Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

RAPSÓDIA HÚNGARA (3)

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A “normalização húngara” após a revolta de 1956, é não só um dado significante como continua a marcar a política magiar dos nossos dias. Sem a entender, difícil é decifrar-se o aparente paradoxo de, no regresso pleno à democracia, o actual primeiro-ministro da Hungria ser não só dirigente do partido herdeiro do Partido Comunista Húngaro como se ter formado politicamente na liderança da Juventude Comunista.

No rescaldo da repressão soviética do levantamento de 1956, passadas as horas do trabalho dos tanques e dos carrascos, os soviéticos encararam com pragmatismo sábio a “recuperação húngara”. E, nesse trabalho, tiveram talentos destacados ao seu serviço, como foram os casos de Andropov e Suslov. Em vez de um retrocesso para a velha e irrecuperável máfia estalinista, foram à prisão buscar um comunista antes caído em desgraça e disposto a pagar com a alma o foguete da liderança (Janos Kadar). A funcionar também como uma espécie de “émulo alternativo” ao traidor Nagy e seu anterior “companheiro de desgraça”. Depois, a diáspora de centenas de milhares de húngaros em fuga através da Áustria afastou do cenário político e social muita da resistência vertebrável ao rumo do regresso ao marxismo-leninismo. Sobrava ainda o enorme sentimento de refluxo perante a possibilidade de mudança de rumo, tanto mais que o Ocidente falhara com os seus compromissos de ajuda na hora H.

Os soviéticos, escaldados, entenderam que as circunstâncias lhes eram favoráveis mas havia que não correr o risco de uma recaída. E assim, com o longo consulado de Kadar (que durou até à implosão soviética), permitiu-se à Hungria desenvolver um socialismo moderado e a meio gás, segundo os padrões das “democracias populares”. Os padrões de vida dos húngaros eram altos se comparados com os padrões do Leste, era permitida uma certa liberalidade de usos e costumes, o turismo era incentivado, desenvolveram-se nichos de desenvolvimento tecnológico (sobretudo no ramo dos medicamentos), a repressão era eficiente mas mitigada, o formalismo era contido, o Partido tinha práticas liberais nos padrões do centralismo democrático.

Na Hungria, mais e antes que em qualquer outro país de “socialismo real”, logo que aberta a janela da perestroika por Gorbatchov, a cúpula política adiantou-se no reformismo político, procedeu à deslelinização do partido e, inclusive, recuperou, como sendo seu, pela via de um revisionismo ímpio, o próprio património do levantamento de 1956 que caracterizou, logo em meados dos anos oitenta, como uma revolução (e que escandalizou então meio mundo comunista, incluindo a direcção espantada e escandalizada do PCP). Resumindo, o camaleonismo de Kadar tinha feito escola, eficiente escola. De tal sorte a antecipação húngara estava em marcha relativamente ao que se seguiria, que quando dos acontecimentos de estertor político na RDA, a Hungria funciona como meio aberto de escapadela aos alemães orientais desejosos de respirarem ar fresco. Então, a Hungria já se apresentava como uma via de se chegar à … liberdade.

Como admirar pois que o poder hoje, em democracia, continue nas mãos dos “herdeiros de Kadar” (agora convertidos ao neo-liberalismo), o mesmo Kadar que liderou a contra-contra-revolução no pós-1956? Até ver, como em tudo (e como se vai ouvindo nos noticiários).

Publicado por João Tunes às 01:45
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