Quarta-feira, 1 de Novembro de 2006

O FIM E O PRINCÍPIO DE CAHORA BASSA

000hqq3f

O difícil parto do acordo Portugal-Moçambique sobre a Barragem de Cahora Bassa deu à luz. Do ponto de vista financeiro, diz um lado e outro que o acordo foi o melhor dentro do possível. Mas do ponto de vista simbólico, foi muito mais que isso.

 

A transferência de propriedade de Cahora Bassa tem um gigantesco significado como selagem do nosso fim colonial. Concebida essencialmente como obra de prestígio do regime e consolidação da presença colonial portuguesa em Moçambique em aliança com os regimes racistas da África do Sul e da Rodésia, visou não só servir de tampão à capacidade de penetração da Frelimo, ser chamariz de fixação de milhares de colonos portugueses, como afirmar o domínio colonial pela excelência espectacular da engenharia do colonizador. Falhou nos seus dois primeiros objectivos - não travou a Frelimo e não chegou a fixar os desejados colonos para a europeização do vale do Zambeze, partindo a africanidade de Moçambique ao meio. E o próprio quadro geo-político da região nada tem a ver com a realidade e desejos de então. Restou, e não foi pouco, a extraordinária obra da engenharia portuguesa (só entendível por quem lá vá). A par, embora esse não deva ter sido um objectivo, de proporcionar uma vista de paisagem inigualável (sem comparação, por exemplo, com a faraónica Assuão). Ao fim e ao cabo, ali está, em Cahora Bassa, o melhor e mais perdurável da presença portuguesa em África. Para mais, com um enorme activo de futuro de desenvolvimento e rendimento, assim Moçambique saiba gerir e explorar as suas enormes potencialidades. Só posso desejar isso. Que mais não seja para que a memória do génio de engenharia dos portugueses, de que Cahora Bassa é exemplo maior, sobreleve em recordação tantas manchas de patifarias muito nossas e em que tanto nos esmerámos a mostrar engenho na arte da perfídia selvagem (por exemplo, Wiriamu e Macuti não ficam muito longe de Cahora Bassa).

 

Pelos tempos que passei em Cahora Bassa, em desempenho profissional, com os olhos para sempre cheios do extraordinário resultado do casamento da força da engenharia com a força da natureza, partilhei agora com o orgulho moçambicano na transmissão do último e grande legado da presença colonial, uma ponta de emoção serena e respeitosa. Sentindo que o sentido literal de “Cahora Bassa” (“a hora do fim do trabalho”) está finalmente cumprido. Da nossa parte. Porque agora, sem desculpas, a “hora” é dos moçambicanos. Usem-na bem, para felicidade e desenvolvimento de um dos países mais bonitos do mundo e com melhores e mais simpáticas gentes.

Publicado por João Tunes às 16:55
Link do post
Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO