Há quem diga que parece um violão deitado no Atlântico. É uma boa imagem para uma ilha com um povo que embala a insónia das distâncias com poesia e música. Tenciono lá voltar amanhã, voando pela noite num desses pássaros de aço que por aí navegam, revendo paisagens humanas e de secas quebradas com verdes breves e que me marcaram desde quando conheci e descobri a Ilha de Santiago (embora o coração da minha nostalgia caboverdiana continue agarrado à Ilha de São Vicente) – o caos feérico da Cidade da Praia, a imponência da memória esclavagista na Cidade Velha, os novos ricos da emigração em Assomada, a imponência decorada em pedra da Serra da Malagueta, a ferida na memória do Campo de Chão Bom e uma das praias mais pequenas e mais bonitas entre as que conheço (Tarrafal). Vou lá passear os olhos, cheirar a morabeza, escutar os sons perdidos da angústia permanente de escravos abandonados e degustar o estado híbrido da eterna dúvida entre ficar e partir, o sentimento caboverdiano que eu mais partilho. Não estranhem, pois, a ausência próxima que, infelizmente, será curta.
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