
A minha geração é vítima de um dos grandes paradoxos da geopolítica manhosa: ter sido instruída a odiar, ou no mínimo menosprezar, um país vizinho para que os regimes de ambas as ditaduras fronteiriças fossem unidos como a unha é com o dedo. Não fujo à regra nem dou como tempo perdido o perdurar do preconceito de malquistar os espanhóis e as espanholadas. Pela simples razão de ter sido compensado com generosos juros. De tanto detestar Espanha e os espanhóis, fiquei com uma enorme sede de descobrir os locais do ódio, as suas raízes e os energúmenos que lhe fizeram a história e lhe davam o proveito da existência. E como o condómino que se vai interessando cada vez mais pela descoberta da sensualidade de uma vizinha que cada vez apetece mais, entrando pé ante pé na sua intimidade, acabei nisto: apaixonado sem remédio pela vizinha a quem antes apenas se grunhiam umas boas tarde e por favor. E digo-vos: ainda a missa erótica vai a metade pois que a Espanha por e para descobrir é obra para mais que uma vida. E eu confesso, da sua mama esquerda ainda não passei no desfrute, apesar do tour de voyeur por quase todo o seu corpo. Mas se gosto de Espanha e de alguns espanhóis, e eu só sei gostar muito, não gosto nada da “Hispanidad” (não esqueço os mapas da Península que a Falange divulgava), por muito mesmo nada que isso pese à empresa literária Saramago & Pilar, SA.
O dito foi mero intróito para dizer que, pelas razões expostas mais pelo fascínio de boca aberta pelos hinos ao futebol que plantaram neste Euro, amanhã serei um espanhol frenético a torcer pela “nossa” Espanha. E pelo seu jogador que é o mais espanhol de todos, o demonstrador que não há um povo espanhol mas muitos povos espanhóis, o melhor jogador que passou por este Euro, Marcos Senna, essa Catedral melhor que a de Burgos (até porque este génio não perde um minuto a decorar o campo com enfeites góticos, antes sendo um santo calvinista na precisão pragmaticamente divina do passe), a dominar a eucaristia do meio campo, essa mãe santa de qualquer rectângulo onde se pratique o futebol moderno. E, para que dúvidas não restem, aqui fica já a bandeira hasteada, a que amanhã me vai enfeitar a mão para assistir à desfeita aos teutónicos.
Mañana por la tarde: Que Viva España! OLÉ!