Domingo, 20 de Julho de 2008

JOGOS E PROBLEMAS

 

Imagem: Foto de uma demonstração da “Amnistia Internacional” para exigir o fim da pena de morte na China, realizada em Maio deste ano em França. A representação ali feita, apesar de ser uma evidente encenação (é visível na foto, a designação da organização promotora do protesto), reproduz, com todo o rigor, o sistema chinês de execução das muitas penas de morte aplicadas anualmente pelos tribunais chineses - fuzilamento público com tiro na nuca. E, até há pouco tempo, as famílias dos fuzilados recebiam, para pagarem, uma factura com a despesa da "bala da morte".  

 

 

 

A notícia referida neste post (1) só pode ter admirado ou mesmo chocado um eventual sinófilo fanático (se é que existe ou subsiste uma tal espécie, quando, há muito, o maoísmo se finou como paixão política). Um cidadão minimamente informado sobre a sociedade chinesa, dispensando preconceitos pró ou contra, sabe que, infelizmente, são fundas nela as raízes de xenofobia e de racismo. Realidade que a comunização não alterou, tendo-as até acentuado, particularmente com e após o terramoto da “revolução cultural”. O típico isolamento da sociedade chinesa em que assenta grande parte da sua história milenar, os apetites, invasões e domínios de potências longínquas e vizinhas que sobressaltaram, vaga após vaga, a estabilidade e a dignidade nacional da China, muitas vezes acompanhadas de chacinas genocidas, alimentaram tendências isolacionistas e preconceitos relativamente ao “estrangeiro”, alicerçados em processos de compensação do “complexo do colonizado” que, liberto, facilmente descamba em arrogância de superioridade. Desde logo, para com os mais próximos: coreanos, japoneses, tibetanos e mongóis. Por extensão, os negros africanos surgem com a "facilidade" de os poderem catalogar uma "raça inferior aos amarelos” que relativize complexos identitários por resolver. E, assim, será incontrolável que as pulsões securitárias para com os Jogos Olímpicos avivem preconceitos xenófobos e racistas entranhados na sociedade chinesa.
 
O Professor Moisés Silva Fernandes, insuspeito de falta de autoridade em conhecimentos sobre a civilização e a história da China (é director do Instituto Confúcio da Universidade de Lisboa), assinala no seu contributo para um livro biográfico sobre o angolano Viriato da Cruz (2):
 
“Com o desaparecimento do estatuto especial que usufruíra no seio da cúpula dirigente chinesa, Viriato [da Cruz] passou a experimentar directamente as atitudes racistas e xenófobas de que os estrangeiros, em geral, e os africanos, em particular, eram vítimas por parte do cidadão comum chinês. Estes comportamentos intensificaram-se durante o período da «revolução cultural». Os poucos estrangeiros que viviam na China, na sua esmagadora maioria apoiantes do regime de Mao, foram objecto de atitudes de descriminação, de prepotências e de abusos. Sócrates Dáskalos, professor angolano da língua portuguesa no Instituto de Línguas da Rádio Pequim, entre 1965 e 1968, que esteve hospedado no Youyi binguan  (You-yi Ping-gwan / Pousada da Amizade), defende que a atitude dos chineses para com os estrangeiros se alterou radicalmente com a precipitação da «revolução cultural»:
 
«Os chineses, que antes da revolução cultural eram sorridentes e mesureiros para com os estrangeiros, com o advento desta revolução, tornaram-se xenófobos, a tal ponto que, além de terem esfaqueado um africano negro que fazia as compras na loja dos cooperantes, borraram a piscina do hotel [Youyi binguan / You-yi Ping-gwan / Pousada da Amizade) com cocó chinês. E mais: nós, como os chineses, utilizávamos a bicicleta para dar as nossas voltas na cidade e arredores e depois de ter começado esta revolução, quando passávamos por um grupo de chineses, estes levantavam os rabinhos do selim e largavam uns punzinhos ou punzões muito mal cheirosos … para saudar os estrangeiros.» (3)
 
