Segunda-feira, 23 de Outubro de 2006

PORQUE SE COMBATEU NA HUNGRIA, 1956

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Há muito esquematismo redutor nas apreciações das raízes, amplitude e significado dos acontecimentos na Hungria (sobretudo concentrados em Budapeste) em 1956 e cuja efeméride hoje se celebra. Porque o que ali se passou (e ali se sofreu) teve muito pouco de levantamento popular democrático contra uma ditadura estalinista e a sua repressão pelo Exército Vermelho. E sendo assim apresentado, sem grande fundamento, como o ajuste de contas que ensanguentou a Hungria e provocou uma diáspora de centenas de milhares de cidadãos, outros mais concretos ocorreram e que explicam a violência com que o levantamento se processou e a brutalidade hedionda da repressão. Aliás, julgo que a violência sangrenta manifestada pelas duas partes da contenda se explica sobretudo porque teriam havido muito poucos democratas e ainda menos desejos de liberdade do lado do levantamento e do lado da sua repressão. Os fanatismos combatentes foram de natureza bem diferente.

 

A Hungria havia saído há pouco da II Guerra Mundial, onde alinhou com o Eixo nazi-fascista e por ele combatera, e de uma ditadura clerical e proto-fascista (dirigida pelo Almirante Horthy) que durara de 1920 a 1944. Os sentimentos católico-clericais, conservadores, chauvinistas e tradicionalistas-monárquicos (remanescentes dos tempos da bi-coroa do Império Austro-Húngaro), eram fortíssimos e propagados ao longo de uma ditadura de 24 anos. O anticomunismo também e alimentado com força a partir da experiência falhada e sangrenta da experiência malograda de 1921 na curtíssima duração da ditadura soviética dirigida pelo brutal Bela Kun (revolucionário húngaro, elemento preponderante do Komintern, um dos fuzilados às ordens de Stalin). A cultura magiar é uma cultura minoritária e excêntrica em termos europeus (parecido com a cultura basca), assumindo, para alimentar a sobrevivência, um cunho elitista que continha uma componente de distanciação resistente quer perante a forte minoria interna cigana quer perante os eslavos ortodoxos e em que os laços com a Europa assentavam sobretudo na protecção do Vaticano e na histórica amizade de interesses com a Áustria (igualmente católica). Os limites territoriais eram apertados para a manutenção da identidade e do projecto magiares e daí o conceito de “Grande Hungria” que engloba territórios fortemente povoados pelos húngaros (depois da guerra e até ao momento, integrados na Roménia e na Eslováquia). Não surpreende, tendo em conta para mais a natureza da ditadura de Horthy, que os militares húngaros tenham combatido persistentemente e com afinco ao lado da Alemanha Nazi e participado massivamente na Frente Leste quando da invasão da União Soviética. Como não admira que quando o Exército Vermelho, na contra-ofensiva, invadiu e “limpou” a Hungria, na sua caminhada de ferro e fogo até Berlim, tenha imposto o seu domínio a pontapé num país com poucos admiradores e muitos rancores.

 

A implantação de uma “democracia popular” na Hungria foi pois, acima de tudo, um acto de “reparação de guerra”, castigando o povo húngaro pelo seu passado, pelas suas ambições e pelas suas opções, além da paga pelos crimes de guerra cometidos durante a invasão e ocupação de territórios soviéticos. Num clima de ocupação e de ordem militar e política, onde se enxertou uma “libertação redentora” pela passagem do reaccionarismo mais retrógrado à sublimação das gestas da vanguarda da classe operária. Num meio social, cultural e político hostil, a “pax soviética” foi imposta recorrendo aos comunistas locais (antes refugiados na União Soviética e apurados e depurados por Stalin) em que a sua dissonância para com os sentimentos dominantes no seu povo eram um incentivo à prática das maiores das brutalidades. E para agradarem a um Stalin no ocaso da vida e do mando, através da liderança sangrenta do seu “macaco de imitação húngaro” (Rakosi), copiaram, com zelo, tudo quanto era patifaria soviética, nomeadamente prendendo e assassinando os quadros comunistas com propensões mais moderadas na imposição da “vingança soviética” sobre a Hungria.

 

A morte de Stalin e a ascensão da “troika” em que sobraria Krutchov, não só isolou, deixando-o pendurado, o mando comunista-estalinista húngaro, como foi considerado um bom pretexto para um novo ajuste de contas, agora de sentido inverso. Contava então a contra-revolução, como factores favoráveis: o Vaticano (que não faltou à chamada); a proximidade com a Áustria (que havia escapado, por um fio, à imposição da “democracia popular”); as fragilidades e inibições do “novo poder soviético” pós-Stalin; a forma incipiente como as “democracias populares” se estavam a consolidar na Europa do Leste; o apoio na acção anticomunista por parte dos Estados Unidos e do resto do Ocidente. Com um apoio de massas impressionante, motivado pelo revanchismo mais decidido e brutal, abrindo brechas entre os desorientados comunistas húngaros, retomando a bandeira nacionalista e imperial, foi a hora da orgia da “vingança anticomunista” e na provocação mais frontal à capacidade de reacção dos soviéticos (de que foi peça chave a declaração do abandono da Hungria do Pacto de Varsóvia).

 

A resposta soviética é bem sabida e a mais recordada nesta efeméride. Krutchov, percebendo que perdendo a Hungria perdia o império num inevitável “efeito dominó”, mandou os tanques do Exército Vermelho repetirem as façanhas do fim da II Guerra. Ou seja, varrerem os húngaros a ferro e fogo. Numa sangrenta contra-contra-revolução. Com Nasser, no longínquo Egipto, a oferecer-lhes uma aliança decisiva, indirecta e inesperada. A nacionalização do Canal do Suez provocou uma fractura ocidental mortal para os contra-revolucionários húngaros – colocou Estados Unidos e União Soviética de um lado, Inglaterra e França do outro. Impossibilitando que o Ocidente tirasse as castanhas do lume húngaro que tinham ajudado a pôr a assar. Sobrou das labaredas húngaras, onde arderam milhares de vidas de um e outro lado do confronto, o apoio do Vaticano (que teve, mais tarde, a sua desforra vitoriosa na Polónia), o abrigo austríaco para uma nova diáspora, a retoma da “normalização” pelo “socialismo húngaro” e a ferida aberta na unidade do movimento comunista internacional pela introdução de um factor perturbador insanável e eterno (a desconfiança perante a brutalidade da “pax soviética”) que teria réplicas ainda mais fortes em 1968 na Checoslováquia e em 1980 na Polónia.

 

A liberdade e a democracia, valores que pouco ou nada contaram de um lado e do outro das barricadas em 1956, tiveram de esperar, na Hungria e no resto do Leste, por 1989, o ano da Grande Implosão. O ano em que se demonstrou que, afinal, Gorbatchov não era (por já não poder ser) Brejnev ou Krutchov.

Publicado por João Tunes às 16:01
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