tradicionalmente naciones amigas, por lo que Salazar tanía más motivos para buscar la equidistancia entre aliados (ingleses) y alemanes. Si influyó en Franco en eso, mucho mejor. No me importa si fue mérito de ambos o pura suerte, pero el resultado (no entrar en guerra) fue bueno. España y Portugal se ahorraron así montañas de muertos a cambio, eso sí, de dos dictaduras bien longevas.

Entrar en guerra y perderla habría librado a España de al dictadura? Eso ya es Historia-Ficción.

Un saludo afectuoso
De João Tunes a 25 de Julho de 2008
Caro Daniel,

De facto, há já em Portugal alguma bibliografia histórica sobre o relacionamento entre Salazar e Franco pois aqui não só está acessível o arquivo da correspondência de Salazar como o arquivo diplomático português da época. E há, actualmente, um florescimento editorial de obras de historiadores sobre o fascismo português, nos seus vários aspectos. Se o assunto lhe interessa e me mandar o seu endereço por mail, enviar-lhe-ei com todo o gosto um ou dois livros portugueses sobre o dueto Franco-Salazar.

É natural que Salazar se arrogasse um certo ascendente político, por vezes até paternalista, sobre Franco e tenha aproveitado isso para “moderar” o alinhamento franquista com o Eixo (sendo verdade que Franco, muito orgulhoso, várias vezes repeliu a mão paternalista que Salazar gostava de lhe pousar no ombro). Salazar era mais velho e tinha já uma longa experiência governativa (onde muito se dedicou aos assuntos diplomáticos) quando Franco tomou o poder. Salazar tinha a “escola” do Seminário onde estudara para cura, mais uma anterior posição de prestigiado professor universitário, enquanto Franco era um militar e legionário. Salazar estava bem situado nos “dois tabuleiros” (aliança de muitos séculos com a Inglaterra, boas relações com Hitler, Mussolini e Pétain), enquanto Franco estava mais “puxado” para o lado do nazi-fascismo (Franco tinha, para com Hitler e Mussolini, uma “dívida de guerra”, coisa que não atava as mãos de Salazar). E Salazar (pelo papel fundamental que desempenhou na vitória de Franco na guerra civil) achava que Franco lhe devia mais que o contrário. Salazar dedicava uma grande atenção aos assuntos de Espanha (era o único país fronteiriço, sofrera grandes amargos e pânicos no tempo da Espanha republicana que apoiara o golpismo oposicionista contra o seu regime), Franco tinha mais para onde olhar e com que se preocupar. Salazar tinha colónias para conservar, Franco queria recuperá-las. Além do mais, em assuntos internacionais, Salazar jogava bem e tinha até prestígio nas chancelarias inglesa e alemã (era, com imagem roubada ao xadrez, um bom jogador de “simultâneas”), enquanto Franco estava mais alinhado com um dos campos, logo mais limitado em dispor de saídas múltiplas (como se viu, após o fim da guerra, com a admissão dos dois países à ONU e à NATO). E, no muito que tinham em comum (mesmo gosto clerical por irem à missa, ajoelharem e tomarem hóstias; mesmo gosto político em fazerem salada de fascismo, clericalismo e nacionalismo; o mesmo ódio à democracia, à liberdade e aos partidos; a mesma mão pesada para com a diferença e a oposição; o mesmo desprezo para com os direitos humanos e cívicos; uma parecida idiossincrasia dado que se um era beirão, o outro era galego, ambos provincianos – um de gabinete e outro de quartel – com fraquíssimo conhecimento cosmopolita do mundo pois ambos viajaram muito pouco ou quase nada; eram exímios corruptores mas pouco corrompidos), Salazar ganhava em experiência, manha e cultura.

Não creio, como vc, nisso de “nações amigas”. Há, sim, interesses de Estado, uma vezes convergentes e outras a colidirem, que se podem traduzir ou não em alianças. A aliança Portugal-Inglaterra é a mais velha do mundo, embora tenha estado adormecida na maior parte da sua vigência. Mas, durante a guerra, Salazar fez tudo (enquanto apoiava discretamente Hitler e desejava a sua vitória) para invocar essa Aliança (muitíssimo mais que os ingleses que, bastantes vezes, se faziam de esquecidos para com ela). Porque Salazar só podia conservar as colónias com o apoio inglês e a Alemanha cobiçava recuperar e acrescentar as suas anteriores colónias em África (nomeadamente apoderar-se de Angola).

Estou plenamente de acordo consigo que não adianta imaginar o presente histórico a partir de um passado diferente do que foi (é como na vida). O que não aconteceu não existe em História e será, como bem disse, apenas História-Ficção e para gosto dos diletantes. Mas não aquece nem arrefece.

Como costume, é-me um prazer conversar consigo.

Grande abraço.
De João Tunes a 25 de Julho de 2008
Post Scriptum: E que me desculpe o Daniel pelo tempo tomado e se o atrasei a ir saudar Chavez que anda por aí a banhos.
De Daniel a 26 de Julho de 2008
No se preocupe por esto último, creo que si el Rey y Chávez se bañaron juntos en alguna playa de por aquí me hubiera sido imposible ir a saludarles (cosa que por cierto, no me interesa lo más mínimo). Imposible porque Palma parace estos días una ciudad en estado de sitio, llena de policías. Seguro que el acceso a la playa estaría absolutamente vetado para los locales, turistas y curiosos. Y quien sabe si incluso para las medusas.

Se agradece tanta seguridad, pero también estaría bien que nos protegieran con el mismo celo a los que no tenemos el honor de ser jefes de estado.

Y me alegra su amable ofrecimiento. Me encantaría poder saber más de esa extraña pareja Salazar-Franco. Le haré llegar mi dirección por correo, yo me hago cargo del coste. Ya he leído algún libro en portugués sin recurrir demasiado al diccionario. Estuve en Lisboa hace 7 ó 8 años y compré algunos libros sobre los antiguos lusitanos (en aquella época estaba muy volcado en el tema de la historia antigua) y creo que los entendí muy bien.

Saludos y gracias de nuevo.

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