O próprio Viriato da Cruz e a sua família foram alvo de atitudes de discriminação pública por parte dos chineses. Monique Chajmowiez, amiga francesa da família, menciona que um dia «visitámos juntos o jardim zoológico e, nesse domingo, a atracção principal da cidade e dos visitantes ‘do interior’ não foi a jaula dos macacos, mas a família de Viriato da Cruz com o seu cabelo encarapinhado, a sua tez escura, o seu falar estrangeiro! O olhar dos chineses não era de curiosidade mas sim de desprezo, racista. O clima «anti-diabos estrangeiros» (yang guizi) na Youyi binguan [You-yi Ping gwan / Pousada da Amizade] era tão intenso que se registou uma queda abrupta no número de hóspedes. Em Julho de 1965 eram 586, em Junho de 1968 tinham descido para «pouco mais de cento e cinquenta» e em Agosto não passavam de 30. Como observou Ann-Marie Brady «despite the retoric about solidarity with Ásia, África e América Latina and the increase stress on friends of China, following the Sino-Soviet split, anti-foreign feeling increased and was even encouraged by government policies designed to keep foreigners and Chinese apart».”
 
(1)    Passaram-se vários dias após a notícia transcrita do “El Mundo”. Nem uma reacção ténue de desmentido se verificou por parte das autoridades chinesas, as quais, decerto, conhecem o que, sobre a China, se publica num dos jornais em língua castelhana com maior difusão e prestígio no mundo, sobretudo o de cultura hispânica. E, estando em causa uma acusação grave de medidas discriminatórias, com naturezas racista e xenófoba, por parte do poder chinês, uma mentira noticiada que afecta o brilho de prestígio dos JO, mereceria de imediato um desmentido enérgico. Só um crédulo sinófilo em estado de êxtase assim não entenderá.
 
(2)     “Viriato da Cruz, o Homem e o Mito”, Edmundo Rocha, Francisco Soares e Moisés Fernandes, Edições Prefácio.
 
(3)     “Um testemunho para a História de Angola: do Huambo ao Huambo”, Sócrates Dáskalos, Edições Vega.
 
 

 

Publicado por João Tunes às 22:42
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2 comentários:
De Maria a 21 de Julho de 2008
Sem querer negar a existência de xenofobia na sociedade chinesa, gostaria de acrescentar a esta questão 2 links:
1. http://shanghaiist.com/2008/07/21/lost_in_translation_more_on_the_bei.php

2. http://news.xinhuanet.com/english/2008-07/21/content_8741843.htm

Tendo estado recentemente em Pequim, achei a notícia inicial muito estranha, porque encontrei, para meu espanto, confesso, bares, restaurantes, galerias de arte em que várias etnias se encontravam, sem vestígios de discriminação. Uma vivência muito diferente daquela que vivi há uns 9 anos atrás.

Por outro lado, e sendo conhecido o empenho do governo chinês neste evento, custou-me a crer que fosse tomada uma medida tão estúpida como a que foi noticiada,

Não me passa pela cabeça, obviamente, contestar as palavras do Professor Moisés Silva Fernandes sobre Viriato da Cruz. Não tenho dúvidas de que este deve ter sofrido atitudes de discriminação. Mas os tempos são outros e, felizmente, menos inflamados do que a revolução cultural foi. Não há comparação possível. Seria possível, por exemplo, durante esse tempo, assistir todos os dias à actuação de uma banda norte-americana, composta por negros , num restaurante de um dos centros comerciais? Com público chinês a delirar com a actuação? Estou a falar de Pequim, há um mês atrás. E mais exemplos haveria....

Não sou sinófila fanática, mas há que reconhecer que, neste momento, não interessa em nada ao governo chinês adoptar atitudes xenófobas, quando irá receber atletas africanos, com os olhos de todo o mundo a assistir e tem interesses económicos muito fortes em áfrica. E, se há coisa que o governo chinês não costuma fazer, é agir contra os seus próprios interesses. Acho eu.




De João Tunes a 21 de Julho de 2008
Agradeço-lhe o depoimento. Provavelmente, tratou-se de um ímpeto pontual de excesso de zelo das forças de segurança. O que acontece um pouco por todo o lado. E a notícia do "El Mundo" é clara em atribuir a directiva não ao governo mas às forças de segurança. Se foi, antes assim. Quanto ao que interessa e não interessa ao governo chinês, há limites para tudo. Veja-se o Tibete.

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