
IV – O PROBLEMA CHECOSLOVACO
Apesar do compromisso prévio de que a “questão checoslovaca” não fosse sequer discutida na Conferência Internacional de 1969, muitas delegações pronunciaram-se sobre ela, uns pró-invasão e outros condenando-a. Era quase impossível evitá-lo, tanto mais que os documentos e as posições formais e oficiais definiam a completa ausência de um centro decisor no movimento comunista, advogavam a não ingerência nos assuntos internos de cada partido e a responsabilização particular por cada partido no poder de definir soberanamente o rumo das suas questões internas e nacionais. Ora, a invasão da Checoslováquia por forças militares de cinco países do Pacto de Varsóvia em 1968, substituindo a equipa que exercia o poder (no partido e no Estado) e que inclusive incluiu a prisão e tortura do principal dirigente comunista (Dubcheck), representou uma das violações mais grosseiras de todos os princípios de autonomia e não ingerência, perante um Estado independente e o Partido Comunista que o dirigia.
Gustav Husak, o novo dirigente checoslovaco imposto pelos soviéticos, tinha sido quem colocara a questão da não discussão na Conferência do “caso da Checoslováquia” numa evidente tentativa de se eximir a que a sua legitimidade fosse posta em causa. Usou, como argumento para se furtar às críticas, que se tratava de um “assunto interno” do partido checoslovaco. Argumento este verdadeiramente espantoso ao ser usado por quem se sentara há poucos meses na cadeira do poder absoluto mercê da forma mais brutal de ingerência, a operada por meios militares que fora virada contra a vontade dos comunistas da Checoslováquia. No entanto, Husak, constatando que alguns delegados não se eximiram em criticar a invasão da Checoslováquia, acabou por ser ele, na Conferência, um dos principais teorizadores do auto-limitação do princípio da “soberania socialista” aplicada a um Estado-satélite, argumentando:
“A nossa própria experiência demonstra que a palavra de ordem da soberania, desprovida de um conteúdo de classe, é uma subtil e muito eficiente arma das forças oportunistas de direita, revisionistas e antisocialistas.”
Esta intervenção de Husak (o chefe da “normalização checoslovaca” que custou a expulsão dos seus empregos a muitos milhares de antigos activistas da “Primavera de Praga” e a expulsão do PCC de meio milhão de militantes comunistas) foi apoiada com a mesma dureza cínica por outros dirigentes comunistas no poder. Em contrapartida, os acontecimentos na Checoslováquia foram denunciados resolutamente pelo romeno Ceauscescu (a Roménia recusara-se a enviar tropas para a Checoslováquia), pelo italiano Berlinguer, pelo espanhol Carrillo e pelo australiano Aarons.
Quanto a Álvaro Cunhal (o PCP fora um dos partidos que apoiara a invasão), sem se referir expressamente ao “caso checoslovaco”, teorizou sobre a “soberania limitada” dos países socialistas:
“Nenhum partido poderá jamais dizer que fez a revolução apenas com as suas próprias forças internas de um país em que triunfe a revolução proletária pois não poderão por si sós assegurar, frente ao imperialismo, a consolidação da vitória alcançada e o desenvolvimento e a defesa da sociedade socialista.”(…)”Se pela agressão do imperialismo, ou pela acção das forças contrarevolucionárias, o poder dos trabalhadores se visse ameaçado num país socialista, o dever sagrado dos restantes países socialistas e de todo o movimento operário internacional é acudir em sua defesa.”
Nota: Ler os anteriores posts desta série (1, 2, 3).