Na crise do regime político republicano que abriu espaço ao golpe de 1926 que instalou uma ditadura militar a que sucedeu o longo mando fascista-clerical de Salazar, a maior fraude por falsificação desempenhou um papel chave. O falsário compulsivo Alves Reis, dirigindo uma quadrilha internacional, conseguiu com sucesso, em 1925, colocar em circulação uma soma considerável em notas falsificadas (mas “verdadeiras” quanto ao seu fabrico), idênticas à da imagem, e com os seus proventos, além da vida faustosa proporcionada aos membros da quadrilha, abrir um banco que se destinava a suportar o domínio sobre a economia colonial angolana e a posse do Banco de Portugal. O valor da fraude calculada para valores actuais, medida pela mesma percentagem do PIB, corresponderia hoje a aproximadamente 1.750 milhões de euros.
Alves Reis recorreu à forma mais imediata de acumular uma enorme fortuna, fabricando moeda que é a forma mais directa de se obter mais valia. Se a fraude não conseguiu passar impune, o resultado mais sonante da vigarice foi precipitar a queda do regime e a interrupção da democracia portuguesa em quase meio século. Aliás, o seu opositor mais forte, aquele que mais fez para levar Alves Reis à prisão, porque o poderio emergente do falsário colidia com os interesses coloniais do seu opositor, foi precisamente o empresário e financeiro que maior protecção empresarial iria obter do salazarismo, construindo o “império CUF”, o empresário Alfredo da Silva.
Para além dos aspectos romanescos dos talentos vários do aventureiro falsário, iniciando a via da vigarice ao começar a sua vida profissional em Angola como “falso engenheiro” (ele que nem sequer dominava a língua inglesa, falsificou e utilizou um diploma de engenheiro por uma escola técnica de Oxford que não existia) e continuando na senda da trafulhice nos negócios mesmo após ter cumprido a pena de prisão que lhe foi aplicada pela falsificação das notas de quinhentos escudos, a possibilidade de consistência e mobilidade no meio económico e financeiro das aldrabices contínuas de Alves Reis são uma peça importante na compreensão da época quanto ao ambiente político, o estado das finanças públicas e as formas correntes de se acumular capital e fazerem-se grandes fortunas. E, assim, muito pode ajudar a entender o ambiente de crise política da década de vinte do século passado e perceber o 28 de Maio que se seguiu, bem como a aceitação que o golpe teve. Merecia, por isso, um estudo sério e enquadrado na época histórica.
E se Alves Reis merece um historiador disponível e interessado, mas tardando o que se motive pelo tema, vamos tendo os que, sobre o maior falsário português, telenovelam (caso de Moita Flores) e um jurista-comentador (Fernando Teixeira da Mota), que recentemente lançou um livro biográfico sobre Alves Reis (*) mas que, infelizmente, se perde extasiado nos aspectos romanescos e sentimentais e pouco domínio demonstra em capacidade de traçar o contexto histórico dos acontecimentos (vá lá que um anexo do livro, da autoria do professor de economia Manuel Mira Godinho, apresenta um enquadramento resumido do impacto económico-financeiro da fraude).
(*) – “Alves Reis, uma história portuguesa”, Francisco Teixeira da Mota, Edições Oficina do Livro
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