Segunda-feira, 16 de Outubro de 2006

PILOTO DAS NAUS NAUFRAGADAS (1)

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Ainda sobra muito fogo de paixão a aquecer o tema. E os enlaces contraditórios e incompletos das vivências, ainda demasiadamente ideologizados, toldam grande parte da memória. Assim, a história da colonização e da descolonização, terá de esperar mais pela distância que repouse a poeira da emotividade. Mas, pelas leis das vidas, há, no mínimo, que não perder os testemunhos e os depoimentos dos seus actores, os principais e os secundários. Mesmo que a síntese (as sínteses), assim como os julgamentos históricos, fiquem para depois.

 

Almeida Santos foi uma figura chave no processo da descolonização portuguesa. Sobre a sua figura e o seu papel, acumularam-se muitos clichés de ressentimento, redundando muitas vezes na mentira, na infâmia e na calúnia. A par de Mário Soares e outros, foi fixado no papel de “bode expiatório” dos males, dramas e erros que afectaram a diáspora africanista. E não só, pois acumulou muito juízo severo dos que defenderam, então, uma descolonização mais rápida e mais em força. Raramente se lhe assinala o seu papel moderador de excessos, a sua dedicação ciclópica a tentar equilibrar o “regresso das naus”. Para a história, e na nossa poucos dramas tiveram a amplitude da descolonização (e do colonialismo), era imprescindível o testemunho fundamentado deste actor importante no processo. A recente publicação das suas memórias de descolonizador (*) é, a todos os títulos, um testemunho fundamental para que a história seja feita com atino dos factos e da complexidade do processo. Desempenha também o papel justo e necessário do exercício do seu direito de “legítima defesa” perante tanto acumular de insultos, deformações e mentiras. E sabe-se que a lama, mais que os feitos e os acertos, colam-se bem demais às imagens das pessoas e resistem à lavagem das nódoas da calúnia.

 

Para além dos contributos factuais, numerosos e circunstanciados, com que contribuem os dois volumes do livro de Almeida Santos, eles, porque foram escritos com enorme e corajosa frontalidade, revelam que esta personagem fulcral do processo de descolonização, nunca tendo beneficiado de uma projecção mediática à altura da sua estatura, o que em muito se deveu a ser avesso a ribaltas de protagonismo e à sua maneira de ser mais reflexiva e ponderada que exaltante e exaltado, é em si mesmo um excelente exemplo dos tempos contraditórios entre as personalidades e das personalidades que reconstruíram a democracia portuguesa. Que, imperativamente, tinha de liquidar um império colonial inviável e insuportável.

 

Almeida Santos era, em si mesmo e antes da revolução, uma figura contraditória. De pensamento e acção anticolonial e antifascista, no campo do reformismo moderado, era parte integrante da burguesia colonial moçambicana e perfilhou publicamente teses federalistas que não se distinguiam, na essência, daquilo que Marcelo Caetano em tempos defendera. Avesso à brutalidade colonial e à loucura da teimosia integracionista, não era, nem de longe, um pró-frelimista. Como nunca foi um revolucionário, antes sendo dado às formulações e soluções legalistas e que alicerçava na sua longa e bem sucedida prática da advocacia. E a sua chamada aos governos revolucionários (ditos provisórios) para a pasta da descolonização terá tido a ver com as ilusões spinolistas e outras de que havia uma saída federalista para o drama colonial. Foi a dinâmica da história, da revolução, das pressões e das contrapressões, que gerou um caudal em que Almeida Santos, procurando minimizar os excessos maiores, esteve sempre em contra maré. Tendo-se adaptado aos tempos e aos ventos dominantes, foi, face a um e outro lado dos radicalismos, um moderador em desespero de causa. Ou, se se preferir, um legislador do contraditório e insanável, inventando as sínteses possíveis no limite do impossível. Como ministro da nau revolucionária, foi mais homem das máquinas a evitar gripagens que piloto ou timoneiro. E julgo que só à distância é que a figura de Almeida Santos se agiganta por ter representado o papel mais difícil numa revolução (e logo com a pasta do “regresso das naus”) – o da lucidez dos equilíbrios, a arte mais refinada e difícil em tempos de tumulto revolucionário.

 

Quanto ao conteúdo dos dois volumes, pese embora perpassar uma visão muito pessoal sobre a revolução e a descolonização, discutível enquanto tal, todos os vários casos de descolonização estão suportados em factos (muitos deles, inéditos do grande público alheio à grande política) abundantemente documentados e que constitui um acervo de fonte histórica fundamental. Para quando chegar a hora dos historiadores pegarem, com método e distância, no assunto. Para além da riqueza dos factos, vividos por dentro, o aspecto mais impressivo do livro é a lucidez nunca perdida de que nada se entenderá sobre a descolonização sem se olhar para o colonialismo português e o crime da sua teimosia na utopia de querer eternizar, sem medir preço e vítimas, um império muito além do prazo de validade.  

 

(*) – “Quase Memórias – Do colonialismo e da Descolonização” (2 volumes), António Almeida Santos, Edições Casa das Letras.

 

Publicado por João Tunes às 18:24
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