Terminei a leitura de um livro que é paradigma destes tempos de desforra de um certo tipo de saudosismo da ditadura e da época colonial. Trata-se de um balanço feito pelo General Silva Cardoso sobre a mudança da ditadura para a democracia ocorrida em Portugal vai para 34 anos atrás (*).
Curiosamente, o autor deste livro sucedeu a Rosa Coutinho como Alto Comissário em Angola e ainda em pleno período revolucionário até Agosto de 1975 naquela antiga colónia (tendo antes, sido, sob presidência de Rosa Coutinho, membro da Junta Governativa de Angola, portanto colaborador e co-decisor das medidas que este tomou). Pelos cargos desempenhados, obviamente que o militar em questão merecia a confiança política mínima dos militares revolucionários como ele mesmo, embora se situasse num quadrante político mais direitista, tinha necessariamente, perante as mudanças em Portugal e quanto ao processo de descolonização, uma atitude colaboracionista ou, pelo menos, condescendente, mesmo que eventualmente crítica quanto a alguns aspectos. Posteriormente aos seus cargos em Angola, Silva Cardoso foi comandante militar nos Açores, director do Instituto dos Altos Estudos da Força Aérea e Presidente do Supremo Tribunal Militar (tendo, nesta função, sido o responsável pela recusa de uma pensão, por mérito do marido no restabelecimento da democracia, à viúva de Salgueiro Maia, como contribuiu ainda para a não atribuição do título de Marechal a Humberto Delgado quando tal foi proposto). Pois, apesar desta nunca interrompida carreira, Silva Cardoso escreve sobre a ditadura e a revolução como se tivesse sempre sido e continue a ser um legionário dos sete costados. Não só branqueia em absoluto os tempos da ditadura como qualifica o 25 de Abril como “revolução da perfídia”, insulta todos os militares de Abril (fazendo, para cada um, um retrato de velhacos, cobardes e vendidos), inventa patranhas infantis (como a de Cunhal ter preparado e trazido num avião 300 russos especialmente treinados para tomarem conta do aparelho do PCP e que teriam sido estes a montar as organizações locais deste partido), afirma que a guerra colonial estava ganha em todas as frentes e reserva o seu principal ódio de estimação para Mário Soares (**).
Como livro de ódios que é, este vale o pouco que vale. E, intelectualmente, não abona quanto aos primores histórico-culturais do general agora reformado. E a menos que António Barreto, tomando o gosto após albergar calúnia sobre Rosa Coutinho, decida credibilizar as suas atoardas biliosas, o livro não irá além de alimento das crendices ideológicas dos ressentidos com a democracia e o fim do império. Mas, além disso, a obra não deixa de ser significante quanto à emergência de um revisionismo assanhado, agora em voga, quando parecia termos atingido um patamar de consistência do viver democrático, em que afloram as questões não resolvidas com o fim da ditadura e do colonialismo. E, neste capítulo, muitos militares olhando as velhas fardas que começaram a vestir como profissionais de uma Forças Armadas ao serviço do fascismo e do colonialismo, aí estão a mostrar o esplendor das suas frustrações e vontade de corrigirem a memória, como suprema desforra para com a história. Incluindo aqueles que, nos tempos que fizeram e seguiram Abril, declaradamente ou pela calada, tenham baixado as espadas perante o MFA ou colocando-as mesmo ao seu serviço.
(*) – “25 de Abril de
(**) – Silva Cardoso demonstra, curiosamente, menos estima por Soares que aquela que não tem para com Cunhal, referindo-se assim a ambos: “Se fosse Deus punha os dois no inferno, mas para Soares guardava a fornalha mais quente” (pg 198).
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Adenda: Julgo que o Zé Albergaria tem razão e eu, como outros mais, temos andado a cometer um erro de designação: Rosa Coutinho não foi Alto Comissário em Angola mas sim presidente da Junta Governativa (de que Silva Cardoso e outro militar faziam parte). É quando Rosa Coutinho é substituído por Silva Cardoso que este inaugura aquele cargo criado nos Acordos de Alvor em 1975. Agradeço o reparo.
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