Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

O GRANDE LÍDER DA ACÇÃO E DO ERRO

 

Sem se conhecer e (tentar) entender Viriato da Cruz, poeta e percursor da teoria e da organização do nacionalismo angolano de matriz marxista-leninista, homem de acção, carisma e contradição, dificilmente se entende a génese e os desenvolvimentos complexos da luta de libertação das antigas colónias portuguesas em África e as formas polifacetadas como estas ascenderam e têm percorrido os seus caminhos de soberania e independência. E, provavelmente, não haverá exemplo melhor para situar a influência geopolítica competitiva dos “campos socialistas”, durante a fase do diferendo sino-soviético, sobre a germinação da luta contra o domínio colonial português. É pela acção e pensamento de Viriato da Cruz, verdadeiro "pai fundador" do MPLA, que se estrutura o movimento africano anticolonial no espaço imperial português, em concorrência com uma outra matriz (nacionalista mas pró-americana, tribal, racista) que foi liderada por Holden Roberto, pois é ele que, vindo de “dentro” de Angola, dá sentido de organização, determinação e acção ao grupo inicial de militantes anticoloniais africanos, a maioria dos quais formados no quadro das militâncias antifascista e comunista e enquanto estudantes na metrópole imperial. Esta liderança forte e impositiva, determinante para a organicidade inicial do combate anticolonial, numa estratégia africana autónoma (emancipada do controlo, apoio e orientação do PCP), marcando a primeira geração de líderes africanos combatentes e a primeira fase dos partidos independentistas, acaba por dar lugar, por mor das enormes contradições de personalidade e do pensamento político de Viriato da Cruz, a uma trajectória verdadeiramente trágica e errática que só termina no enorme drama pessoal com que termina os seus dias em 1973 em Pequim, longe de Angola e da luta, a poucos passos no tempo da independência a que dedicara a sua vida e que, sem ele, não se pode entender nem interpretar.
 
Voluntarista ansioso, ególatra, com grande inteligência e talento, Viriato da Cruz transformou dogmas momentâneos e inclinações políticas passionais em opções pessoais e em programas políticos, demonstrando uma atracção constante e irreprimível pelo erro e pelo drama, o que, se formos a ver, não é incomum entre os pioneiros políticos. Enquanto uns quadros dispersos “pensavam” como se iria combater o colonialismo, ele deita mão à acção e cria, dentro de Angola, os primeiros movimentos de luta sem qualquer suporte nem efeito. Segue-se a fase de valor inestimável para a causa nacionalista em que ele se lhe impõe como líder organizativo e programático e leva a luta da diáspora para dentro de África. Não chegando à fase da intervenção militar consistente do MPLA (quando a UPA, depois FNLA, já actuava no terreno do interior), começa a sua sucessão de erros colossais e em crescendo: primeiro, ao subalternizar-se na direcção política por complexo da sua condição de mestiço; depois, ao colidir violentamente com Agostinho Neto; a seguir, ao juntar-se a Holden Roberto pela prioridade de combater Neto; finalmente, ao tornar-se num peão do comunismo chinês no combate aos soviéticos pela disputa de África; acabando da pior forma imaginável, quando se apercebeu da monstruosidade maoísta que alimentara, abandonado, na miséria, enclausurado pelos seus antigos camaradas chineses, morrendo no ostracismo e na decadência.
 
Se, politicamente, a figura de Viriato da Cruz tem um valor trágico de dimensão única em que um grande acerto inicial (se a Agostinho Neto se atribui o título de "pai da independência" de Angola, a Viriato da Cruz não deve faltar o de "pai da luta anticolonial e do MPLA") dá lugar a uma série de surpreendentes e clamorosos erros colossais que o transformam de um grande líder num solitário escorraçado (inclusive pelos seus mais chegados antigos companheiros e discípulos), a compreensão desta personagem marcante dá um contributo valoroso à compreensão da liderança nacionalista africana, por permitir o “estudo de caso” daquela que será a sua figura mais marcante e contraditória, ajudando a penetrar na compreensão de como o grande e populoso continente África, com um potencial que despertou muita esperança no mundo, se transformou num puzzle de mosaicos tão degradados como é o da esmagadora maioria das suas lideranças actuais, atoladas na corrupção, na cleptocracia, no despotismo, no desprezo mais vil pelos direitos humanos e pela resolução dos problemas dos povos.
 
Um livro recentemente editado e composto por peças biográficas sobre Viriato da Cruz (*) tem uma importância relevante para compreender a figura e o seu tempo, entendendo melhor Angola e África. E, no quadro da pobreza da edição documental e testemunhal sobre o nacionalismo africano, este livro, sobretudo pela seriedade intelectual dos escritos recolhidos, é de consulta inevitável. Recomendo nele, sobretudo, a leitura do texto de alto valor de investigação historiográfica contextualizada da autoria de Moisés Fernandes (**) sobre a aproximação de Viriato da Cruz ao maoísmo e o período da sua permanência e decadência em Pequim. Que, além de nos rememorar o drama deste líder africano, é também uma brilhante e ilustrativa demonstração da perfídia estrutural intrínseca dos sistemas comunistas, no caso o chinês, em que qualquer fuga à unicidade obediente é punida com requinte paranóico ao pretender anular, humana e socialmente, o "diferente", a sua família e os seus amigos (a filha de Viriato da Cruz, então com dez anos, foi submetida na escola que frequentava em Pequim à humilhação pública de ser excluída da ida colectiva ao Circo por ser "filha de um contrarevolucionário").
 
(*)“Viriato da Cruz, o homem e o mito”, coordenação de Edmundo Rocha, Francisco Soares e Moisés Fernandes, Editora Prefácio.
 

(**) Moisés Silva Fernandes é investigador da Universidade de Lisboa e Director do seu Instituto Confúcio e membro correspondente do Núcleo de Estudos Asiáticos da Universidade de Brasília.

Publicado por João Tunes às 16:37
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