Sábado, 28 de Outubro de 2006

CHAPELADA

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Permito-me a transcrição de um texto que me impressionou pela limpidez dorida da sua sinceridade. E não o digo porque o seu anunciado sentido de voto coincide com o meu (estou vacinado contra a euforia unicista do élan da vitória pela minha já longa prática acumulada de perder aos votos). Antes, pela sinceridade adulta e cidadã que esta estimada companheira da blogosfera, uma católica exaltante, demonstrou de se abrir ao entendimento do mundo e alargar a alma para além da defesa dos cristais que dão corpo à sua consciência. Teimando corajosamente em olhar a vida pelo cristal, além do cristal, não permitindo que seja ele, o cristal da crença ou convicção, a filtrar-lhe a luz do entendimento perante o mundo, as mulheres, os homens, a vida.

 

“Até há poucos meses eu defendia, rotundamente, sem reservas, o "não". E ficava de consciência tranquila. Entretanto, aprendi que, por vezes, se tem de viver com pesos na consciência.”


”Nunca fiz nenhum aborto. Também, por várias razões, nunca o irei fazer. Nunca aconselhei ou aconselharei, alguém a fazê-lo. É do foro íntimo de cada um. Há uma jovem que eu apoio no que posso, que diz que não fez um aborto por minha causa. Mas eu nunca lhe disse tal. Apenas, lhe fiz ver da responsabilidade das várias opções que tinha à frente.”

”Continuo a achar o aborto um mal. Eu, como mulher e mãe, acho que o melhor dom que Deus nos deu foi a vida. Como mulher, sinto-me feliz e realizada pela maternidade. Mas este é o meu contexto de vida. Nem todas as mulheres o podem dizer e sentir como eu. Para mim a vida, tem um valor absoluto. Mas não é para toda a gente assim. Não posso obrigá-los, não posso proporcionar-lhes as condições, para que o sintam como eu.”

”Resumindo, o meu desejo é que não fosse necessário, mulher alguma, fazer um aborto. Independentemente das razões que podem ser múltiplas. Mas porque algumas o fazem, com consciência maior ou menor do que estão a fazer. Porque o fazem por necessidade ou até por egoísmo. Não quero "atirar pedras a ninguém". Não quero ver nenhuma mulher na cadeia por causa disso. Também não quero a hipocrisia de alguns julgamentos que são mas não são. Nem a hipocrisia de que é crime, mas a gente fecha os olhos. Também não quero que quem tem dinheiro, vai a clínicas seguras e faz o "serviço limpinho", quem não tem, sujeita-se a gente sem escrúpulos e minimamente preparada.”

”Por isso, vou votar sim à pergunta do referendo. Vou fazê-lo em consciência. Sem ter a certeza, que é a coisa certa a fazer. No que sinto e sei neste momento, é a resposta possível.”

 

(Nos “comentários” lidos aqui)

 

Publicado por João Tunes às 00:09
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