Talvez a forma mais conseguida e calma de comemorar a data de amanhã seja a leitura do livro acabado de editar da autoria de Nuno Andrade sobre os acontecimentos ocorridos em 25 de Abril de 1974 dentro do Quartel do Carmo (*). O que não implica, claro está, que não se enfeitem a preceito com cravos bem vermelhos e estendam a colcha na janela, dando a mão à passagem de mais um ano em democracia.
O autor, oficial da GNR e historiador, recolheu documentos e testemunhos que nos mostram a face oculta daquele dia, contando como ele foi vivido dentro do último reduto do poder da ditadura. Mostrando-nos, surpreendentemente, como as coincidências, os acasos e os pormenores contaram tanto, decidiram tanto, como as circunstâncias, os factos e as pequenas e grandes decisões. E, neste sentido, o livro de Nuno Andrade é uma demonstração evidente da falácia da inevitabilidade histórica, mesmo em circunstâncias agudas de confluência entre factores objectivos e subjectivos a quererem impor um certo desenlace. Perante o que parecia óbvio e fatal, tudo acabou como acabou, com vencedores e vencidos nos lugares em que ficaram, porque se a ditadura estava podre e a ameaçar ruína, contou tanto como isso uma arma que encravou, uma ordem que não se cumpriu, pares de inimigos do dia que por acaso até eram amigos, uma hesitação pelo medo, mais coisas assim. Para quem viveu o Carmo de fora, lá tendo estado, de lá ouvido contar ou lido sobre os relatos do que no Largo do Carmo se passou, sempre tendo a frontaria do Quartel como muro opaco que abrigava o poder em fuga, estará longe de imaginar o que, naquelas horas compridas, a derrota se ia tecendo em permanente jogo de forças com a hipótese contrária, até que o rebentar do limite impusesse uma solução, aquela. E essa descoberta, esse saber sobre o outro lado, é o que o livro tem de mais fascinante.
Nuno Andrade, além da boa escrita, faz prova de mérito do título de historiador. Estão lá o rigor factual, a abordagem dos vários ângulos, a procura e teste de teses e pistas, a moderação no envolvimento com um dos lados das partes. Mas se o autor é historiador, também é “da casa” que continua a habitar o mesmo quartel, sendo, como é, oficial da GNR. E, neste sentido, perpassa uma certa condescendência para as atitudes e comportamentos da GNR encurralada nesse dia com a missão extrema de defender os próceres da ditadura. E, aqui, provavelmente, algum impulso de branqueamento terá ocorrido. No entanto, diga-se, sendo um dado para tomar em conta a eventualidade de alguma condescendência sobre a imagem da Guarda, que não parece haver um exagero de sentimento de pertença grupal que desmereça o essencial da obra e das suas teses. Como a de alguma atitude de passividade a caminho da neutralidade da GNR no ocaso da ditadura (de que era um dos pilares repressivos mais fortes) defendida por Nuno Andrade tem suporte em dois aspectos consistentes: o da cumplicidade tendencial entre oficiais da GNR (que, sendo do Exército, lá cumpriam missões) com os camaradas do MFA (a que acresce o culto tradicional na GNR de então para com os dois generais que estavam na retaguarda da revolução, ambos antigos oficiais prestigiados da corporação, casos de Spínola e Costa Gomes) e a clareza da fragilidade do regime e as suas poucas hipóteses de sobreviver e com os seus líderes, encurralados, a demonstrarem inépcia em se defenderem mais a ditadura com que açaimavam um povo em ânsias de mudar e respirar. Acresce ainda que Nuno Andrade, no tempero político do seu fio narrativo, demonstra um inquestionável apego aos valores democráticos, julgando a ditadura e a revolução libertadora por esse prisma e, nesse sentido, o autor não só se apresenta como sendo um oficial de uma "nova GNR" (não a que serviu a ditadura ou que procurou o regresso saudosista ao autoritarismo) e a eventual, mas ligeira, limpeza do passado da instituição, será uma forma de a represtigiar com condescendência retroactiva. O que, vindo de um oficial da GNR, num livro escrito com aprovação e incentivo institucionais, é para merecer a devida benevolência por mais ou diferente não se lhe poder pedir.
(*) – “Para além do portão, a GNR e o Carmo na Revolução de Abril”, Nuno Andrade, Edições Guerra e Paz
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