Sábado, 23 de Fevereiro de 2008

O INTERNACIONALISMO SINDICAL PORTUGUÊS, PIOR DO MESMO

 

Por razões que se compreendem, os laços internacionais da CGTP-IN são os mais opacos e os que menos curiosidade pública despertam entre o conjunto da actividade desta central sindical. Mas são, a par da organização e calendarização de acções de rua, os que melhor reflectem o controlo apertado que o PCP exerce sobre a actividade da CGTP. Porque, em termos de política internacional, não há preocupação de disfarce “unitário” e a CGTP limita-se a copiar as posições do PCP, numa versão sem matizes do “internacionalismo proletário” concebido pelo marxismo-leninismo de cordel elaborado na Soeiro Pereira Gomes de que, semanalmente, o “Avante” é um exemplar repositório grotesco.

 

O último congresso da CGTP confirmou que, em termos internacionalistas, ali a mudança é sempre para pior, para o inconcebível. Lendo-se a “Moção sobre Paz e Solidariedade Internacional” aprovada e o discurso da nova responsável pelas relações internacionais da CGTP (a estalinista serôdia próxima de Jerónimo, Graciete Cruz, que substitui agora o “reformado antecipadamente” Florival Lança), os traços do posicionamento internacional da CGTP são um decalque da orientação geo-estratégica do PCP. Se em Cuba, os sindicatos há muito se transformaram em órgãos burocráticos de apoio ao regime ditatorial, sendo parte constituinte dos aparelhos partidário e de Estado e visam exclusivamente impor metas de produção aos trabalhadores, estando aprisionados todos os sindicalistas independentes cubanos, a CGTP, em vez de exigir o respeito pela actividade sindical independente e reivindicativa, a melhoria das condições paupérrimas da maioria dos trabalhadores e a libertação dos sindicalistas presos, a “solidariedade com Cuba”, entendida como apoio incondicional ao regime castrista, é o que a CGTP tem a dizer sobre a realidade laboral cubana. Se a China é hoje um expoente máximo da exploração dos trabalhadores e da liquidação de vestígios de acção sindical, a CGTP cala-se porque consente. Se duas das três organizações sindicais mundiais evoluíram para uma nova e fundida organização internacional, a CSI (Confederação Sindical Internacional), como forma de responder sindicalmente aos desafios da globalização, mas porque ficou de fora do projecto a moribunda FSM, antes controlada por soviéticos, a CGTP recusa-se a concretizar a sua adesão (quando, antes, participou na preparação da sua criação), desperdiçando a oportunidade de uma concertação necessária dos trabalhadores num mundo empresarial em que a localização e a deslocalização são a rotina capitalista globalizada. Entretanto, a União Europeia não só é recusada como é tratada nos mesmos moldes de nojo e insulto com que é vista no PCP. E ainda sobra solidariedade para com os bombistas do Iraque e os tallibans do Afeganistão nas suas lutas “anti-imperialistas”. E para a Palestina, admitindo-se assim que a gente do Hamas é olhada com simpatia na Victor Cordon. E nem uma linha, uma palavra sequer, que perspective a integração factível, porque realista e responsável, de novas formas de solidariedade sindical internacional entre trabalhadores para responderem aos desafios da transformação social e empresarial que o mundo, a cada minuto, coloca como repto aos sindicatos capazes, ou incapazes, de darem corpo a um novo sindicalismo. Porque, na colagem da CGTP ao PCP, os trabalhadores são pretexto e o Partido é a meta para que trabalha a "alavanca", mandando quem manda e obedecendo quem foi ensinado a obedecer.      

 

Publicado por João Tunes às 22:11
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1 comentário:
De Francisco António a 24 de Fevereiro de 2008
Uma análise lúcida sobre o que é a CGTP.
Esta Central Sindical defende posições internacionais verdadeiramente criminosas para os interesses não só dos trabalhadores coreanos, chineses, cubanos, como também tem consequências gravosas nos trabalhadores portugueses.

Ao apoiarem, por exemplo, o regime comunista chinês sabem que defendem, hoje, como no passado, o sistema que mais contribuiu e contribui para o ataque desenfreado aos Direitos dos Trabalhadores Europeus. Na China há trabalho escravo com consequências mundiais no emprego com Direitos, em Portugal, a CGTP condena e bem os contratos precários, acusa inclusive o Governo, se bem que demagogicamente, de atentar contra a Liberdade Sindical, e nem uma palavra sobre a China e o seu trabalho sem direitos.

Nem uma palavra sobre dezenas de sindicalistas não afectos ao regime presos em Cuba, nem uma palavra sobre o regime "democrático" da monarquia comunista da Coreia do Norte, agora acompanhado por Cuba em que o Ditador dá o lugar ao irmão.
Quem não defende a Liberdade lá fora, não a pode defender cá dentro, daí a reforma antecipada de alguns desavindos que lá fora seriam, talvez, tratados como a imagem descreve...

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