Fonte absolutamente segura acaba de me enviar carta descoberta nuns arquivos secretos enterrados numa antiga Unidade Colectiva de Produção do Alentejo. Trata-se de uma carta com aspecto de ser verdadeira dirigida por António Barreto a Mário Soares exactamente na véspera do 25 de Abril. Dado o seu grande interesse histórico, transcrevemo-la com todo o gosto, apelando à sua máxima difusão para que a história da Revolução seja contada com verdade e seriedade.
Querido Camarada Mário Soares,
Como te lembrarás, querido camarada, nas nossas reuniões secretas que tivemos com o camarada Duarte, tu vindo de São Tomé e eu de Genebra, num dos palácios que o nosso amado líder tem em Karlovy-Vary, essa bela estância balnear na Checoslováquia, onde tão bem fomos tratados e em boas farras nos divertimos (melhores as regadas a Pilsen que as de água carbónica com gosto a sabão que disseram serem óptimas para nos curarem o estômago dos excessos gástricos), ficou perfeitamente definida a estratégia secreta que Brejnev, em reunião do Politburo do PCUS, definiu para quando nós os três, os portugueses mais revolucionários, na crista do levantamento popular, com ou sem apoio militar, fizermos a revolução e tomarmos o poder.
Lembras-te decerto, querido camarada, que foi então combinado que eu devo, em data a combinar, aderir ao PS, a organização que tu criaste para servir de capa de fingimento oposicionista ao verdadeiro partido revolucionário, o PCP, e, uma vez ou outra, fazer o papel de adversário do camarada Duarte, na estratégia também secreta em que tu e os outros camaradas da direcção darão mais nas vistas. Nos tempos mais conturbados de conflitos entre as massas populares, uns pela revolução e outros pela contra-revolução, e caso o refluxo se avolume e a reacção decidir aguçar os dentes, tu, querido camarada, deves-me nomear ministro da Agricultura, para, em união de facto com o PCP, liderar um simulacro de ataque à Reforma Agrária, cumprindo um plano que é simultaneamente secreto e simples: eu mando a GNR ocupar as herdades colectivas e entregá-las aos antigos latifundiários, fazendo sempre antes, e caso a caso, dois telefonemas de aviso, um para a CAP e outro para o PCP. Assim, quando se der uma ocupação, encontram-se os soldados da GNR, os latifundiários e a célula local do PCP. Presumindo-se que todos irão armados para as ditas ocupações, teremos os mortos e os feridos que necessitamos para acelerar a revolução e justificar o célebre e secreto “plano x” que prevê a passagem à fase do terror vermelho no Alentejo e que, via Beiras Baixa e Alta, há-de levar à conquista do Norte reaccionário.
Sabendo das dificuldades de memória de que padeces, querido camarada, achei oportuno mandar-te este lembrete do nosso plano, que vai por carta em correio registado com aviso de recepção, não vão as massas populares resolverem de um momento para o outro libertarem-nos do fascismo e tu esqueceres-te da tua missão de me nomeares ministro da Agricultura quando a revolução tiver de ser levada às suas últimas consequências. Como sabes, revolução sem terror, com muitos mortos e estropiados, é, politicamente falando e como Lenine nos ensinou, uma espécie de coito interrompido. E nós, se somos revolucionários também somos muito homens e não fraquejamos no momento do orgasmo.
Viva a violência revolucionária!
Fogo na Reacção!
Genebra, 24 de Abril de 1974
O teu camarada sempre ao dispor para qualquer revolução
(assinatura com aspecto de ser legível)
António Barreto
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