Quinta-feira, 19 de Outubro de 2006

GRANDE LIVRINHO

000gkf1e

Não há conchas nacionais. O tempo de um povo se enfiar no beco do “orgulhosamente só” já se foi (se é que alguma vez existiu). Não existimos sem os outros. Muito menos sem termos em conta os vizinhos. E não entender o nosso vizinho é galgar três quartos do caminho para definharmos no resmungo solitário do condómino acometido de esquizofrenia ressentida. Em sorte ou azar, geográfica e historicamente, calhou-nos ter um único vizinho com quem habitamos este duplex peninsular. Entender Espanha é, pois, um fatalidade civilizacional e de sobrevivência. Porque sem a entender, não conseguimos nem irmanar num destino que se queira comum nem dar-lhes o necessário safanão quando nos quer meter no bolso. E entender Espanha, para os portugueses, exige esforço, muito esforço, tantos e tamanhos são os clichés acumulados (muitos deles incentivados por quem lhes foi conveniente a vizinhança rancorosa). E o inverso, sem dúvida, é igualmente vero.

 

Não é possível entender Espanha sem lhe ser capaz de ler, nas brasas da memória, o significado do rastro deixado pela sua terrível Guerra Civil no Século XX (Julho 1936/ Abril 1939), talvez o maior drama europeu quanto a rupturas culturais, ideológicas e políticas levadas ao cúmulo do mata-ou-morre. Acresce que conhecer e ter uma ideia global de síntese sobre a guerra civil em Espanha está longe de ser uma tarefa fácil. Primeiro, porque os próprios espanhóis ainda conservam dificuldades de lidar com um espaço de memória que bebe numa realidade que perdurou até 1975 e uma das principais forças políticas de hoje é herdeira do franquismo democratizado. Depois, pela riqueza multifacetada e policromática do drama espanhol, em que a morte, a crueldade e a propaganda atingiram os píncaros, suscita uma curiosidade historiográfica que no conflito encontra manancial inesgotável, de que resultou a extensa bibliografia publicada em Espanha e em todo o mundo, a maioria de enfoque parcelar, episódico, com elevada carga polémica devido a que, pela carga política do drama, ele seja pouco propício à distanciação histórica e à serenidade da síntese. Para os portugueses, o quadro é particularmente pungente – junta-se a escassa difusão bibliográfica (a fazer figura de pigmeu se comparada, por exemplo, com o velho e prolixo interesse dos historiadores ingleses) e o facto de estar em causa a cumplicidades e ódios peninsulares que tiveram um importante papel no desencadear, desenrolar e desfecho da guerra. E as persistentes preguiças culturais das nossas esquerdas e das nossas direitas, ajudam a estragar o resto.

 

Por acaso editorial feliz e mais que oportuno, um pequeno livro lançado discretamente pelas “Edições Tinta da China” (*) traz-nos a possibilidade de se ter à mão nos escaparates um livro essencial, sintético e inovador sobre a guerra civil de Espanha da autoria de Helen Graham, Professora do Departamento de História da Universidade de Londres (na foto de topo). Livro de síntese, na medida em que não se perde nos meandros guerreiros e nos episódios. Livro de análise concentrada porque revela o uso de moderna metodologia de abordagem em que o choque dos conflitos e fracturas culturais é o principal filtro da análise. Livro oportuno entre nós, recuperando da míngua acumulada, porque editado em 2005 na original versão inglesa, traduzido este ano em Espanha, chegou até nós, numa boa tradução para português, logo em meados deste ano.  

 

Um pequeno grande livro. E um contributo a entender a alma (as almas!), nos seus desvarios, contradições e paixões, do grande vizinho que nos calhou em sorte e nos separa geográfica, cultural e politicamente do resto da Europa.

 

[Recomendo vivamente a leitura do excelente post em que Rui Bebiano comenta o livro]

 

(*) – “Breve História da Guerra Civil de Espanha”, Helen Graham, Edições Tinta da China.

000gp493

Publicado por João Tunes às 23:49
Link do post | Comentar

j.tunes@sapo.pt


. 4 seguidores

Pesquisar neste blog

Maio 2015

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

Posts recentes

Nas cavernas da arqueolog...

O eterno Rossellini.

Um esforço desamparado

Pelas entranhas pútridas ...

O hino

Sartre & Beauvoir, Beauvo...

Os últimos anos de Sartre...

Muito talento em obra pós...

Feminismo e livros

Viajando pela agonia do c...

Arquivos

Maio 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Junho 2013

Março 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Junho 2012

Maio 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Agosto 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Abril 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Links:

blogs SAPO