Sábado, 17 de Maio de 2008

DESBLOQUEAR O BLOCO

 

 

O Bloco de Esquerda é um factor político-partidário interessante pela forma como desponta e remonta nos seus ciclos de radicalidades sazonais. É, no fundo, um paradoxo de intervenção política, sendo assinalável que, assim sendo, consiga resultados interessantes e progressivos nas pugnas eleitorais (a sua irrelevância maior é nas autárquicas em que os eleitores são mais atraídos pela confiança de proximidade que nos imponderáveis dos paradoxos).
 
Curiosamente, a radicalidade do Bloco resulta nas fases eleitorais e eleitoralistas em que consegue captar desencantos sincréticos “à esquerda”, colhendo entre os eleitores descontentes da “esquerda do PS”, os órfãos tresmalhados e remanescentes da radicalidade do PREC e os que querem respirar fora do espartilho sebáceo segregado pelo aparelho caquético do PCP. Mas logo que as votações recolhem aos balneários, o Bloco gera um novo paradoxo: mantem a sua radicalidade de contestação mas reduz-se à intervenção parlamentar. Até próximas eleições. Sem nunca conseguir traduzir socialmente, em significado e extensão, os seus scores eleitorais.
 
A forma como a esquerda portuguesa sobrevive, mantendo-se à tona da maioria das preferências eleitorais dos portugueses, comportando o paradoxo do Bloco, a social-democracia neo-liberal do PS e o estalinismo serôdio do PCP, é o melhor libelo político dirigido à direita portuguesa e a sua vergonha maior. Tanto que parte desta nossa esquerda, decidida a competir desunida, esgota grande parte das suas energias a distinguir e atacar a direita o mais perto possível e nas suas marcas, que não são poucas, entre a esquerda. Como se a direita portuguesa estivesse dentro da esquerda e não sentada nos seus interesses próprios.
 

Mal estará a esquerda se confiar, para a sua permanência hegemónica na ideologia e nas preferências eleitorais, que este jogo desconjuntado entre as suas demarcações individuais é sinal prolongado de sobrevivência e sucesso. Convém que cuide de uma pró-actividade que congregue um pólo social e político sólido. Para isso, talvez seja necessário, ainda, que o Bloco cresça mais antes de se tornar uma nova “ala esquerda” do PS, dentro ou fora deste partido (até porque o “alegrismo” está a dar as últimas e a pedir reforma urgente). Talvez seja assim. Se, entretanto, a direita não acordar.

 

Publicado por João Tunes às 22:12
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3 comentários:
De dissidentex a 17 de Maio de 2008 às 23:17
Caro J . Tunes: interessante isto, mas infelizmente para a linha de argumentação, o facto de a esquerda descrita neste post sobreviver (ter sobrevivido) terminará dentro de um ano e meio, quando se for a eleições.

Se o Bloco crescer para se tornar ana ala esquerda so PS, isso apenas gerará uma situação em que o BE fará coligações como PS,o que será a morte do BE, embora os próprios julguem que não.

Do ponto de vista político, gerará o vazio, uma vez que a extrema direita actual no PS, encarregou-se (afinal de contas era esse o trabalho principal que foi dado ao Sr Sócrates e companhia...) de partir em pedaços o PS e qualquer ideia real de esquerda na sociedade.

Em 2009, o resultado disso manifestar-se-á em abstenção a subir, aumento do voto de protesto, e surgimento de inúmeros movimentos políticos "semi normais", paralelamente ao surgimento de um perigoso vazio - uma terra de ninguém - que será ocupada pela extrema direita organizada em soldados de rua, e pelos neo liberais oficiais e extra oficiais colados à Igreja católica.

Nessa altura o PS voltará a fazer os seus passes de mágica e a apelar às dividas de gratidão eternas propondo ás pessoas uma proposta política absolutamente imbecil e irrealista: a de que votem em nós e confiem em nós porque nós não somos radicais.

Isto perante 4 anos e meio de governo PS em que a ideia de esquerda na sociedade foi completamente rebentada precisamente pelo gang que tomou de assalto este partido.

Mesmo que isto não suceda já, sucederá num futuro próximo, uma vez que o país foi tornado ingovernável por este senhor e pela pandilha que o acompanha.

E caro J. Tunes, a direita já acordou: meteu um líder no PS e vários deputados de pseudo grupos católicos ou do mesmo estilo dentro do PS, que até já propuseram votos de pesar na assembleia da República a esse grande patriota inspirador de atentados à bomba que foi um senhor de Braga conhecido por cónego Melo.

Daqui a dois meses provavelmente será apresentado por estas mesmas pessoas um voto de louvor á acção da inquisição espanhola. Pelo andar da carruagem...

Por isso não apele a "uniões frentistas" da esquerda, porque apesar das suas boas intenções, suponho eu, as coisas já passaram o ponto de não retorno nisso e o PS estilhaçou tudo o que restava da ideia de esquerda nestes 3 anos absolutamente cretinos sob todos os pontos de vista.

Esse jogo já não pode, politicamente , mais ser jogado pelo PS; embora por razões de psicologia que me escapam, no PS estejam convencidos que será possível eternamente brincar às flutuações de posição conforme se está na oposição ou no governo dizendo ás pessoas aquilo que se julga que elas querem ouvir e fazendo o contrário - sem absolutamente nenhuns resultados, sejam políticos ou outros - quando se está no governo.

A realidade dos factos é que o PS não sabe governar e pior, não sabe governar à esquerda.

Mandar a ASAE andar à solta, fazer leis do tabaco, cobrar penhoras a quem não alterou o registo do carro, e coisas semelhantes não é governar, mas sim actos administrativos simplistas.

Governar não é isso.


E quando a direita dos partidos acordar, não necessitará de fazer nada de extraordinário.
O actual PS já lhes abriu a porta onde queriam entrar e onde os interesses por detrás deles queriam entrar.
A partir daí será fácil para eles.

De João Tunes a 19 de Maio de 2008 às 17:22
Agradeço o texto contraditório, o qual se situa quase nas antípodas da minha análise. E foi mais que claro, foi claríssimo. Tanta divergência não dá é para conversarmos. Não faz mal, fica a clarificação de posições.
De dissidentex a 17 de Maio de 2008 às 23:19
Mas esqueci-me de dizer: apesar de tudo o post é interessante.

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j.tunes@sapo.pt


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