Terça-feira, 24 de Outubro de 2006

RAPSÓDIA HÚNGARA (1)

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As personalidades históricas não devem ser extraídas do seu tempo e do seu papel e interesses nas circunstâncias em que intervieram e os condicionaram. Mas confirma-se que a tendência para a mitificação é irresistível, sobretudo se a personagem acabou mal e injustiçada. O martírio de Imre Nagy, empapado entre o muito sangue que correu na Hungria em 1956, acalenta o seu enaltecimento póstumo a ponto de, em tempo de efeméride, ser classificado, como já li algures, “um dos políticos que ousou lutar contra a imposição soviética no seu país, pela Liberdade dos magiares”.

Nagy, que cavalgou na crista da onda contra-revolucionária de 1956, assumindo o papel que lhe foi atribuído, por empurrão, de rosto da revolta, não foi menos que um quadro treinado pelo estalinismo para integrar a nomenklatura do “socialismo húngaro” após a ocupação da Hungria pelo Exército Vermelho no final da II Guerra Mundial. E, nesse papel, teve lugar destacado como ministro da Justiça (!), em que se esmerou nas purgas de “purificação estalinista”, e depois como responsável pelos assuntos agrícolas. É após a morte de Stalin (1953), que Nagy entra em dissonância com o rumo da colectivização agrícola e que o leva ao saneamento pelos seus pares. A utilização de Nagy como “rosto” do levantamento húngaro de 1956 foi uma mera circunstância de oportunidade – convinha aos chefes revoltosos, nada comunistas nem sequer parecidos, amigos da Liberdade talvez ainda menos, utilizar um “desalinhado” das hostes, mas nas hostes, para servir de trunfo de dissolução do poder instalado e tutelado. Tivesse a contra-revolução húngara triunfado e logo se veria rápido como Nagy seria engolido pelos novos ventos. Assim, caindo martirizado com a derrota, passou à história como democrata corajoso e combatente pela liberdade, quando a democracia e a liberdade eram objectivos bem arredados dos projectos e interesses dos que alimentaram a fornalha da revolta. E, quase certo, igualmente longe dos valores de Nagy.

Aliás, o posterior caso de Dubcheck funciona como espelho de semelhança para a apreciação de Nagy e do seu papel e destino provável no caso de não ter sido liquidado. Também este foi, durante décadas, apontado e celebrado como um reformador sincero e empenhado em levar a Checoslováquia em 1968 para a democracia e o socialismo de rosto humano. Mas quando da muito posterior “Revolução de Veludo”, a estrela de Dubcheck brilhou durante muito pouco tempo, pois rapidamente os checos e os eslovacos perceberam que, na via democrática, Dubcheck tinha mais de passado do socialismo real que de consolidação democrática a oferecer a um povo finalmente liberto dos jogos de sombras. E, entretanto, Vaclav Havel não tinha “rabos de palha”.

Publicado por João Tunes às 01:41
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