Quarta-feira, 19 de Março de 2008

A UTILIDADE DE UM LIVRO IRRITANTE

         

 

Resisti mas acabei por comprar e ler o último livro de Felícia Cabrita (*). Confirmei as piores das expectativas que fundamentaram a minha resistência inicial a digerir aquele montinho de papel. É uma rapsódia de factos dramáticos em que não se descortina outro nexo entre episódios que não seja o do sangue e lágrimas. Porque se outro existe, e talvez haja, valha-nos deus, então trata-se de uma espécie de profecia supersticiosa de que na África que deixámos, e onde cometemos as mais hediondas patifarias, deixámos genes de continuidade suficiente para eles, africanos e já sem nós, continuarem a herança vampiresco-colonial e agora irem-se matando uns aos outros. Como se tal salada não fosse já por si suficientemente ruim na concepção, Felícia Cabrita não consegue conter as exuberâncias narcisistas de repórter para toda a obra e feitos heróicos em mistura caudalosa com constantes âncoras mesquinhas da intriga sobre os meandros do jornalismo onde se enroscou e terá sido uma constante vítima. O que não faz sentido nenhum como fio de ligação entre episódios e, pior ainda, revela uma desproporcionada medição de dramas, os seus no intriguismo do jornalismo português e as tragédias que pesquisou e relata.

 

Dito o que escrevi sobre os meus desagrados, registe-se que os méritos de repórter-investigadora de Felícia Cabrita não só existem como estão bem comprovados neste livro. Havendo até excelentes trabalhos de levantamento e relato, como são os capítulos dedicados a São Tomé (talvez o massacre colonial mais tresloucado antes do início da guerra colonial) e ao massacre dos quatro oficiais portugueses na Guiné em 1970. Em ambos os casos, trata-se dos melhores levantamentos feitos sobre estes enormes dramas que ensanguentaram a nossa passagem por África, num caso como genocidas e noutro como vítimas de ingenuidade triunfalista. Se estes méritos não salvam o livro, não lhe compensando as nódoas da conexão percebida e do intriguismo exposto, quase o conseguem, permitindo, mesmo assim, uma leitura útil, embora irritada.

 

(*)“Massacres em África”, Felícia Cabrita, Editora “A esfera dos livros”.

 

Publicado por João Tunes às 17:47
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